março 17, 2008

SHORT STORY

Sem pressa, arrastou-a até si através do túnel que construíram de repente por debaixo de uma ponte nascida de uma simples troca de olhares. Ou o inverso, pouco lhe importava, enquanto se deixava levar, sem pressa, ou apaixonar - o que interessa? -, para dentro de um pedaço de realidade concebida em exclusivo, impermeável, hermética, para ser vivida a dois nesse momento, num espaço que algum tempo um dia lhes ofereceu.

Publicado por sharkinho às 11:29 PM | Comentários (0)

fevereiro 16, 2008

BISSEXUAL SEM ARGUMENTOS

É todo aquele que flagra a mulher com o seu próprio amante secreto.

Publicado por sharkinho às 09:28 PM | Comentários (10)

fevereiro 10, 2008

MOVIE STAR

Como um cinema ambulante que leva a magia da cor às aldeias e vilas do interior, esquecidas, percorres as estradas secundárias da província, perdidas no tempo, com tudo o que ofereces a quem mostre precisar.

O teu coração como cabina de projecção e o teu corpo, tatuado por tantas imagens do passado e pelas que sonhas (em vão) visionar amanhã, coberto pela pele cansada de uma estrela frustrada.

Convertido num ecrã.

Publicado por sharkinho às 12:52 PM | Comentários (0)

fevereiro 07, 2008

TALVEZ TENHAM IDO PARA O CÉU E TAL...

a cor da dor.jpg
Foto: Shark

Ele vivia angustiado com a carga de um desejo permanente que não podia satisfazer. Desejava aquela mulher, sonhava-a acordado e a dormir mas passava a vida a fingir precisamente o contrário. Porque ela era casada, e era filha de gente abastada, pessoa muito importante a quem jamais arriscaria manchar a reputação.
O quanto a queria tentava sempre disfarçar, por muito que mal conseguisse reprimir o abraço apertado de cada vez que se cruzavam e lhe estendia a mão para a cumprimentar.
Passava horas a olhar no infinito o rosto e o resto da sua tentação adolescente transportada sem abrandamento até aos seus dias encarquilhados de ancião.

Ela sofria em silêncio a saudade insistente que a dominava quando o percebia ausente em qualquer um dos seus dias. Era dele a cara que imaginava quando ao marido se entregava picando o ponto de uma pálida relação. Olhos fechados na escuridão que exigia nas poucas vezes que o seu amante legítimo insistia na cobrança do seu quinhão matrimonial de prazer. Não a via como mulher mas apenas como uma fêmea disponível, obrigada a cumprir.
E ela consentia por saber que jamais ousaria vestir a terrível pele de qualquer uma infiel das que ouvia criticar e não duvidava do ostracismo a que um divórcio a iria condenar junto do seu meio social.
Passava horas a chorar o desgosto e definhava-lhe aos poucos a alma enquanto envelhecia privada da pele mais desejada que algum dia tocara na sua mão.

Entretanto já morreram os dois.

Publicado por sharkinho às 03:33 PM | Comentários (10)

PARECE FÁCIL...

Uns dizem que o amor vale por si.
Outros afirmam que o sexo basta.
Há quem diga que nenhum amor resiste à ausência de sexo.
E não falta quem acredite que o sexo sem amor é uma treta.
Os pragmáticos chegam a defender a ideia de que no sexo o amor só atrapalha.
Os românticos ortodoxos (alguns, e a gente até adivinha porquê) chegam a admitir que o sexo só emporcalha o amor.
As gajas (a maioria, no discurso) só reconhecem legitimidade ao sexo sob o pressuposto da existência de amor ou de paixão ou de qualquer outra coisa, mesmo que imediata e efémera, que possa adornar aquilo a que os gajos denominam simplesmente de tesão.
Os gajos (a maioria, na prática) dispensam o bullshit e só alinham no culto do amor quando isso abre as portas a um sexo fantástico.
Há quem chame ao sexo amor carnal.
E quem chame ao amor (sobretudo à paixão) apelo sexual.

Como é que a malta consegue ir atinando no meio desta salada mista?


Publicado por sharkinho às 03:04 PM | Comentários (12)

fevereiro 04, 2008

O HOMEM DE FERRO

um clima.jpg
Foto/Imagem: Shark

Arrastado pelo tapete vermelho que o teu olhar estende até mim, inexoravelmente arrastado até me perceber colado num ponto de fusão.

Sempre que te aproximas apenas um pouco (de)mais.

Publicado por sharkinho às 02:45 PM | Comentários (16)

janeiro 16, 2008

CASTELOS NA AREIA

mar negro.jpg
Foto: Shark

O sol posto e a luz derramada no meu rosto como a chuva que cai agora, nuvens traiçoeiras por detrás.
A noite anunciada pela escuridão na retaguarda deste bastião do amor proscrito em que me tornei. As coisas que sei e não pretendo partilhar, molhadas, lavadas pela água do céu, levadas pelo mar para parte incerta do esquecimento que confiei ao silêncio do astro rei pouco antes de ele partir do meu olhar.

Um barco ao longe a passar, forrado de gaivotas. Agitada como a folha de uma árvore no Outono, a vela esticada pelo vento e mais uma, queimada, lá dentro, depois de derramar no meu rosto a luz como a água salgada que nos salpicava então.
O balanço da ondulação mais o vento temporal, a dança dos corpos no convés, molhados da cabeça aos pés pelas chapadas da água da terra que insiste em trepar, se calhar para espreitar as silhuetas que a lua descobriu nessa noite que nos viu amantes navegadores.

Memórias de amores suados, de corpos queimados pelo sol. Histórias de caminhos cruzados, de segredos sussurrados com a lua por farol.
A força das ondas nos rochedos, adiante, e os cabelos beijados pelo vento junto ao leme de uma fêmea desgovernada pelo cio. Como uma fotografia que conserva por magia as lágrimas, o frio, e os sorrisos tão quentes que ressuscitam nas recordações.

O som distante dos trovões e um barco no horizonte prestes a desaparecer na escuridão que o devora como ao dia aconteceu, terminado num glorioso final de luz.

Derramada no meu rosto como a chuva que cai agora, lavadas as coisas que sei.

No futuro que abracei quando a tua lembrança zarpou.

Publicado por sharkinho às 10:53 PM | Comentários (0)

janeiro 09, 2008

ANFITRIÃ

girl on the moon.jpg

Entro pela porta do céu nesse espaço que é teu e sinto-me transportado para um sonho acordado pelo suave bater dessas asas que me abraçam então.
Alada a imaginação à entrada, sobrevoo um campo florido nesse corpo despido e imito as plantas quando desenvolvo uma raiz para me agarrar, feliz, a esse lar que me escancaras, cativo, com a ternura de um sorriso e a iminente explosão num olhar que tem o cone de um vulcão reflectido.

Mergulho na lava, protegido pela paixão incandescente deste desejo tão ardente que eleva a temperatura do amor à de um inferno que me apresentas sedutor com a confiança que me inspiras.
Respiro fogo por instantes em cada jogo de amantes que inventamos nas novas posições que nos oferecem sensações inéditas, pouco antes de a tua voz anunciar (sobre o meu grito abafado) que está na hora de descolar para outro aposento ensolarado desse espaço que é meu.

E eu reentro pela porta do céu e sinto-me despertado pelo bater acelerado do teu coração, quando me acolhes no conforto da recepção instalada nesse peito que sinto arfar, envolto num abraço tão imenso, sob um calor tão intenso como o da lareira que arde agora como uma pequena fogueira na praia onde me imagino, em repouso, nesse doce regaço que me ofereces generosa.

A tua alma como uma chave.
E o teu corpo como uma casa.

Publicado por sharkinho às 12:55 PM | Comentários (0)

janeiro 06, 2008

AMOR INCONDICIONAL

Um septuagenário português divide o tempo por vários empregos para poder custear os medicamentos para a sua mulher demente, degradada pela doença de Alzheimer.

