« PARECE FÁCIL... | Entrada | PETISCO DE TUBARÃO »

fevereiro 07, 2008

TALVEZ TENHAM IDO PARA O CÉU E TAL...

a cor da dor.jpg
Foto: Shark

Ele vivia angustiado com a carga de um desejo permanente que não podia satisfazer. Desejava aquela mulher, sonhava-a acordado e a dormir mas passava a vida a fingir precisamente o contrário. Porque ela era casada, e era filha de gente abastada, pessoa muito importante a quem jamais arriscaria manchar a reputação.
O quanto a queria tentava sempre disfarçar, por muito que mal conseguisse reprimir o abraço apertado de cada vez que se cruzavam e lhe estendia a mão para a cumprimentar.
Passava horas a olhar no infinito o rosto e o resto da sua tentação adolescente transportada sem abrandamento até aos seus dias encarquilhados de ancião.

Ela sofria em silêncio a saudade insistente que a dominava quando o percebia ausente em qualquer um dos seus dias. Era dele a cara que imaginava quando ao marido se entregava picando o ponto de uma pálida relação. Olhos fechados na escuridão que exigia nas poucas vezes que o seu amante legítimo insistia na cobrança do seu quinhão matrimonial de prazer. Não a via como mulher mas apenas como uma fêmea disponível, obrigada a cumprir.
E ela consentia por saber que jamais ousaria vestir a terrível pele de qualquer uma infiel das que ouvia criticar e não duvidava do ostracismo a que um divórcio a iria condenar junto do seu meio social.
Passava horas a chorar o desgosto e definhava-lhe aos poucos a alma enquanto envelhecia privada da pele mais desejada que algum dia tocara na sua mão.

Entretanto já morreram os dois.

Publicado por sharkinho às fevereiro 7, 2008 03:33 PM

Comentários

Eu nunca vi ninguém ir para o céu , mas se tu viste, acredito em ti:)

Publicado por: Jorge às fevereiro 7, 2008 04:32 PM

Vi, pois. Era o Pai Natal e tinha acabado de me dar a escolher entre um exemplar do Kamasutra e úm do Novo Testamento.
Prometi-lhe que não contava a ninguém qual dos dois escolhi. :)

Publicado por: shark às fevereiro 7, 2008 04:43 PM

Isto não é a cor da dor é uma feira de vaidades

Publicado por: Maria às fevereiro 7, 2008 06:56 PM

(Toma e embrulha, tubarão...)

Publicado por: shark às fevereiro 7, 2008 07:31 PM

e assim fui

Publicado por: maria40 às fevereiro 7, 2008 11:29 PM

!!! Eu conheço histórias de vidas destruidas como a história que contas que só aconteceram por falta de capacidade do tal sentimento a que chamamos amor. Como disse no comentário anterior nunca me entragaria a alguém pelo qual não sentisse aquele nada que é tudo. Mas também não compreendo quando duas pessoas se amam e nada fazem para viver plenamente esses amor. Por aquilo que contas ele e ela calaram, ou melhor reprimiram o que queriam gritar. Por incapacidade de lutar, por convencionalismos familiares, por, por tudo o que deixaram que se viesse interpor entre os dois. Isso não foi amor foi só atracção e um sonho que durou por não concretizado.
Por amor fazem-se loucuras não se medem consequências, não se pensa no que virá amanhã, não há familia, amigos,convenções. É o hoje que importa e esse hoje pode prolongar-se tanto que até a falta de um dos dois não vem esmurecer a felicidade que um dia foi vivida. Podes crer eu vivi um amor assim, pleno e louco que hoje, passados mais de 30 anos, 26 dos quais sem ele, é ainda uma doce recordação.

Publicado por: ! ! ! às fevereiro 8, 2008 12:06 AM

Foste onde, Maria40?

Publicado por: shark às fevereiro 8, 2008 09:10 AM

É bonita a forma como espraias tanto de ti nos comentários, Espantação.
Eu conheço ambos os lados da questão, a tua e a que o texto aborda.
E só me ocorre dizer que às vezes a vida é muito complicada...

Publicado por: shark às fevereiro 8, 2008 09:15 AM

Estou do lado do shark: a vida é bué de complicada.

Publicado por: claudia às fevereiro 8, 2008 09:31 AM

E se calhar por isso são, quase sempre, as coisas mais simples (simplificadas?) que a tornam tão melhor.

Publicado por: shark às fevereiro 8, 2008 10:35 AM

Comente




Recordar-me?

(pode usar HTML tags)