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janeiro 24, 2008
PEQUENAS TRAIÇÕES
Temo pelo meu país. Temo a deserção em massa, resignada, verbalizada em desabafos que me soam a traição sempre que apelam à integração numa pátria que não a nossa.
A jangada de pedra alucinada de um homem senil, defendida em doca seca pelos que preferem invejar a riqueza alheia do que lutar por todos os meios para lhe equiparar a sua, esse barco apátrida comum, começa a tomar forma no discurso dos desiludidos, dos vendidos e de todos quantos olham para a bandeira como um adorno de janela em dias de futebol.
Sinto sobretudo o desdém instalado no discurso dos que advogam o fim absoluto das fronteiras, sem qualquer melindre perante a hipótese (a certeza) de que qualquer tipo de Ibéria conduziria à inexorável extinção do território, da língua, da cultura desta Nação que tanto lutou pela sua independência quando a cobiça se manifestava do outro lado da linha imaginária que nos desenha na península que o acaso geográfico criou.
Temo que esta moda derrotista, inconsequente no desfecho ambicionado por alguns, constitua mais um prego no caixão deste país que deixamos definhar à mercê de uma mentalidade mesquinha, pequena, oportunista.
Renego um progresso do qual faça parte a perda da identidade portuguesa, da realidade construída por gente de outro calibre, por antepassados cuja memória insultam os que passam uma esponja leviana sobre valores que jamais se deixam cair.
E os mercenários que espreitam e invejam a monarquia vizinha esquecem-se do facto de quem reina no mundo actual ser um país mais recente, um país acelerado precisamente pelo esforço suplementar que o nacionalismo lhe confere.
O amor a uma Pátria não é algo de que se possa abdicar com base em critérios de treta, economicistas. Uma Pátria ama-se e respeita-se, luta-se por ela. E eu não admito hipotecar o futuro dos meus descendentes, a sua origem portuga, por condescender com a aleivosia de comodistas, de gaiatos, de invejosos que nada conseguem dar de seu a uma realidade colectiva que os envergonha mas acreditam-se dignos de se integrarem numa realidade que afirmam melhor do que a sua.
Eu tenho orgulho no meu Portugal.
E nessa matéria jamais pactuarei com falinhas mansas, paninhos quentes ou pequenas traições de mesa de café.
Publicado por sharkinho às janeiro 24, 2008 11:05 AM
Comentários
Eu também tenho orgulho no meu Portugal e acho que a melhor forma de contrariar essa tendência negativa é ficar por cá e aproveitarmos as coisas positivas (porque elas existem).
Publicado por: Debbie Harry às janeiro 24, 2008 01:07 PM
CONCORDO EM ABSOLUTO CONTIGO SHARK E SE ME PERMITES ASSINO POR BAIXO COM O MEU NOME COMPLETO
Susete da Guadalupe Silva Evaristo
Publicado por: Susete às janeiro 24, 2008 01:41 PM
Estou a reler a Mensagem e estou demasiado influenciada, parcial portanto.
Hei-de ler noutra altura o teu post.
Publicado por: Ciranda às janeiro 24, 2008 02:05 PM
Aproveitarmos as imensas coisas positivas, Debbie, e cumprirmos o nosso papel numa evolução para melhor deste projecto colectivo com nove séculos de existência.
Tinha saudades de um comentário teu.
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 02:15 PM
Se pensarmos que neste país, da educação à saúde passando pela justiça nada funciona, com ordenados mínimos de 400 e poucos euros e com reformas que dão para morrer de fome, que temos políticos broncos e medíocres que só se governam em vez de nos governarem, não temos motivos para grande orgulho. Apesar de tudo contínuo a gostar e a querer ser portuguesa.
Publicado por: Maria às janeiro 24, 2008 02:56 PM
Guadalupe é um nome cheio de salero! :)
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 03:05 PM
Lê quando te apetecer, Ciranda. Ele fica cá guardado para memória futura. :)
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 03:06 PM
O orgulho que se tem num país não pode depender de conjunturas aziagas, Maria, ou de sinais inequívocos da inépcia dos que elegemos para governar o país. Disso tem havido em barda nos últimos 400 anos da nossa História.
E é por isso que me viro do avesso com discursos iberistas ou europeistas ou quaisquer outros que ameaçam directa ou indirectamente a independência e a soberania que prezo como relíquias fundamentais.
E desatino solenemente com a merda das comparações com Espanha. Se os acham melhores, bazem para lá ou façam melhor por cá.
Portugal é o melhor país do planeta.
Mas há dúvidas?
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 03:12 PM
Shark, mas que valores são esses que dizes que temos, intransportáveis para qualquer outro sítio?
Não gosto da moda derrotista e inconsequente como tu lhes chamas, não gosto quando me dizem para ir embora, que aqui nada presta. Mas também não gosto quando me impedem de sonhar para além do lá. E tenho medo de rivalidades nacionalistas. A ideia de uma Europa aberta não me assusta, a ideia da mistura agrada-me. Na nossa memória de que tanto falas, não me esqueço dos milhares que partiram e dos milhares que chegaram. E nunca impediria ninguém dos sonhos que comandam cada vida, individualmente.