É bonito constatar que o amor mais poderoso pode explodir-nos nos olhos numa simples peça do noticiário.

(E é frustrante constatar como cada vez mais acabamos os dias anciãos entregues a nós próprios ou dependentes do esforço sobre-humano de alguém - e como é raro... - capaz de nos amar assim.)

Publicado por sharkinho às 02:44 PM | Comentários (16)

dezembro 25, 2007

AMOR IMPOSSÍVEL

Na Única, a revista do Expresso, encontrei uma história de amor daquelas dignas de filme. Uma história à americana, intensa e trágica, como os génios de Hollywood sempre dominaram e souberam espalhar pelo mundo como se vê.
Um dos protagonistas da história é precisamente um Tenente-Coronel do exército dos EUA, destacado no Iraque como tantos outros arrastados para um conflito com contornos ainda mais aterradores dos que desenham os veteranos da Coreia ou do Vietname.

Mas mesmo na guerra o amor consegue, como aquelas plantas que brotam por entre uma simples frincha no cimento ou no alcatrão, singrar. E calhou apaixonar o garboso oficial por uma médica iraquiana, uma mulher encantadora mas inevitavelmente suspeita numa zona do planeta onde até as sombras provocam temor.
Venceram esse medo com a ajuda da paixão e enfrentaram também a barreira colossal da religião que os colocava nos antípodas um do outro, naquela terra de cruzadas onde germina em lume brando um novo choque de civilizações.
O Tenente-Coronel ocidental aprendeu a amar o Islão, converteu-se sem abdicar de um outro amor, à pátria que serviu enquanto militar até ao dia do final da sua comissão.
Regressou à América casado com uma vida nova, bem diferente da que se esperaria em condições normais.

Nos primeiros dois parágrafos tento reflectir a conjugação que prendeu a minha atenção aquela história em particular. Por um lado, a dimensão grandiosa de qualquer amor tido por impossível mas que insiste em prevalecer. Pelo outro, os bizarros desígnios com que o destino molda os caminhos que cada um de nós percorre numa existência.
É impressionante constatar a escassez, a quase irrelevância da nossa capacidade de intervenção naquilo que o acaso produz.
E entro agora no terceiro elemento que me conduziu a leitura daquele texto desapaixonado, pragmático, até ao fim como espero ter conseguido fazer contigo que me lês nesta altura.

Depois de alguns anos de vida a dois, com as inerentes dificuldades que uma relação nascida daquela forma pressupõe e implica com toda a certeza, concluíram que o Iraque, berço daquele amor complicado, precisava cada vez mais de ajuda na sua recuperação como país.
Os relatos que lhes chegavam eram como gritos que incomodavam ao ponto de entenderem que a nova fé do militar de carreira, a sua posição privilegiada enquanto intérprete dos dois mundos em conflito tornava-o fundamental, precioso, para fazer a ponte por onde se pudesse sonhar com a paz que tarda a acontecer.
E ele acabou por regressar, sem ela para a poupar aos perigos de uma hostilidade inevitável por parte dos seus, e abraçou essa missão que o amor lhe dizia indispensável.
E a lógica também.

Embora ela própria se desminta, mais à que atribuam a qualquer guerra, no epílogo da tragédia que esta posta partilha à luz da minha percepção.
Ele morreu numa explosão concebida pelos conterrâneos da sua amada, quando de uma parte de si próprio abdicava para conseguir oferecer-lhes a esperança que afinal o perdeu.

Publicado por sharkinho às 12:55 PM | Comentários (4)

novembro 28, 2007

NEM SEMPRE FALO DEMAIS

amo-te.jpg
Foto: Shark

Publicado por sharkinho às 04:40 PM

OLIVEIRINHA DA SERRA (repost)

Conforme referi aqui, o post que se segue é o que seleccionei para alinhar na iniciativa do Custódio.
O Custódio é o obreiro do DinheiroOportunidade.com, promotor do concurso cujo prémio chega aos €1000 (explicação detalhada AQUI) e ao qual me candidato com o Oliveirinha da Serra, um dos que mais gozo me deram escrever e o segundo mais participado de sempre neste blogue.

Deixo a caixa de comentários do post fechada porque considero que não faz sentido "misturar" as intervenções da altura em que o publiquei com as que possam resultar deste repost.
Mas sintam-se à vontade para comentarem o texto ou colocarem quaisquer dúvidas acerca do concurso ou da minha alma mercenária na caixa de comentários do post anterior.

Só vocês podem oferecer-me esta vitória... :-)


cemitprazeres.jpg

O meu primeiro contacto com a pornografia, através de uma revista da especialidade obtida por um colega, aos treze anos, foi um momento de grande alegria, quase uma revelação.
Pela primeira vez eu pude constatar a viabilidade de algumas das minhas mais arrojadas fantasias, até essa altura tão líricas como a hipótese de vir a ser capitão da selecção nacional de futebol. Uma coisa é a gente ouvir dizer da boca de putos como nós, ouvirmos falar das piruetas possíveis a três ou da feliz parceria de números tão insuspeitos como o seis ou o nove. Outra coisa era ver como São Tomé e acreditar tanto que a vontade intensa de experimentar as acrobacias até nos fazia doer a alma.

A pornografia representava para mim um manancial de novas técnicas, associado à reprodução mais ou menos realista de alguns conceitos ‘missionários’ tradicionais. Nada me entusiasmavam alguns dos seus tiques clássicos de abertura ou dos rituais excessivos e insistentes no encerramento das actuações. O meu objectivo consistia em reter, do muito e diversificado material hardcore que passei a coleccionar, as práticas realistas que pudessem alargar os meus horizontes no futuro e afastar, da minha vida sexual ainda em fase de estreia, o papão horrendo da monotonia.

De entre as mais escabrosas ou surpreendentes produções que o mundo XXX me facultou retive sempre um manual que lamento ter-se perdido no decorrer de alguma rusga maternal. Datado do início da década de setenta, o livro combinava textos com ilustrações mas só estas últimas podiam considerar-se pornográficas. Era mesmo um manual de competência técnica, um verdadeiro sex for dummies.
Algum Zézé Camarinha cámone com jeito para a escrita e vocação para consultor, do qual nem o título da obra me ficou, deixou-me para sempre na ideia e na lembrança um exercício que, na minha lógica adolescente da época, fazia todo o sentido levar a sério.
De resto, o autor afirmava-se feliz por poder partilhar o seu método com o mundo e fazia-o com tal convicção que, apesar de não me converter a algumas contorções manhosas, convenceu-me a adoptar o treino das azeitonas.

O treino consistia em girar diariamente uma azeitona entre os dentes, com a língua, por cerca de meia hora, sem a descascar ao longo do exercício. Também dava para fazer com uvas, mas só numa fase mais adiantada do programa (devido à maior fragilidade da respectiva casca). E o experimentado (e, nas suas palavras, bem sucedido) atleta de alcova explicava, por a mais b, os proveitos que resultavam dessa pachorra shaolin, a subida em flecha da cotação de um amante rotinado na arte de bem rodar uma azeitona sem lhe danificar a pele.

Hoje já me resta pouca paciência para a pornografia, até porque as melhores e mais adequadas práticas aprendem-se no mundo real. Mesmo as inovações encontram na pornografia alguma resistência, pois os empresários do ramo parecem determinados em manter a receita (ainda hoje) ganhadora. Apesar de não ser um entusiasta do género nesta fase da minha progressão na aprendizagem, gostava que os putos de agora tivessem acesso a qualquer coisa que equivalesse ao meu manual de treino com azeitonas. Porque nem todos conseguem compreender que a pornografia não deve ser levada demasiado a sério e isso, manifestamente, gera desvios comportamentais pouco saudáveis e que o meu mestre ‘azeitoneiro’ jamais recomendaria.

