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março 22, 2008
COMO UM BEIJO NO CHÃO

Foto: Shark
Uma árvore a sós na planície desnuda. Sem sentido algum, ali plantada pelo vento de passagem para outro lado qualquer.
Como uma marca no horizonte, um ponto de referência para viajantes perdidos dos amores esquecidos na terra ressequida pelo sol de Verão. A árvore sozinha num espaço imenso, sobrevivente teimosa, agarrada por raízes de emoção bem fundo no chão que o vento algum dia beijou.
A semente que vingou, surpreendente, humidade absorvida com sofreguidão no desespero de uma solidão que só uma árvore consegue suportar.
E aquela, persistente, determinada, chama seu um lugar no ermo que o destino lhe ofereceu a soprar. Fincada na terra com a garra de lutadora e a vontade de ficar ali, de pé, mesmo nos dias hostis de um Inverno oportunista que lhe fustiga os ramos despidos de folhas.
E a árvore teimosa, sem pressa, à espera do regresso da Primavera que de novo a cobrirá com o verde da esperança, da tempestade à bonança num ciclo que se perpetua até ao dia de morrer.
A sós, na planície que domina com o olhar, passado e presente, a árvore indiferente a quase tudo em seu redor. Orgulhosa da sua copa assim frondosa, preparada para dançar ao som da brisa que a queira agitar com pequenos sopros de saudade de outra brisa que entretanto passou.
Senhora do campo, portentosa, imita o cheiro de uma rosa quando não haja por perto quem o possa cheirar. Sem medo do tempo, corajosa, reproduz a melodia harmoniosa que o vento lhe segreda em sonhos daqueles que uma árvore solitária conserva na memória para cantá-la depois.
Apenas uma árvore ali plantada, pela brisa semeada como um beijo no chão.
Com seiva de mel e uma fragilidade aparente, uma árvore persistente com a resistência do betão.
Publicado por sharkinho às março 22, 2008 10:07 PM