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dezembro 03, 2007
BACK TO THE GOOD (TOO) OLD TIMES

Tirado DAQUI
Consta que a mesma escassez de talentos que permite a perpetuação de fenómenos como os Rolling Stones e regressos em força como o das Spice Girls está agora a instalar-se na moda, ou na corrente, ou na onda, ou o que queiram chamar-lhe, com a adopção dos conceitos estéticos dos anos 80.
Na minha dimensão jurássica já consigo olhar para a década em causa no contexto da minha vida e chego à mesma conclusão que me assolava na altura, enquanto via cruzarem-se comigo as aves raras com cabelo à último dos moicanos ou franjinhas à duran-duran: nasci com uma década de atraso relativamente aos meus referenciais estéticos, criativos e mesmo sociais.
Os anos 80, que os estilistas, jornalistas da treta, industriais ligados à produção de adornos e outros fabricantes de estereótipos tentam agora pintar como “a mais criativa” das décadas que nos habituámos a rotular, passaram por mim como uma maluqueira new wave que fazia parecerem meninos de coro os guedelhudos alucinados que me serviam de inspiração na altura e, ainda hoje, continuam a funcionar como arquétipo de um (meu) mundo perfeito onde a guerra é incompreensível, o amor está sempre disponível e as drogas leves são uma opção legal e até estimulada para a malta não viver careta as agruras deste planeta envenenado pela sua desmedida ambição pecuniária e consequente evolução para uma ganância sem freios à escala global.
Um dos mais evidentes caminhos que o mundo entendeu percorrer (e eu situo essa viragem precisamente no hiato que engloba os careless eighties) foi o da estupidificação normalmente traduzida pelas aberrações em massa que tanto jeito dão na sua vaidade distraída a quem gosta de mandar sem contestação ideológica.
Os anos 80, que vivi na maioria mergulhado nos esquemas “políticos” da consolidação das Associações de Estudantes ou a vergar a mola, deram-me a conhecer as primeiras listas X ou Y que em vez de ideologias pregavam formas de estar na vida, visuais e coisas assim. Estavam-se nas tintas para a cena partidária e queriam era o poder de organizarem as festas liceais onde um gajo dava uns melos e curtia com umas gajas boazonas trajadas com as mais espaventosas indumentárias.
Mas eu era um deslocado, definitivamente amarrado aos ícones psicadélicos em agonia enquanto modelos a seguir. Cedi apenas uma vez, num cabeleireiro, a uma profissional que insistiu em cortar-me o cabelo à Simon Le Bon e só me aguentei naqueles propósitos durante 24 horas e depois fui cortar a trunfa a um barbeiro da escola clássica. Ainda assim, coloquei desde sempre a tesoura da tosquia ao nível da broca do dentista e só muito chagado pelos cotas me predispunha a permitir aparar as pontas, como hoje acontece, precisamente pelo efeito marcante dos rostos de um David Gilmour, de um Jim Morrison, de um David Coverdale ou de um Rick Wakeman no meu imaginário adolescente.
Nos anos 80 quase ninguém ouvia a mesma música que eu. Fechava-me em mim próprio a deliciar-me com os Pink Floyd, os Genesis, os Supertramp, o Bob Marley, os nomes sonantes do FM americano e só tolerava a tal de new wave e a punkalhada e outras correntes da época quando trocava, heresia, o Dois, o Rock Rendez Vous ou o Tóquio pelas matinés de música pirosa nas discotecas onde paravam as gajas todas que interessavam na altura (as mais débeis na estrutura psicológica e, logicamente, mais acessíveis do ponto de vista meta no físico).
Às catedrais do rock a malta ia com as amigas, as mulheres a sério, que não aderiam a modas precisamente por cultivarem nas ideias a diferença de atitude que as outras berravam com as farpelas extravagantes que davam uma trabalheira a retirar das moças.
Por isso não me entusiasma a ideia de ver regressado esse período criativo, sem dúvida, mas demasiado marcado para gajos como eu pelo estou-me-a-cagar-nesta-treta-toda-quero-é-curtir-o-meu-visual-futurista que a tal década rendeu.
Sou mais da onda flower power, aqui e além rasgada por uma valente rockalhada para abanar a carola em dias de maior agitação interior.
E sem espaço na discografia para mais artistas repescados de tempos que tiveram a sua piada mas jamais me poderão entusiasmar na sua clonagem anacrónica.
Publicado por sharkinho às dezembro 3, 2007 12:12 AM
Comentários
Definitivamente, nas questões de indumentária não encaixo no flower power. Estás a ver a Debbie? Pronto...mas partilhamos o gosto pelo Morrison, pela minha parte em tudo (música, escrita, look, viagens) menos nas opções que o conduziram à aniquilação, como é óbvio.
Publicado por: Debbie Harry às dezembro 3, 2007 08:21 PM
Eu também não uso túnicas coloridas nem fitas no cabelo, Debbie... :)
A minha referência flower power passa pela guedelha, pela música, pelas substâncias estupidamente proibidas, pela paz (sou quezilento, mas só até cair em mim), pelo amor livre, pelo Jim Morrison e mais umas influências que não cabem aqui.
Como se constata, a minha referência ostenta, na prática, mais do que um item aniquilado.
Publicado por: shark às dezembro 3, 2007 08:44 PM
Pois, eu percebi. Eu gosto muito dos Doors, são a minha banda de eleição, e do Morrison, então, nem se fala. Da mesma altura gosto dos Beatles, da Janis e de algumas coisas do Hendrix. Se fosse hoje tinham-se resolvido com umas curas de desintoxicação daquelas em clínicas de luxo:-) e não se perdiam aqueles talentos!
Publicado por: Debbie Harry às dezembro 3, 2007 09:29 PM
Going nowhere too fast é no que dá...
E nada garante que desintoxicados revelariam o mesmo génio. A nenhum deles consigo associar o conceito de moderação, há pessoas que parece terem nascido à pressa para condensarem a vida numa fracção de tempo menor. Pessoas que o destino recusa ver envelhecer.
Publicado por: shark às dezembro 4, 2007 12:13 AM