Publicado por sharkinho às 10:25 AM | Comentários (234)

novembro 20, 2007

QUANDO ELE CHEGAR

just waiting.jpg

Fixa o olhar no sol que começa a rasgar a escuridão com garras afiadas de luz.
Grita o teu desafio e deixa que o vento transporte esse grito até onde saibas que existe alguém capaz de o ouvir.
Podes até rugir o teu reinado, vossa alteza, nesse pico elevado de onde exiges contemplar, tanta beleza, um mundo inteiro para reinares no teu interior.
Recebe a brisa no rosto como um beijo e entrega-te a um desejo a que te saibas incapaz de resistir. Não admitas fugir dessa paixão que te enlaça, enfrenta a ameaça ciente de que será tua a vitória final.
Abandona o preconceito, decisão fundamental, e desnuda esse peito vulcão no momento em que os teus pés já não tocam o chão, à beira do abismo, pendurada pelo abraço que te protege do medo. Do frio.

Depois abre as tuas asas e salta no vazio.

Publicado por sharkinho às 07:55 PM | Comentários (4)

novembro 08, 2007

A POSTA QUE EU TOPAVA LOGO A CENA...

fingideira de orgasmos.gif

De vez em quando deparo-me com uma questão incomodativa para qualquer homem: a simulação do orgasmo.
E afirmo-a incomodativa com toda a propriedade, pois sinto-a como um arrepio a cada slide que passo na minha memória enquanto lhe decalco um sinistro ponto de interrogação.
É que parece ser algo bastante comum, um dos mais badalados recursos manhosos dos verdadeiros canivetes suíços que são os cérebros femininos.

Na cama, a maioria de nós gajos joga ao ataque e só nos sentimos vencedores quando conseguimos marcar um golo. Se descobrimos que afinal era falso alarme sentimo-nos tão defraudados como se nos tivessem roubado a vitória num golpe de teatro na secretaria.
E esta do teatro é mesmo intencional, pois existem as que se afirmam peritas nesta arte de talião de alcova (embora um gajo acabe por desconfiar que o são quase todas) e a anatomia facilita-lhes a actuação enquanto num gajo até os pelos do cu batem palmas na plateia do faz de conta.

A coisa faz-me confusão sob vários pontos de vista.
Vista de cima soa de imediato a trapaça, a vigarice, quase uma traição.
Vista de baixo ocorre o contra-senso entre a popular queixa da despedida precoce (é tão bom não foi?) e a necessidade de fingir o êxtase só para correr com o bacano de cima.
Mas seja vista de lado, de esguelha, ou por detrás a coisa afigura-se sempre como uma manifestação de um poder feminino que um gajo só deseja ver pelas costas…

Claro que a culpa é dos gajos, esses maníacos da gritaria que parecem movidos pela energia dos gemidos e só abrandam o vaivém quando o clímax se manifesta em conformidade com a artista. Verdadeiro ou não, para alguns é uma satisfação complementar à que se predispõem usufruir só depois desse fogo de artifício (os que se aguentam à bronca com o barulho das luzes anterior).
E esta do artifício também não aterra por acaso nesta prosa de protesto contra a divulgação pública desse talento que tanto nos embaraça (os que não se estão nas tintas para o golo e contentam-se com um empate – ninguém sai a perder - num jogo recheado de boas oportunidades para rematar à baliza).

Porque afinal quando incluímos este argumento na conversa, as gajas são lixadas, uma pessoa vê-se confrontada com um súbito abrandar na aceleração entusiástica rumo ao seu guiness pessoal, o contador de proezas, e nem sempre o orgulho se lembra de apertar o cinto de segurança. É vê-lo, dissimulado por detrás de um riso amarelo, a aproximar-se em câmara lenta do pára-brisas e acabar por se esborrachar nessa dura e penosa constatação que, ainda por cima, se basta enquanto simples motivadora da dúvida.

Estou solidário para com todos os machos da espécie vítimas desta fraude que desaba nas cabeças (de burro) com o peso de um céu.

Eu sinto-me (algo) confiante (mais ou menos, assim-assim), pela (relativa) certeza de que (se calhar) comigo (provavelmente, penso que) nunca aconteceu...

Publicado por sharkinho às 11:00 PM | Comentários (13)

novembro 03, 2007

NA EBULIÇÃO DA ESCRAVATURA

lets go for a walk.jpg
Foto e inspiração do texto: Victor Ivanovsky, retirada (com uma vénia também) DAQUI.

Vejo-te a preto e branco, magnífica, numa película do tempo em que por detrás de cada diva tinha que existir uma mulher sensacional.
Sento-me numa cadeira vazia da sala cheia a abarrotar, perco-me no meio da plateia à tua procura com o meu olhar sedento de imagens luminosas como as que fazes explodir no meio da escuridão, sempre que a câmara se deixa seduzir por uma pose das que distinguem as eleitas a que o mundo presta vassalagem como às peças mais raras, únicas, aos tesouros mais valiosos que todos cobiçam mas nunca pertencem seja a quem for.

Vejo-te também desenhada com traço fino na policromia das emoções, tons suaves na moldura que realça ainda mais a força de cores tão vivas, quase berrantes, como aquela que te destaca os olhos no meio da tela acarinhada como se da tua pele se tratasse pela sensibilidade artística de um pintor genial.
Chego-me à fila da frente daquele grupo de gente que te contempla, atenção concentrada na deusa retratada num momento de génio de um reles mortal em plano secundário, despojado da pertença de um quadro que o mundo inteiro reclamou.

Vejo-te ainda admirada numa prosa bem esgalhada a partir do impacto da tua existência na retina e na alma de um autor qualquer.
Leio as palavras esculpidas no papel, a sensação que a tua pele inspirou na obra como ele a imaginou quando decidiu aceitar o desafio de te eternizar com a sua forma de expressão e atraiu a multidão que atafulharia o interior de cada livraria onde a tua foto de capa brilhasse como um halo de luz.

A preto e branco, magnífica, nas páginas monocromáticas com palavras em cinza suave que emolduram os teus olhos que se destacam coloridos na percepção de quem lê a emoção que protagonizas no ecrã da minha vida onde os teus filmes passam em sessões contínuas em todos os canais.

Recosto-me na cama e ofereço-me conquistado, rendo-me apaixonado, entrego-te o comando à distância da minha vontade que dedico por inteiro à satisfação de cada uma das tuas fantasias ou dos caprichos que entendas justificados, coloco-me ao inteiro dispor.

Preto no branco, em discurso livre e directo, o melhor do meu tempo és tu.
E eu ofereço-me todo nu, com os poros incendiados por um desejo libertador e os sentimentos escravizados pela tirania deste amor.

Publicado por sharkinho às 12:56 PM | Comentários (0)

novembro 02, 2007

SERÁ POSSÍVEL...

Alguém preencher todo o horizonte disponível com a luz, a força e a beleza do seu olhar?

Publicado por sharkinho às 08:57 PM | Comentários (7)

outubro 21, 2007

IMPLOSÃO PRECOCE

Sentia-se no ar a pressão e adivinhava-se uma explosão enquanto os dois se fundiam como uma bomba e o respectivo detonador.
Arfantes, ardentes, tocavam-se como se disso dependesse a sobrevivência. Tiquetaque, venham os minas e armadilhas, tanto potencial devastador.

E eles aqueciam enquanto pressentiam um momento crucial, as mãos descontroladas pela pele transformada no invólucro de um dispositivo que accionava o desejo explosivo e os convencia do desabrochar de um enorme amor.
A mão dela em discreta aproximação daquilo que funcionaria como um botão para a hora decisiva.
O toque ansiado com dedos de fogo na ponta do rastilho que conduziria à deflagração.

Uma enorme desilusão para a parceira amorosa e sua expectativa ambiciosa, a imagem de uma flor de repente tão murcha.

O mecanismo até funcionara em condições. Mas o pavio era curto demais...

