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dezembro 02, 2007

UMA MESQUITA NO CALDO (2)

cunhal.jpg
Imagem: Shark (A partir de foto exposta na Festa do Avante)

Uma intervenção de um comentador nesta posta leva-me a insistir no assunto que, sendo do foro interno do PCP, não deixa de ser do domínio público e, por isso mesmo, susceptível do debate de que os comunistas fazem alarde de serem defensores.
A Democracia não se compadece de dogmas que não o de que o povo é quem mais ordena. E a maioria do povo não ordena um poder onde o PCP actual possa intervir de forma directa. E numa época em que as mazelas que a Esquerda aponta mais se fazem sentir, posições inflexíveis que em nada reflectem o respeito pela diversidade de posições/opiniões e impõem determinada conduta de forma artificial fazem temer o pior e embaraçam o PCP ao ponto de a doutrina ser preterida em abono destas exibições gratuitas de um poder centralizado que já provocou diversas sangrias de peso no seio da organização.

Não existem verdades absolutas nem posições irredutíveis no meu conceito de Democracia, tal como não existe lugar a imposições descabidas e a expulsões por delito de "opinião" num partido da mesma Esquerda onde me posiciono.
Um partido não pode impor aos seus militantes uma prática que nega os seus próprios princípios de funcionamento de uma sociedade moderna (onde o colectivismo só pode prevalecer, nestes dias, se as pessoas sentirem a sua individualidade preservada).
Ou seja, os excessos, os erros de um ou mais dirigentes necessariamente temporários não podem ser assumidos pelos militantes de qualquer partido como legítimos e devem ser questionados sempre que não servem os interesses de um todo que é composto por pessoas com personalidades e sensibilidades distintas e impossíveis de abafar por "amor à causa".
Luísa Mesquita, como Vital Moreira, Barros Moura e tantos outros "dissidentes à força" das últimas décadas, não traiu a causa mas apenas a sua interpretação ao nível da prática partidária.

As causas servem-se com coerência e respeito relativamente aos seus princípios e jamais aos esquemas de funcionamento desenhados ao sabor das conveniências de um poder transitório.

Publicado por sharkinho às dezembro 2, 2007 03:36 PM

Comentários

!!! Concordo contigo em parte. Porém o problema está se o individual se quizer sobrepor ao colectivo. Uma organização seja ela qual for deve funcionar tendo por base, decisões tomadas por maioria, pode descordar-se claro que sim, já me tem acontecido várias vezes, mas se a maioria, não obstante toda a argumentação que eu possa fazer, decidir o contrário daquilo que eu penso só tenho dois caminhos ou aceito ou saio e luto pela minha opinião. Em democracia a maioria é que vence, mesmo que não se concorde. Agora se eu quizer tirar dividendos em proveito próprio é claro que só posso ser convidada a sair, ainda por cima se se assinou um documento de compromisso.

Um ano depois subscrevo na íntegra o comentário que fiz no post a que aludes e que abaixo reproduzo alterando apenas o teu "nome":

Sharkinho, de facto quando escrevi o primeiro comentário não tinha lido com atenção e na integra o teu post, no entanto a verdade é a que escrevi e que tu referes, isto é, quem milita no Partido Comunista Português, põe-se ao serviço do povo e do ideal Comunista aceitando as tarefas que lhe são solicitadas pelo colectivo que é quem decide, quem deve desempenhar determinada tarefa a menos que haja um impedimento pessoal que na maioria das vezes os militantes contornam para colaborar voluntariamente nessas tarefas. É também o colectivo quem decide quando a tarefa desempenhada deve passar para outro militante pelas mais diversas razões. De facto e como dizes muito bem o PCP é diferente dos outros partidos e desde logo porque os seus militantes pagam para trabalhar. É que os militantes do PCP são-no por convicção e não por outro qualquer motivo. O que nos move não é o prestigio pessoal ou os proventos financeiros mas o trabalho a favor de todos até dos nossos "adversários".

