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fevereiro 06, 2008

A POSTA EM VÃO

É recorrente da minha parte afirmá-lo e jamais tentarei descartar as minhas culpas nesse cartório, mas boa parte do abrandamento nas caixas e na visitação e da notória diminuição do interesse de alguns blogues feitos por gente capaz derivam da irreprimível tendência para falarmos DOS outros e não PARA os outros.
Volto ao assunto (já tão remoído e mastigado) porque descobri dois blogues recentes, excepcionais no que respeita à qualidade da escrita e com indicadores claros de inteligência e formação superior por parte dos/as respectivos/as autores/as, ambos já pautados pela tal tendência foleira que denuncio.

Essa tendência consiste no impulso para os juízos de valor acerca dos outros, sejam quem forem – eu próprio se me quiserem vestir essas peles, apreciações depreciativas da personalidade e/ou da forma de estar na vida que transparece daquilo que damos de nós.
É injusta sob qualquer prisma, essa postura fácil de quem dispara às cegas sobre aquilo a que tem acesso sem possuir de forma alguma os elementos necessários para tais conclusões.
E ainda menos com algum tipo de legitimidade para se alcandorarem com tal desplante num pedestal que, bem vistas as coisas, muitas vezes acaba por se revelar feito de papelão.

É que a blogosfera não concede perdão a quem envereda pela crítica com ar superior excepto aos casos raríssimos de quem nunca dá os flancos. E quem consegue tal prodígio só pode ser muito frio e racional ou um arquétipo da perfeição.
Eu não acredito nesta utopia e cada vez menos encaro com bons olhos estas poses de seres superiores que se sentem no direito de escarnecer, de minimizar, de forçar uma elevação artificial com base na comparação inevitável. Quando colocamos os outros num patamar inferior é lógico pressupor que nos instalamos acima, equilibrados de forma precária na subjectiva apreciação do que julgamos valer a mais na dita comparação.
Talvez nem o direito de cada um a uma reacção proporcional às atoardas de outros o legitime.

Insisto que não reclamo para mim qualquer espécie de isenção ou de inocência neste aspecto e a armadilha que a blogosfera constitui (quando temos a decência de, por exemplo, não apagarmos pura e simplesmente os posts ou comentários que nos podem macular o “boneco”) é conservar por escrito a flutuação das nossas posições e que facilmente nos etiquetam de inconsistentes, incongruentes ou simplesmente aldrabões.

Eu não sou, nem quero ser, um membro desse clã de semideuses capazes de esgrimirem o seu talento como armas de arremesso aos que sentem como inferiores ou apenas lhes caem mal por alguma razão que, de resto, nem sempre se prende com mais do que uma simples embirração própria ou solidária.
Não é esse de todo o objectivo desta posta, tal como não pretendo assumir o mesmo papel que critico nesta ocasião.
Pretendo apenas desabafar o meu desconforto perante o que sinto como uma perda.

A perda de mais duas opções (pouco interessa quais, neste contexto) que certamente me serviriam se não me oferecessem mais do mesmo que pretendo, cada vez com maior determinação, exorcizar da minha atitude blogueira e do tempo que dedico a esta actividade que sinto menos hostil e ingrata mas mais descaradamente arrogante.

E, na esmagadora maioria, mais distante e preguiçosa.
Sem sombra de dúvidas, injustificadamente vaidosa.

Publicado por sharkinho às fevereiro 6, 2008 12:16 PM

Comentários

e depois sou eu que tenho mau feitio?

Publicado por: ernesta às fevereiro 6, 2008 12:54 PM

Famas que te põem...

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2008 12:59 PM

Sabes aquela música da Elis chamada Todos Por Um? É assim:

"Eu te conheço, sei o preço da fama
E não esqueço
Que deitei em tua cama em teu berço
Eu sei teu preço, eu te conheço
Meu oportuno herói
Eu lavo as mãos, Pôncio cônscio pilhado em flagrante
Lavo as mãos e prossigo adiante
Eu por mim mesma
Todos por mim, meu oportuno herói"

E agora nada de tirar ilacções, que isto é só liberdade poética e lembro-me desta música quando se fala em fama...

Publicado por: ernesta às fevereiro 6, 2008 01:24 PM

Tirar ilacções? Eu? Ainda me aleijava a tentar e o camandro...

(Mas gostei da parte do deitar em tua cama - na minha, bem entendido, e sem malícia alguma. Prontes, só um nadinha. É um vício de boca meu. Trinta e um de boca, propriamente dito.)

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2008 02:06 PM

diz 33 que isso passa, que 31 só conheço a farinha

Publicado por: ernesta às fevereiro 6, 2008 02:57 PM

Este post suscita-me várias questões mas em termos práticos ficamos por uma: se são dois bons blogues porque não uns links para podermos dar uma espreitadela a confirmar, e depois eu adoro assistir a uma boa peixeirada (afinal foi a seguir uma que cheguei aqui e fiquei cliente) e sou muito cusca, gosto muito de ler revistas cor de rosa :))

Publicado por: Maria às fevereiro 6, 2008 03:41 PM

Compreendo que sim, Maria, e lamento aguçar-te assim o instinto cusco.
Mas para além de essa revelação ser uma forma de desmentir o teor da posta, que não quero - esta, pelo menos - transformada em alimento prá peixeirada, os blogues em causa estão indirectamente ligados a pessoas com quem mantive contenciosos no passado e daí seria fácil atribuirem o meu texto a alguma espécie de ajuste de contas.
E o meu tempo do faroeste já conheceu melhores dias... :)

Publicado por: shark às fevereiro 6, 2008 04:17 PM

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