Publicado por sharkinho às 12:43 PM | Comentários (2)

setembro 10, 2007

HÁ GENTE ASSIM

pirosa é a vossa tia.gif

Há gente que rebola lá ao fundo, onde apenas se consegue distinguir um tapete de flores no chão. Sim, naquele lugar distante onde as pétalas embalam com o vento e imitam as borboletas que antes coloriram aquele céu.
E não param de caminhar, a vida inteira, na direcção daquela gente que rebola lá ao fundo e ouvem-se os sorrisos no canto dos pássaros que migram em círculos para voltarem, completa a circunferência, ao sítio de onde partiram por saberem ser esse o melhor sítio para ficar.
E não param de caminhar, os sonhadores, no sentido dos seus amores obrigatórios inscritos a ouro no código da sua estrada feliz.

Há gente que se isola num poço sem fundo, onde apenas se consegue ouvir um ruído imperceptível, vindo de cima, que podiam acreditar ser a força do mar nos rochedos, numa terra sem medos onde as pétalas embalam com o vento e espalham sobre os corpos dos amantes que rebolam lá ao fundo um manto colorido de pudor.
Mas preferem interpretar o som como um soluçar constante, realistas, o sofrimento permanente da gente desnuda que se expõe ao flagelo das intempéries humanas e ao pesadelo das relações intemporais, monotonia, e no final enfrentam sempre, que eles próprios provocam, a agonia de mais uma ilusão.

Há gente que se guia pelo coração, onde apenas se acolhem aqueles que se escolhem parceiros para a partilha do que a vida tiver para oferecer. Sim, no interior de um peito onde desaguam os rios vermelhos que circulam em cada pessoa e se revelam tão fortes como enxurradas quando arrastam pelas veias o sangue quente da emoção genuína. Que arriscam.
E não param de caminhar, a vida inteira, rumo ao berço da utopia onde reina a magia e as paixões desconhecem o conceito de fim.

Há gente assim, tão diferente da maioria.

E existem também os que racionalizam a beleza e abraçam uma forma de tristeza que transpira nas suas conclusões e na cobardia das suas deserções quando mergulham a cabeça para fugirem da ameaça de um sentir em demasia, que desviam o olhar para o lado quando sentem na retina a dor instintiva que lhes suscita o receio perante a mais ténue fonte de luz.
Lâmpadas fundidas, consciências entorpecidas pelo remorso das desistências que os priva da corrente que os ilumina e que é a mesma que anima os rios que desaguam no peito cuja pele oferecem a eito aos beijos que jamais os seus poros conseguirão absorver na essência do que representam.

Há gente que prefere os que lamentam insucessos de forma erudita ou gemem patéticos uma história maldita que os cega ao ponto de se ajoelharem em descarada subserviência. Ou ainda os que disfarçam a indiferença com fretes ocasionais.
E há gente, por outro lado, que rebola no meio do prado onde predominam os tons de um jardim onde os amores não conhecem o fim e o vento poliniza as flores e os corpos com a dádiva da esperança que transmite a confiança necessária para o desabrochar de uma história imortal.

Um romance, afinal, que fala de um lugar distante onde só vive aquela gente capaz de rebolar pelo chão quando se entrega à emoção.

Há gente capaz de ficar quando encontra um lugar onde o sol nunca se põe.

Publicado por sharkinho às 11:49 PM | Comentários (0)

AMORES IMPOSSÍVEIS

Não passam de aberrações estatísticas.

Publicado por sharkinho às 09:32 PM | Comentários (17)

setembro 07, 2007

CAMPISMO SELVAGEM

A noite, estrelada, espalhava pelo ar o som da rebentação das ondas enquanto os dois conversavam a vida como a viam até ao momento em que a falaram sob o prisma do desejo e da tentação carnal.
A noite avançava sobre si própria, já madrugada, e transportava no calor do seu sopro ligeiro de Verão os sons de outras pessoas naquele areal, caladas as bocas pelos corpos que as sentiam e os sons que se ouviam certamente influenciavam o rumo do diálogo e a pretensa necessidade de dormir.

O saco-cama, vazio, destinava-se a enfrentar um frio que arrepiava no período de transição entre a despedida da noite e o surgimento do sol no horizonte que ambos haviam contemplado em silêncio na esplanada mais acima quando acontecera o ocaso desse dia especial.
E agora surgia, esse leito improvisado, na visão periférica dos dois conversadores cujas palavras pareciam agora abafadas pelos ecos do prazer alheio que ambos sentiam vontade de partilhar mas calavam. Excepto nos olhares que trocavam e lhes denunciava a intenção.

Ele já tremia de emoção quando enfrentou por fim o desafio de lhe propor o parco recato que aquele espaço individual lhes poderia proporcionar, nele enfiados os dois, nela enfiado o que o endurecia nos planos à solta pela sua imaginação treinada para a fantasiar.
Já não conseguia reprimir a erecção que o embaraçava, pueril, quando ela o mirava num soslaio demasiado óbvio para se afirmar como um acaso do olhar.

Foi ele o primeiro a tocar, receoso, mas ela num beijo fogoso abriu-lhe os portões do desejo que nessa altura já nada os impedia de concretizar.
Os corpos colados, contornos traçados, o fecho aberto sem pressas para que ela pudesse descer como de repente lhe apeteceu.
A boca que percorreu o tronco desnudo e quando chegou ao fundo daquele espaço percorrido aguardava-a um membro preparado para lhe sentir o calor do primeiro espaço interior que lhe conheceria na ocasião.

O descontrolo da tesão recíproca, gemido por ele com os olhos fechados e as mãos nos cabelos compridos espalhados por ela, incansável na ânsia de lhe sentir de forma tão nítida os sinais exteriores de um prazer que lhe adivinhava fora do normal.
Sabia-se especial aos seus olhos, desejada, e sentia-se determinada a satisfazer aquele homem que a interessava pelo muito que a intrigava no seu discurso vai-vem.
O movimento que ele ensaiava agora quando se aproximava a hora de se vir.

E ela decidiu adiar esse final feliz mas ofereceu-lhe o que quis, possuí-la, quando a boca confiou a pila aos cuidados intensos de um internamento vaginal.
Beijaram-se de forma prolongada enquanto ela se desembaraçava aos poucos da roupa interior, sozinha no esforço enquanto o amante se transformava num polvo tão sôfregas as mãos que a apertavam ou afagavam e a remexiam por todos os pontos que os seus braços conseguiam alcançar.

A noite a transportar os sons irreprimíveis por entre as ondas audíveis do mar e do prazer de outros corpos a gritar como ela o fez quando finalmente o sentiu prestes a entrar naquele vazio que urgia preencher bem depressa.
Encaixou-o em si até mais não poder e ele a empurrar-lhe o corpo contra si e a arquear-se no contributo possível para a mais completa penetração.
E ela doida com a sensação, dois orgasmos consecutivos. E ele contraído por dentro para evitar a imitação que o corpo exigia mas a cabeça sabia ser inteligente conter naquela altura.

Ela de novo deitada a seu lado, o desejo acordado e o falo como sinal inequívoco de que não chegara ainda a vontade de dormir naquele saco de sentir o corpo na sua mais intensa expressão.
Virou-a de costas para si, alguns instantes depois.
E não tardariam os dois a reentrar no coro da madrugada que cantava o sexo selvagem naquela praia de amantes sob as estrelas onde os levava, a partir daquele saco, a loucura que parecia dominá-los na altura em que ela voltou a assinalar um momento mais alto da sua satisfação.

Mudaram de posição, ela por baixo. E ele a roçar o seu pé descalço pelas pernas abertas que o queriam receber outra vez. Os beijos imensos e os espasmos intensos que a agitaram quando ele, incansável, voltou a entrar e, desta vez devagar, exibiu o entusiasmo juvenil que o tornava mais viril e ele crescia dentro dela ao ritmo da sua emoção. E acelerava a pulsação, realizado com o sonho concretizado nessa noite cujas estrelas ela olhava deliciada enquanto aguardava paciente o momento de o acompanhar no grande final que acabaria por acontecer.
E ele quase a chorar de alegria e ela a saborear a magia de uma forma tão simples de acrescentar uma recordação inesquecível e dar sequência a um desejo visível que o parceiro de circunstância provara ser sério.