Publicado por: susete às novembro 24, 2006 11:58 AM

Publicado por: susete às dezembro 2, 2007 09:42 PM

Susete, as tuas reacções permitem-me perceber que sabes não estares a trocar impressões com um anti-comunista primário. Não o sou.
Porém, vivi de perto a realidade da pressão exercida pela maioria sobre os contestatários a algumas regras que o mais elementar bom senso prova excessivas.
Não me parece que esse sistema de um partido poder retirar as pessoas de determinada função seja imune ao afastamento por "punição" da rebeldia.
Luísa Mesquita alegadamente assinou um compromisso e obviamente nunca lhe passou pela cabeça ver-se confrontada com a sua execução, pelo que não a pinto como uma inocente vítima da crueldade partidária. Isso não invalida que o PCP começa a destacar-se dos restantes pelo nível de abandonos que, tirando uma Zita Seabra ou outra, parece não passarem pela desmagnetização da cassette (tou a brincar, amiga...), mas sim pela reacção hostil do patamar superior do partido a todas as tentativas de alteração dos procedimentos menos consentâneos com uma atitude de esquerda.
E isso não passa pela aprovação da maioria (estou certo de que um referendo interno com voto secreto dos militantes traria fortes surpresas nessa matéria), mas pela disciplina férrea que impede fulanos como eu, mesmo que fosse convicto no ideal, de militarem no PCP.
Claro que aí levanta-se a tal questão do proveito pessoal em desfavor da vantagem colectiva, mas isso parece o discurso da Igreja Católica (outra organização com especial aptidão para desmobilizar fiéis à conta de dogmas estapafúrdios), sempre que exige o silêncio de um clérigo mais arrebitadote.
Se o PCP possui, como os seus militantes acreditam, a receita ideal para aplicar na sociedade deve prová-lo no interior do partido. A imagem que passa cá para fora é de um papão autoritário que ninguém (de esquerda ou de direita) pode deixar de temer no momento de votar e em boa medida explica o sucesso da receita do Bloco de Esquerda, por comparação que, garanto, fica por aí.
E chamo a atenção para o facto de eu ter vivido de perto a realidade de outro partido e, na prática, o fenómeno acontecer na mesma mas de uma forma menos... bandeirosa. :)

Publicado por: shark às dezembro 2, 2007 10:38 PM

!!! Parafrazeando o meu camarada Cunhal digo-te: olhe que não, olhe que não. Tu próprio deste a resposta pois, se em algum momento um militante tem como dizes procedimentos menos consentaneos com uma atitude de esquerda, é natural que o colectivo decida se esse militante deve ou não continuar a ter responsabilidades ao nível que tinha a Luisa. Meu caro amigo a imagem que o partido passa cá para fora é a imagem de um partido coerente com o seu ideal filosófico, e essa coisa do papão, já não assusta ninguém a menos que o 25 de Abril não tenha aberto olhos mentes. (Neste caso e também a brincar te digo que uns comem os figos e a outros rebenta a boca) percebes com certesa o que digo. Quanto ao bloco é assim: muita parra pouca uva. Se estiveres atento verás em muitos casos o alinhamento com o partido do governo.

Publicado por: susete às dezembro 2, 2007 11:46 PM

Tu és uma comuna baril e eu não consigo adoptar uma linha dura na argumentação, camarada.
Até porque tenho a noção do quanto a alma comunista vive hoje da fé... :)
E por isso recolho a bandeira do inconformismo interno e abraço-te no grande ideal comum que é a Esquerda e a defesa intransigente dos valores de Abril.
Assim se vê...

Publicado por: shark às dezembro 3, 2007 12:27 AM

!!! Não é de fé que a alma comunista vive mas do trabalho, da perseverança e da firme convicção que um mundo melhor é possível.
Saudações Comunistas e um abraço.

Publicado por: Susete às dezembro 3, 2007 10:24 AM

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