Publicado por: Randomsailor às janeiro 24, 2008 03:42 PM
Eu compreendo a desilução que é viver num Estado de injustiças, desigualdades sociais, mentiras, corrupção,interesses e onde quase nada funciona; cabe a todos nós lutar contra este estado de coisas sem culpabilizar quem quer que seja, jamais poderemos esquecer que fomos nós que os elegemos para o bem e para o mal. A vida é uma universidade aberta, não existe propinas,as vagas são ilimitadas, onde leccionam os melhores professores do mundo, mas não se compadece com alunos cujas memórias são muito curtas. Na Universidade da Vida só não aprende quem não quer.
Publicado por: António Jorge às janeiro 24, 2008 04:07 PM
Eu não mencionei valores não transportáveis, Sailor. Mas sei que não é possível transferir o amor a uma pátria para outra sem perder a de origem.
Ou melhor, aquilo de que falo é da utopia a que chamam Ibéria, uma só nação ibérica onde faria pouco sentido falar no amor a ESTA pátria em concreto e dificilmente não nos aconteceria algo de parecido com o que sucedeu no País Basco e na Catalunha (que lutam imenso para manterem vivas as suas identidades na Ibéria "à castelhana").
Não temo a mistura, temo a aculturação. E temo acima de tudo a perda de soberania que a União Europeia já limita ao essencial.
Mas enfureço-me acima de tudo perante o argumento do "bem estar" para justificar uma espécie de OPA a todo um país.
Nada disso tem a ver com rivalidades nacionalistas (só existem se existirem interesses ameaçados reciprocamente) ou com a livre circulação de pessoas e de bens.
E muito menos com o conceito de Pátria tal como eu tento definir e que não se compadece com comparações disparatadas e que nos enxovalham de forma gratuita e desnecessária.
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 04:39 PM
É essa a ideia, António Jorge. Se as pessoas são capazes de identificar os problemas e temos todos que os assumir como resultantes das nossas opções colectivas, vamos então arregaçar as mangas e construir um país em condições.
Invejar o país do lado ao ponto de o querer como seu é que me parece repulsivo por instinto e absurdo pela lógica mais elementar.
E pelo respeito que se deve a uma Pátria.
Quem não ama o seu país ao ponto de o aceitar integrado por outro só recebe de mim uma reacção: que faça boa viagem.
Publicado por: shark às janeiro 24, 2008 04:44 PM
Concordo com o Shark. Quem quiser ser uma coisa diferente do que e', que mude de passaporte!
Primeiro que tudo o "estado em que nada funciona" e' um estado em que muitas coisas funcionam (ou funcionavam) com o intuito de servir a generalidade da populacao - e serve/servia. Pelo contrario paises "mais desenvolvidos" e que com melhor desempenho estatistico (sabe-se la' como!!) nao sao governados com o intuito de servir o bem-estar da populacao, mas sim de calar eventuais criticas e processos judiciais... Exemplo? o servico nacional de saude britanico (don't get me started). Nao estou a dizer que esta tudo bem, eu sei que nao esta'!
O que eu sei e' que a auto-critica permanente so' leva a uma coisa: que outros peguem na dica e comecem a criticar ainda mais... e sabem o que acontece a quem muito se baixa...
Para acabar, que ja comeco a dar fastio! Nao e' preciso viver em Portugal para amar o Pais, mas se la vivem (sorte a vossa!) ao menos saibam ama-lo.
p.s. desculpem a falta de acentuacao...
Publicado por: vagarosa às janeiro 25, 2008 11:47 PM
Passarem pela experiência de terem que trabalhar noutro país seria um excelente reviralho em duas estupidezes portugas: a xenofobia e a falta de patriotismo.
Porque a maioria dos que falam nunca se viram confrontados com a necessidade de emigrar, de irem para fora não pelo apelo da riqueza mas pelo medo da miséria ao dispor de um quinto da população do nosso país.
Aí dariam outro valor à realidade que desdenham e fariam o que a todos compete em qualquer realidade colectiva: contribuir com o seu quinhão para a melhorar a cada dia.
Quando percebemos que o nosso prédio é o mais desmazelado da correnteza por causa da inépcia das administrações do condomínio fazemos o quê? Mudamos para o outro e borrifamo-nos para o problema, ficamos no mesmo sem mexer uma palha e berramos ao vento pela janela as suas vergonhas como se assim nos isentássemos de culpas no cartório, ou assumimos a administração para fazermos melhor ou no mínimo pressionamos quem manda para corrigir a situação?
Pelo tipo de escolhas a esta escala reduzida percebemos a natureza de quem as defende travestidas a uma escala maior.
Gostei da tua intervenção, Vagarosa. Mesmo sem acentos, assentou como uma luva... :)
Publicado por: shark às janeiro 26, 2008 02:32 PM