No ar ficou o mistério acerca da sequência do episódio, pois o silêncio imperou quando o sol anunciou o seu regresso optimista reflectido nos olhos felizes dos dois amantes em paz.

Publicado por sharkinho às 02:02 AM | Comentários (0)

setembro 05, 2007

VÍCIO DE BOCA

sexo dos anjos.gif

Agradeço à tua boca os sorrisos que me oferece quando explode no teu rosto a beleza de uma luz natural como a que apenas o sol é capaz de produzir.
Agradeço-lhe também o som da respiração que escuto quando a noite acalma no nosso leito e adormeces no meu peito com uma expressão de felicidade em que pareces sorrir.

Agradeço à tua boca os lábios com que me toca sem nojos ou fronteiras a pele que não consigo despir, a única que possuo, e te agradece, enquanto te vejo dormir, os mimos generosos e os beijos tão gulosos que me viciam na doçura e me suscitam a ternura que depois convertemos em tentação, trabalho de equipa, e abraçamos a emoção mais intensa, a tua boca na minha e eu dentro de ti com a alma e o coração mais o corpo que te agradece a dádiva de tanto prazer.

Agradeço-lhe também as palavras que não ficam por dizer, essa língua genuína que se mostra tão traquina e se revela de igual modo perfeita em qualquer tipo de utilização.
O amor que se faz, empenhado, o mesmo amor que quando falado não desmente no que diz aquilo que a prática da tua boca teorizou e depois me provou como um apetitoso manjar.

Agradeço à tua boca o degustar do homem que sou, pelo amor próprio que esse teu prazer não disfarçado alimenta. A tua boca que me sustenta capaz de acreditar que vale a pena saber amar o todo e retribui-lo pelas partes de cada pormenor que te distingue da multidão.

Agradeço-lhe a distinção que me concedeu de poder tocar o céu.

Nessa tua boca divina, onde posso voar sem fim quando acolhes qualquer ponto de mim como um anjo numa nuvem envolve com as asas, ao som de uma harpa celestial, o espírito recém-chegado de um corpo abandonado porque entregue sem reservas ao mais supremo prazer.

E a minha boca a agradecer, com beijos e palavras que te dou, este sabor que se instalou em definitivo no palato onde convivo a todo o tempo com o teu gosto que me satisfaz, especiaria.

O picante abrasador dessa boca minha amante no calor de uma fantasia onde o teu sorriso sensual preenche as imagens mais arrojadas e as palavras atrevidas escritas sem cessar na expressão do meu olhar e proferidas pela tua boca que contemplo enquanto te permito dormir.

Até que te toco, irreprimível, e explode outra vez no meu rosto a luz incandescente que produz o teu sorridente despertar.
E eu agradeço nesse instante em que a tua boca dança no meu ventre ao ritmo de um poema beijado que o meu corpo apaixonado já não dispensa recitar.

Publicado por sharkinho às 04:46 PM | Comentários (5)

setembro 01, 2007

DEIXA-ME SONHAR

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Deixo ficar em ti por mais algum tempo essa peça de lingerie por ser das poucas que te fazem justiça.
Fica perto de mim o bastante para poder observar-te sem pressa e deixa ficar essa peça de tecido desenhada como um vestido de cerimónia daqueles com que impressionas ao meu lado quando saímos os dois a todo o tipo de locais onde ofuscas a concorrência.

Deixa-me tomar consciência do privilégio que representas, esta cama onde assentas agora a parte da frente desse vestuário para uma ocasião especial, esse mimo para os meus olhos que tu és e esse pormenor escolhido de propósito para mim ainda mais enfatiza.
Deixa-me desenhar-te os contornos com o toque mais suave que os meus dedos consigam reproduzir.
Permite-me conduzir cada um desses adornos a dez à hora, pela estrada do corpo fora, até o choque da minha visão se transmitir ao coração e o pulso acelerado no teu flanco agarrado se fizer sentir.

Deixo ficar em ti aquilo que te mereci e antes te ofereceu a perseverança com que busquei cheio de esperança os pontos certos e os momentos correctos para fazer sentir a minha presença nesse corpo que partilhamos sempre que nos amamos e justificar-te o cuidado com que te cobriste para teres a certeza de me agradar no momento de retirar tudo quanto me impeça de ir sempre mais além.

Deixa-me saborear a memória do início desta história e nunca lhe admitas um fim.

E eu deixo-te ficar para sempre divina em cada lembrança que é minha e tu insistes alimentar a cada dia com um sinal de que também tu não consegues esquecer a loucura anterior e degustas, nas nuvens, uma previsão saborosa daquilo que será a próxima e te imaginas reflectida na montra de onde alguém retirará a tua selecção particular.

E eu depois deixo ficar por mais algum tempo o olhar até ao momento inevitável de me entregar outra vez sem reservas ao culto da tua sublimação.

Publicado por sharkinho às 09:02 PM | Comentários (2)

agosto 29, 2007

O CAMINHO DAS ESTRELAS

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Imagem: Shark

Deixaram-se ficar, lado a lado, cada corpo encostado ao de outra pessoa afinal tão próxima que se sentia como um prolongamento natural.
Dos corpos como das almas, abraçadas as existências num instante do tempo tão agradável que se deseja imutável e não se quer de todo parar. Um só, naquela dupla fundida pela pele como pelo olhar. Apenas um a deslizar pela caxemira, perdidos os dois na sensação partilhada tão perto, tão dentro, tão intenso o momento que desaparecem as barreiras e são abolidas as fronteiras naqueles corpos como nas almas que se unificam quase, quase, até ao ponto de fusão.

Deixaram-se ficar, lado a lado, cada amor demonstrado com as mãos que tocavam a carne e com os olhos que beijavam ardentes a sua componente imaterial.
Um momento imortal nas memórias conectadas pela sensação comum, interligadas pela partilha de emoções libertadas pela suave fricção de dois corpos nus e os olhares meigos trocados, cada vez mais incendiados pelo calor.

As gotas de suor misturadas também, apanhadas pelo caminho de descida nos corpos de mãos dadas, as gotas igual, molhado o lençol pela transpiração de um crescendo de tesão que os poros libertavam como gueiseres minúsculos nos corpos incapazes de conter aquela força subcutânea, como uma lava subterrânea em busca da saída em cada cone de vulcão.
O acelerar da respiração, ar quente soprado da boca ardente de cada um daqueles amantes tão próximos da ignição. Como bocas de dragão, lança-chamas, e os olhos doces transfigurados, aos poucos, semicerrados pelo conjunto de alterações naquele par de expressões indistintas na sua vontade de transmitir o prazer e a ânsia de um querer tão poderoso que os colava, magnetismo, até nenhuma célula permanecer resistente ao fenómeno de atracção.

Inexorável, a mudança de posição repentina sob a luz filtrada pela cortina brilhando nas gotas sobre os corpos em pequenos pedaços de luz. Como estrelas instantâneas na pele, reproduzido o cenário espacial por onde deambulavam agora as consciências dos dois.

Passageiros sem destino, unidos numa viagem pelo universo paralelo a bordo de uma estranha embarcação baptizada com o nome “Paixão” soprada pelo espaço fora sem rumo, ao sabor de ventos cósmicos que podem de repente parar de soprar, como podem indefinidamente arrastar os corpos para fora da vida terrena e as almas para o interior de um planeta chamado “Amor” de onde poucos pretendem regressar.

E eles deixaram-se ficar, lado a lado, a alma feliz e o corpo cansado, as peles convertidas num firmamento e as almas perdidas algures numa outra dimensão do sentir.

A viagem de exploração inacabada na leitura dos mapas estelares desenhados nos olhares em lume brando cuja fervura iminente anuncia que a qualquer instante chegará, de novo, a hora de partir.

