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dezembro 05, 2007

A BRUMA POR DETRÁS

fire works.jpg
Foto: Shark


A cor tão esbatida, como numa fotografia antiga de um passado sépia que o tempo se encarrega de deteriorar. No presente só olhamos aquilo que já vivemos e por mais que tentemos é certo que apenas ficamos mais atónitos de cada vez que nos percebemos daltónicos, sempre que desperdiçamos o tempo de agora, tão colorido lá fora, a contemplar o preto e branco que a memória insistiu em não apagar.

Folhas de papel amarrotadas num contentor cercado pelo tapete amarelado das folhas que uma árvore confiou aos humores de um novo Outono acabado de chegar.
Folhas em branco à espera de um futuro pintado com os tons do passado tal como a imaginação os restaurou, garridos. E os prenúncios do Inverno futuro espalhados pelo vento no chão, a escolha evidente entre um Verão que só está presente no passado das recordações e aquele que chegará, depois da Primavera seguinte pintar com o verde da esperança a mesma árvore que este Outono despiu.

A cor pouco definida daquilo que já partiu, assunto encerrado, na névoa dos restos de passado a que alguém se agarra sem nexo enquanto o futuro, perplexo, fica no tempo parado à espera de uma acção que o possa concretizar e lhe permita abandonar a pele de simples expectativa alimentada pela mesma nostalgia que empanturra qualquer frustração potencial.

A mancha difusa de um navio ancorado, algures no horizonte tapado pelo fumo que a água fabricou para troçar do fogo que apagou sempre que no passado entendeu chover.
O frio a penetrar insidioso pelas frinchas das portas fechadas e das janelas tapadas por cortinas que tentam em vão esconder tudo aquilo que não se quer ver sob o pretexto, mentira piedosa, de impedir a visão aos de fora. Os que precisam de censurar tudo aquilo que conseguem espreitar, meia dúzia, na sua visão macambúzia de censores das imperfeições como dos amores proibidos (que o são todos os por si não vividos).

As imagens desgastadas e pelo tempo relativizadas, simples recordações, por vezes inúteis mesmo como lições em cabeças duras demais para discernirem o preço elevado da sua insistência na cegueira de pressupostos inspirados na especulação acerca do que se terá passado em vez de atinarem, sensatas, na busca de um caminho traçado em função de um futuro melhor. O apelo do abismo, estapafúrdio, no beco sem saída de onde não se pode saltar, a dimensão aparente de uma fuga em frente, corajosa, na ilusão andrajosa de um palhaço rico na fachada dos sorrisos mas que se sente miserável perante a falta de piada da sua verdadeira condição.

O circo social que exige vitórias e não se compadece das memórias de excelentes actuações registadas em folhas amareladas que alguém despejou displicente num contentor depois de as amarrotar numa manhã de um Outono qualquer, passado ou futuro, pisando um chão forrado das histórias que uma árvore não precisa contar quando se oferece ao olhar de quem passa e a (pre)vê primaveril, com um sorriso nos lábios de quem ontem sonhou as cores do que hoje pintou para poder observar amanhã ou depois.

As máscaras diferentes de um permanente Carnaval.
Com as cores sempre berrantes de uma vida estival.

Publicado por sharkinho às dezembro 5, 2007 02:56 PM

Comentários

Oi,

Em breve posto meu linque... por enquanto estou construindo o blogue ainda, e como estou em periodo de aulas na universidade, estou completamente sem tempo, mas semana que vem já entro em férias e terei mais tempo...

Acredito que hoje você esteja com a alma do outono em si... cores sombrias...

Como passará o natal caro amigo?

Beijos

Publicado por: Ana às dezembro 5, 2007 04:18 PM

Um texto Outonal (isto existe?) do melhor que já li. Parabéns! Adorei.

Publicado por: celia às dezembro 5, 2007 08:57 PM

!!! Meu amigo estou em total desacordo contigo. Não acho que o passado seja preto e branco mas de um colorido requintado a que o tempo dá matizes de maior beleza. Acho ainda que o passado é aquilo que de mais concreto existe em nós já que o futuro não conhecemos, nem sabemos se o iremos viver e o presente não existe. Admiras-te? então pensa comigo neste exemplo: estou a escrever e cada palavra que escrevo,(tempo presente mas tão fugás),que se torna imediatamente na palavra que escrevi,(tempo passado). O passado é aquilo que existe de mais "sólido" em nós é o que somos o que criamos o que até agora construimos. É na fugás "bebedeira inebriante da côr do presente" que vamos esbatento a côr das coisas bonitas que vivemos.Respeito o teu ponto de vista mas como dizes é no presente que vivemos com "as máscaras diferentes de um permanente Carnaval".

Publicado por: ! ! ! às dezembro 5, 2007 10:10 PM

Nem sempre os meus textos correspondem a estados de alma, Ana. É possível que eu publique textos escritos tempos antes ou que os escreva com base num ambiente criado pela minha imaginação. ;)
O Natal será feliz, com toda a certeza.

E fico a aguardar esse linque, então.

Idem nos beijos

Publicado por: shark às dezembro 5, 2007 10:59 PM

Claro que existe, Célia, e este encaixa nessa categoria. :)
Fico feliz por sabê-lo, amiga.

Publicado por: shark às dezembro 5, 2007 11:03 PM

Como sabes, Espantação, eu gosto de pessoas. E uma das coisas que mais me movem na vida é constatar-lhes e perceber-lhes as diferenças, apreciar essa diversidade que torna cada um de nós único e, pelo menos nesse sentido, especial.
Daí, e apesar de discordarmos (também) na forma de vivermos o tempo (eu acredito acima de tudo no presente, no qual preparo o futuro que virá a ser também o presente em que acredito. Quanto ao passado, serve de referência e pouco mais.
A minha história, o meu passado, só poderão interessar a alguém depois de eu me finar.
Até lá é o meu presente que me julga e que me faz, bem vistas as coisas...

Publicado por: shark às dezembro 5, 2007 11:09 PM