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fevereiro 08, 2008

HOTEL RUANDA

total caos.jpg

Vi ontem pela primeira vez, em versão cinematográfica, apenas uma mera representação do horror de que se fez aquela história. A realidade, aquela que a outra História conservará para um dia nos esfregar nas ventas da memória uma vergonha das que julgávamos contemporâneas dos nossos pais e avós, fez-se de uma explosão de barbárie que só surpreende quem nunca olhou os olhos de uma multidão descontrolada. Basta somar o ódio à receita e temos o caldo entornado sobre a bonomia humana que deveria bastar para que estas coisas jamais acontecessem.

Estas coisas continuam a acontecer e no nosso tempo de vida adivinho sequelas deste filme naquele ou noutro ponto qualquer do planeta que aos poucos se divide em dois. Ricos e pobres, "bons" e "maus", brancos e outros, ocidentais e esfomeados. E sedentos, e desesperados. E, como o filme em causa evidencia, entregues à sua sorte sempre que a desdita os privar de petróleo, de ouro, de qualquer riqueza ou simples relevância conjuntural que impulsione a vontade de intervir por parte de quem pode mas só faz quando calha.
Quando convém.

Agitar consciências.
É uma expressão que antes me dizia tudo e hoje diz quase nada. As consciências moribundas apenas se agitam em pequenos estertores oportunistas de quem inclina o corpo, desconfortável, para o outro lado do sofá enquanto rumina o pequeno drama do quotidiano de quem não possui moralidade para queixume algum perante o somatório de exemplos que este mundo, a metade dos que se choram sem motivo e a metade dos que já não dispõem de lágrimas para chorar, nos disponibiliza como termo de comparação.

Num modelo social a que chamamos ocidental e que nos ensina a sentirmo-nos príncipes da terra, importantes, determinantes, especiais, grassam os factos que nos provam apenas números na gigantesca contabilidade da máquina que ignora ou trucida quem deixa de fazer parte do tecido produtivo, da roda dos milhões que alimentamos sem cessar apenas para evitar que ela nos morda as mãos. Somos números, apenas, por quanto nos esforcemos para o desmentir até que a falência, a doença, a velhice ou outra fragilidade qualquer nos exponha a fractura sem clemência.
A factura da evidência que os do outro lado do mundo global conhecem à nascença e que os arrasta pela miséria perante a nossa indiferença até o problema se fazer sentir de forma tão descarada que ninguém o pode ignorar.
Quase sempre tarde demais.

Os interesses, não os nossos - gente comum - mas os de quem decide porque pode ou porque a apatia generalizada o permite, sobrepõem-se cada vez mais ao valor de qualquer vida, de muitas vidas até.
Somos apenas aquilo que a sorte deixar e enquanto o nosso caminho não se cruzar com o de um poder sem rosto que nos mima se o servirmos, que nos despreza se o deixarmos e que nos esmaga se o tentarmos contrariar.

E sorte a nossa, a de podermos ainda assim obliterar numa qualquer forma de alienação a responsabilidade passiva pela perda de um milhão daqueles que no outro lado do mundo, quase tão distante como o falso planeta chamado Plutão, servem de figurantes mudos nestes filmes para os cegos e os surdos que apenas aguardam na plateia a sua vez de se sentirem tão supérfluos como aqueles que a sua indiferença abandona, cobarde, à certeza de uma morte que se podia evitar.

Ou de uma sobrevivência cujos termos tornam essa realidade num pesadelo ainda pior.

Publicado por sharkinho às fevereiro 8, 2008 10:27 AM

Comentários

Às vezes tenho medo de olhar demasiado em volta, mas é um erro. Pensamos que todos os males já aconteceram... errado. Conseguem superar-se todos os dias.
Sharkinho, lindo, bom fim-de-semana!

Publicado por: Ciranda às fevereiro 8, 2008 12:40 PM

Eu olho o mais que posso, para ter a certeza de que presto a devida atenção. Dói, mas é o mínimo que a gente pode (deve) fazer.
Obrigado igualmente, Cirandinha! :)

Publicado por: shark às fevereiro 8, 2008 02:13 PM

!!! Tenho idade para ser tua mãe (embora precoce) não tenho idade para ser tua avó mas quando dizes que "A realidade, aquela que a outra História conservará para um dia nos esfregar nas ventas da memória uma vergonha das que julgávamos contemporâneas dos nossos pais e avós" discórdo. Este tipo de acontecimentos, infelizmente, tem vindo a acontecer ao longo da História da Humanidade e por mais conhecimentos que se tenham, por mais civilizados que queiramos ser, o lado selvagem está intrisseco e inerente à nossa condição de animal, e pode aparecer em qualquer momento, reunidas que forem as condições.
E é tanto mais cruel quando esse lado aparece em grupos, acossados pelas desigualdades de tratamento, pela fome, sofrimento e humilhações, para as quais contribuiram certamente os colonizadores daquele pedaço de Africa ao atribuíram privilégios e cargos de comando apenas a uma restrita elite, neste caso aos tutsis, despertando o ódio crescente nos hutus, aliás, o povo mais antigo na região.
Um pouco de História: Em finais do século XIX, a região foi ocupada pelos alemães que se aliaram aos tutsis e converteram os hutus á escravidão, depois da 2ª. Guerra, os alemães perderam o poder na região e a instabilidade passou a reinar. Tutsis e Hutus confrontam-se e várias escaramuças provocam atitudes cruéis do que resultam os acontecimentos narrados no filme.

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 8, 2008 02:26 PM

Quando fiz alusão aos pais e aos avós tinha em mente a II Guerra Mundial (ainda nem eras nascida, ò cota!) e os horrores a ela associados.
Mas tenho a perfeita noção do quanto o lado negro das pessoas se tem manifestado desde tempos imemoriais, Espantação, tal como não aposto num futuro livre das mesmas.
E se tens idade para ser minha mãe (mesmo precoce) calha bem pois nunca escondi o meu fraquinho por mulheres mais velhas do que eu...
(Quero com isto dizer que não me impressionas com os "galões", manjerica.) :)))

Publicado por: shark às fevereiro 8, 2008 02:44 PM