Publicado por sharkinho às 01:02 PM | Comentários (2)

agosto 21, 2007

USUFRUTO PROIBIDO

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Nem lhe deu tempo para pensar. Depois de lhe ter franquiado a entrada, ela deveria saber o tipo de abordagem previsível de um homem assim.
Era um tipo prático, de raciocínio simples, e por isso percebeu quando ela lhe voltou as costas e entrou para o aposento onde bastaria ter fechado a porta atrás de si para sinalizar uma recusa.

Nem lhe deu tempo para hesitar. Possante, agarrou-lhe uma nádega com a mão direita enquanto a outra puxava para os seus lábios a boca que parecia convidá-lo a beijar. E beijou, sôfrego. E ela deixou, ávida.
E ambos tombaram na cama poucos metros adiante, ele enorme, por cima, ela enlouquecida, por baixo.
E as mãos sem controlo, as disponíveis. E a roupa prática de Verão a desimpedir os corpos aos poucos para as peles se tocarem tão perto quanto lhes era possível, por dentro onde fosse acessível, e a língua dele à procura, gulosa, do que nela lhe sabia melhor.

As mãos na cabeça do amante, perdida no prazer crescente do fogo que entre as pernas a consumia e o resto do corpo totalmente combustível, a fêmea disponível para a investida do calmeirão que lhe agarrava ambas as nádegas com as mãos e a apertava contra o rosto e a degustava como um doce de eleição.

Assim que gemeu mais alto e o corpo tremeu como numa espécie de convulsão sentiu o peso de uma mão num dos seios, a outra logo a seguir e um homem a subir aos poucos, evidente a vontade que acumulava de consumar a conquista com a sua marca viril.
E ela com as pernas abertas, ansiosa, a boca do amante habilidosa na metade do corpo acima da que lhe implorava uma acção imediata de preenchimento de um vazio.

Voltou a gemer acima uns decibéis quando sentiu a entrada firme do membro que agarrava e media e agora conduzia como uma viatura de emergência para o local da ocorrência mais grave a atender.
Ele grande, ela flexível, o perfeito deslizar e o orgasmo irreprimível quando sentiu tudo quanto cabia dentro de si.

Uma pausa de segundos, para ele apreciar a expressão da parceira e a deixar sossegada naquele momento de explosão individual.
E depois o regresso ao movimento normal de vaivém. Forte mas cuidadoso, tentava manter-se amoroso enquanto a possuía e por todo o lado lhe fazia pequenos carinhos com a boca e com as mãos.

A mudança de posição e ela desvairada com a respiração ofegante que sentia agora vinda detrás. De lado e ele todo encaixado em si outra vez, a anca a funcionar como alavanca pela robustez das suas mãos. A nítida percepção do que a tomava de assalto, um falo muito erecto que a levava à loucura enquanto ele sussurrava frases mais ou menos ordinárias que aumentavam o desvario que dela se apoderou.

Foi quando dele se libertou e lhe buscou a cintura e lhe provou que sabia retribuir o prazer recebido daquele pedaço lambido de homem em condições.
Pouco tempo durou, pois quando menos o esperou ele afastou-se delicado e deitou-a de bruços, corpo espalmado pelo peso e uma sensação confusa num misto de dor e prazer e deixou de doer quando os seus dedos acariciaram o que deviam e ela aceitou de bom grado a surpreendente intrusão.

E a absoluta necessidade de experimentar toda a novidade possível naquela primeira mas talvez última ocasião. Mas a consumação daquele macho vibrante aconteceu no instante em que ela, saciada, regressava de novo onde o tronco acabava e a zona da pila começava e ela queria explorar um pouco mais. E seria até ao fim, pois o amante tratado assim não conseguiu prolongar a sua contenção e ela acolheu a explosão abocanhando a granada.
E sentiu-se realizada com o espasmo e o som e o olhar agradecido do amante embevecido que a abraçou no final.

Deixou-a prostrada no leito, linda e mesmo a jeito de uma apetecida repetição.
Mas saiu como sentia sua obrigação nas circunstâncias em causa.

E ela sorriu satisfeita quando ouviu a porta fechar e decidiu deixar-se ficar a fazer planos para a incursão seguinte ao espaço sideral, que sabia de antemão seria sempre a melhor, com o marido que regressaria umas horas depois.

Publicado por sharkinho às 11:41 AM | Comentários (12)

agosto 16, 2007

EU PODIA DESEJAR-TE, APENAS...

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Foto: Shark

Mas não te faria justiça, qualquer desejo, por quão intenso se pudesse manifestar.
A mulher que és, aos meus olhos, merece mais do que o desejo, merece a paixão descontrolada.
És mulher para ser amada em cada momento desse teu tempo que te imploro para comigo partilhares.

Um tempo de qualidade, amanhã e para toda a eternidade.

Apenas o tempo normal de que qualquer anjo dispõe.

Publicado por sharkinho às 07:52 PM | Comentários (2)

agosto 13, 2007

AGORA QUE O ÉFE ESTÁ EXPLORADO

Quero andar mergulhado com afinco na busca do conhecimento associado à letra que se segue no teu alfabeto carnal.

Publicado por sharkinho às 03:01 PM | Comentários (6)

agosto 12, 2007

SEI TUDO O QUE QUERO

Que te agarro e que esmago contra a parede onde te apoias e pedes que não pare enquanto mordes o lábio com parte da força que querias gritar.
Que me queres e que te ofereces contra a vontade que te pede o juízo que perdes como leio nesse rosto comprimido pela pressão, crispado, e te entregas à tesão sem admitires parar.

Que nos temos naquilo que somos contra a inveja ou o ciúme dos que lhes falta esta sede com que sorvemos, sequiosos, as gotas nos corpos que lambemos e beijamos como fontes de salvação.
Que nos sabemos naquilo que temos por garantido, o empenho com que te esmago contra a parede onde te apoias e imploras que o meu desejo intenso tenha força de Lei.

E que nos amamos imenso.

(Também isso eu sei.)

Publicado por sharkinho às 08:44 PM | Comentários (11)

julho 21, 2007

IN TEMPORAL

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Foto/Imagem: Shark

Essa força que emana do teu sorriso como um bando de mil pássaros no momento da sua evasão. Uma mancha no céu, colorida e cheia de luz.
Essa beleza que a tua presença produz, como um horizonte imenso iluminado pela despedida do sol. Um cenário no olhar, irrequieto, pleno do movimento das tuas emoções espelhadas.

Esse timbre das palavras cantadas pelo som da tua voz. Como a banda sonora da história filmada de uma vida feliz. Uma melodia no ar, envolvente, o ruído da nascente de um rio avassalador.

Uma força interior e bonita que ecoa como um trovão nas paredes do coração de quem usufrui do privilégio de te amar.

Esse relâmpago que gritas ao vento com que agitas os cabelos no meu peito quando anuncias a bonança, ofegante, mas prenuncias a tempestade seguinte nesse fogo do teu olhar.

Esse cheiro da terra molhada numa tarde bem quente no pino do Verão.
Que me arrasta, como um pedaço de madeira à deriva no oceano, para o centro de um furacão.

Publicado por sharkinho às 08:53 PM | Comentários (3)

julho 18, 2007

ESPELHOS DA ALMA

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Abre-me a alma como a um livro se faz e acarinha cada palavra minha das que falarem de amor. Beija-as por favor com o teu olhar surpreendido e o coração acelerado pela emoção de receberes no peito a força de um impacto superior.
Acredita então no poder endiabrado do meu espírito apaixonado pelo teu. Acredita que o destino te deu a maior dádiva possível, uma paixão tão incrível que não consegues conter as lágrimas que transformam num borrão as palavras que te dou a ler agora, pois a morte às vezes não espera quando deixamos as coisas urgentes para depois.

Olha para nós dois no capítulo mais empolgante de uma história tão diferente que a minha alma escreveu, vermelho rubi, a emoção como a vivi a cada segundo precioso do teu cheiro e da tua voz.
Olha sobretudo para nós, assim descritos, na verdade que reclama aos gritos a posteridade que confirma um amor imortal.
Inscrito na alma cujas páginas folheias quando lês nos meus olhos a mensagem que escrevo em mim e que fala de uma história sem fim, contada ao pormenor, a minha vida no seu melhor quando nela entraste de rompante pela mão do acaso a que muitos chamam Deus.

Devora as palavras que são tuas, o som do nosso riso pelas ruas, a sombra de um abraço apertado desenhada no chão ou a agradável sensação de duas peles confundidas entre si.
Descobre o quanto gosto de ti nos textos sinceros (que os da alma são verdadeiros, na sua essência preservada pela ausência de filtros protectores).
O calor dos raios solares que iluminam alguns parágrafos, os que falam de todos os dias em que festejámos a luz.

Acredita nessa escrita que não padece dos tropeções desta boca tão desastrada a falar porque nasceu para te beijar e as palavras já foram guardadas, para sempre, no registo permanente que gostava de te mostrar num doce momento de leitura.
Interrompe-o com os rasgos de loucura que só o desejo mais intenso produz.

Abre-me a alma como a um livro se faz e mostra-me que és capaz de decifrar esta forma de te amar trapalhona, está toda escrita naquela zona que diz

Este amor fui eu que o fiz, tatuado na tela onde o coração o pintou.

E tu sabes que era a tua a imagem que o inspirou.

Publicado por sharkinho às 12:04 AM | Comentários (12)

julho 13, 2007

QUANDO NO TEU PEITO ME DEITO A SONHAR

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Foto/Imagem: Shark

E depois concentrar a fadiga do olhar no aconchego repousante de outra beleza qualquer.
Sem reservas nem porquês. Sem pensar.
Apenas confiar a vista a uma questão de pormenor especial.
E deixá-la perder-se no prazer do usufruto da luz nos seus incontáveis prodígios de refracção que produz, na chispa brilhante e ocasional que acorda a visão para o momento em que a sensação de movimento é transmitida por um simples reflexo num pequeno lençol.

De água parada no tempo, agitada pelo vento que a arrepia no que os olhos entendem como uma ligeira ondulação.
O murmúrio da rebentação nas margens de um lago, o som de um beijo como a água o dá. Dessa forma ou pela chuva a cair, as gotas que acariciam os rostos como lágrimas doces de uma alegria incontida pelo usufruir de uma vida que também se faz de insignificâncias assim.

Um horizonte sem fim de coisas belas e sem relação com qualquer tipo de pressão das que cansam a mente e a afastam do simples que a defende das mazelas provocadas por inúmeras complicações.
Um ponto isolado no céu, o reflexo prateado nas penas de uma ave que imita como pode as estrelas ansiosas pela noite a cair. Ou os arco-íris espontâneos que se desenham por cima das rochas, nos borrifos das ondas, e desaparecem depois.
Uma única exibição, sem direito a reposição nos olhares distraídos daqueles que se encontram perdidos a vaguear pelos meandros mais escuros do seu interior.

Já não distinguem o amor das coisas feias que os atormentam nas histórias que inventam a partir de um quotidiano sem cor. Arrastam os pés pelo areal, incapazes de se alhearem do mal que os possui e do desencanto que lhes destrói a fé na beleza que a toda a hora está a acontecer.
Já não conseguem ver os pequenos pontos de luz serena oferecidos na presença terrena e esbanjados como o resto da existência na sua versão generosa.

As pétalas suaves de uma rosa que te dão.
Acabada de desabrochar no reflexo de um olhar comandado pelo coração.

Publicado por sharkinho às 11:27 AM | Comentários (4) | TrackBack

julho 12, 2007

ANDAM FRESCAS, ANDAM...

colorido natural.jpg
Foto/Imagem: Shark

De acordo com um estudo divulgado pela revista Sábado, metade das mulheres portuguesas assumem já terem tido um one night stand.
Eu repito: metade das portuguesas assumem, o que deixa no ar a hipótese de se somar a esta percentagem mais uns pós das que consideram que o segredo é a alma do negócio.

Esta refrescante conclusão demonstra que as nossas raparigas estão a mudar os seus hábitos, ou pelo menos a contrariarem na prática o discurso teórico que lhes é imposto pelos costumes.
E considerando os números em causa e o que eles representam, a rapaziada não tem tido mãos a medir.
Os outros, sempre os outros…

E pelos vistos as outras, também.

Publicado por sharkinho às 09:31 AM | Comentários (4)

julho 08, 2007

MIL IMAGENS

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Foto/Imagem: Shark


Uma palavra, ondulante, sobre uma pele sedenta da leitura das emoções tocadas.Com palavras, meigas mas ousadas, escritas com os dedos no papel da imaginação.
Frases inteiras, quero sentir-te vibrar com as imagens que construo com palavras, comunicadas por escrito a uma alma em contacto directo com o ponto do corpo onde os sentidos despertam.
Parágrafos que deslizam pelos ombros,

caminho por ti enquanto te absorvo para jorrarem na minha mente as imagens gravadas, tinta permanente, filmadas em câmara lenta ao longo do percurso incandescente do meu olhar. Por esse corpo que me esforço por imortalizar.
E consigo. Pelo menos em mim.
E contigo. Só me concebo assim.

Capítulos completos que se entrelaçam como os corpos que se abraçam na fantasia inspirada numa imagem cristalizada de ti nas mais variadas posições, as que vi mais as que consigo imaginar a partir de uma mulher que uma só palavra não conseguiria descrever.

Um livro talvez, palavras aos milhares para te cobrirem da cabeça aos pés. Ponto por ponto, até à exclamação final.
Uma história especial na ideia do autor que a escreve como a pensa, uma mulher tão imensa que as palavras parecem nunca bastar.

Uma palavra apenas, porque não?

Talvez a palavra paixão.

Publicado por sharkinho às 11:26 PM | Comentários (2)

julho 02, 2007

A PUBLICIDADE FAZ DE MIM O QUE QUER

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Foto: Shark

Publicado por sharkinho às 06:12 PM | Comentários (6)

junho 29, 2007

A PARTIR DE TI

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Como um sopro quente do vento suão recebo no meu rosto a respiração ofegante que te denuncia a vontade de ir mais além.

Como a passagem da corrente que magnetiza o metal, recebe no teu ventre a carícia dos meus lábios que se colam à delícia dessa pele fundamental.

Para a minha sobrevivência nesta curta existência que nunca concebi sem me sentir próximo de ti e daquilo que representas nesse trono onde assentas um estatuto que te aproxima da perfeição.

Como um Inverno gelado num ermo isolado recebo no peito a intempérie impiedosa da tua ausência que me tolhe incapaz de prosseguir.

Como a aragem da madrugada que fustiga naquela estrada o viajante solitário sentado à espera da boleia para um destino qualquer, mais próximo do céu.

Para junto de uma mulher que nunca conheceu.

Publicado por sharkinho às 10:57 AM | Comentários (0)

junho 27, 2007

SEXTO SENTIDO

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Foto/Imagem: Shark

Desenhar um corpo com o olhar, contornos percorridos aos poucos para forçar na memória os traços permanentes de tão magnífica visão.

Moldar um corpo com as mãos, a carne pressionada pelos dedos que a agarram como um náufrago abraça uma tábua de salvação e depois passeiam, em dedinhos de lã, pela linha costeira da beleza traseira que se arrepia como se beijada por uma brisa fresca no final de uma tarde de Verão.

Aspirar um corpo com o olfacto, a variedade de fragrâncias que se espalham no acto de libertação de uma pele dos trapos que a impedem de respirar. Essência de desejo num perfume intenso de mulher.

Saborear um corpo com a língua, a pele macia em emissão contínua nos transmissores que enviam à mente e seus sensores as ondas de choque variáveis, pois nos pontos mais sensíveis cada toque desperta no corpo a energia contida de duas placas continentais.

Ouvir um corpo gritar ainda mais o prazer na voz alterada de uma mulher quando nela se produz algo parecido a uma explosão interior. O som de quem faz o amor mais ardente a um ritmo alucinante e se entrega por inteiro a um momento irrepetível na pauta das emoções.

Amar um corpo com o coração e estimular-lhe a tesão mais completa na humidade espontânea de uma mente erecta pela paixão que o romance atiça.

No fogo que se espreguiça pelo olhar até o vento soprar de uma boca que beija aquele corpo que deseja deixar-se consumir pelas chamas crepitantes, o cheiro a queimado dos amantes no lençol encharcado pelo rescaldo que o reacendimento implicou.

E mesmo assim não se apagou.

Publicado por sharkinho às 12:43 PM | Comentários (0)

maio 20, 2007

POR FORÇA DAS CIRCUNSTÂNCIAS

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Odiavam-se imenso e isso transparecia em todos os encontros públicos que protagonizavam.
Ela olhava-o com desprezo, segredava ao acompanhante os insultos que gostaria poder dirigir ao fulano em voz alta e reprimia-se apenas para não fazer má figura.
Ele retorquia-lhe com um sobrolho franzido sobre o olhar de desafio que lhe lançava e virava-lhe as costas logo a seguir.

Era esta na essência a relação que mantinham no dia em que a improbabilidade se verificou e o caminho os cruzou isolados da habitual comitiva.
Sozinhos os dois num evento qualquer.
E quando se toparam ela não o desprezou de forma ostensiva, apenas esboçou um enfado que nem a si própria convenceu. E ele não franziu o sobrolho, tal como não desviou o olhar por demasiado tempo daquela figura que queria odiar eternamente.

Aconteceu de repente, quando se depararam frente a frente num canto discreto do imenso jardim daquela mansão.
Olhos nos olhos, corações sobressaltados pela surpresa, movimentos tolhidos pela emoção.
Ficaram alguns segundos naquele impasse, cada um fingindo interpretar o outro quando ambos lutavam desesperados para se interpretarem a si mesmos no caos que a intensidade do momento produzia.

Aconteceu a magia quando se lançaram quase em simultâneo um ao outro e se desequilibraram sobre os arbustos que esconderiam os corpos que batalhavam agora contra a roupa que os separava da pele que deveriam rejeitar.
As bocas a devorar os beijos com a sofreguidão de quem sabe que o mundo acabará no dia a seguir e as mãos apressadas nas barreiras despidas de preconceito tecido pela força da circunstância que algures os afastou.

A força que os arrastou, mais poderosa, demoníaca na insensatez, era o efeito surpresa de uma atracção que nenhum dos dois poderia conceber possível. Um apelo irresistível do instinto animal, a roupa interior desviada e a penetração consumada também na pele arranhada pelas unhas que ela cravou nas costas do seu amante proibido.
Um grito abafado pela mão que lhe apetecia cuspir, o esforço para não se vir tão depressa e assim enaltecer o mérito do macho que não podia aceitar como um homem a desejar daquela forma tão intensa.

Em vão a tentativa, a língua tão activa nos dedos que lhe incendiavam cada ponto do corpo que tocavam no seu caminho desenfreado pela fêmea que ele julgava asquerosa.
Mas a força misteriosa empurrava-o cada vez mais para dentro, cada vez maior o alento, inesperado, para entrar fundo no corpo receptivo daquela bruxa malvada.
A sua vontade enfeitiçada por alguma mezinha que o transtornou.
E ela também pensou num pretexto salvador para a sua falta de pudor quando a boca procurou a conclusão que fantasiou na vertigem alucinada de um orgasmo múltiplo que nem hesitou usufruir.

Ambos atónitos no final da experiência, quando tomaram consciência da gravidade da situação.
O calor na sua mão que a queimou como ferro em brasa quando largou, enojada, aquele pedaço erecto do homem que tanto a magoara numa vida anterior onde reinava o amor no espaço que o ódio invadiu.
A roupa que vestiu em silêncio enquanto ele deitava as mãos à cabeça e tentava encontrar a explicação que acabou por nunca surgir.

Acabariam por se despedir à francesa, ambos agarrados à certeza que precisavam conservar de que iriam odiar-se ainda mais depois desse dia.

Mas nenhum dos dois evitaria a repetição do que se passou, meses mais tarde, noutra ocasião que se proporcionou com a espontaneidade encenada de uma invulgar coincidência.

Publicado por sharkinho às 12:51 AM | Comentários (4)

maio 14, 2007

STAR TREK

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Entrou naquela dimensão a uma velocidade superior à da luz, ultrapassando as estrelas que pareciam agora meros rastos desenhados no pano escuro do universo que parecia nunca ter fim.
A nave descontrolada girava sobre si própria mas ele ria à gargalhada por dentro enquanto se deixava transportar por aquela incrível sensação, olhos fechados pela vertigem e lábios cerrados para conter a vontade de gritar aquele prazer para toda a galáxia ouvir o som de uma imensa satisfação.

Numa fracção de segundo ou em todo o tempo do mundo o seu corpo agitou-se marioneta da mente que o catapultava para fora da atmosfera.
E depois a estabilidade a regressar e a nave a rumar para o ponto de partida.

Aquela mulher despida que era o Cabo Canaveral para o turista espacial que agora aterrava ofegante no seu fato de amante que cobria a pele arrepiada.
À saída como à entrada a emoção do passageiro que voou um dia inteiro naquele espaço virtual que ela oferecia generosa como uma deusa poderosa, capaz de o levar a um ponto qualquer do universo quando acontecia a ligação naquele momento de fusão perfeita entre dois corpos e um par de corações.

A cabeça atordoada pela viagem e naquele beijo uma mensagem da comandante de outra missão bem sucedida.

E ele, orgulhoso do desempenho no papel que lhe competiu, fixou os olhos no céu e começou de imediato a traçar naquele corpo com os dedos uma rota por entre os segredos que partilhavam nas cartas estelares.

A contagem decrescente começou a soar por entre o brilho daquele olhar explosivo que ela produzia quando por seu turno partia depois da ignição acontecer no corpo de mulher embarcada numa nave preparada para outra viagem ao firmamento que conhecia como as palmas das suas mãos que conduziam, veludo, o objecto de estudo a um espaço desconhecido e ainda por explorar.

E ele a protagonizar a jornada inaugural pelo caminho das estrelas pessoal que ela lhe confiou pelo desejo e por amor.

To boldly go where no man has gone before…

(Obrigado, Almeida Garrett!)

Publicado por sharkinho às 12:40 PM | Comentários (15)

maio 07, 2007

A POSTA CONQUISTADORA

Algo salta no meu peito sempre que me invades a alma com a infantaria poderosa que desembarca a partir desse teu olhar.
O medo instantâneo de não conseguir desempenhar o papel que me compete quando a força do aríete ameaça a solidez do portão que me separa da paixão descontrolada.

Avanças com essa armada colossal convocada por Neptuno, a artilharia pesada do teu desejo sem rumo pelo meu corpo confiado aos ditames do invasor.
E eu leio o amor nesses clarões da tua retina, as explosões em escrita fina nas palavras incandescentes que os teus lábios desenham em mim.

O meio para atingires um fim que é a minha absoluta capitulação, o toque da tua mão como o rufar de tambores que anunciam os batedores para apalparem o terreno em busca da confirmação. Da minha rendição total a esse encanto especial que é a força que emanas desses olhos incrustados num rosto belo como cones de vulcão.

Força aérea a bombardear tudo o que alcança o teu olhar e eu sinto-me no céu quando na mira das armas o alvo sou eu.
Uma farda despida à primeira investida das tuas tropas de elite. E não é algo que se explique, esta cedência completa à tua polícia secreta que me arranca segredos e me expurga os medos agora desterrados para um paradeiro nos confins.
A cumplicidade nascida num crime que ninguém pratica, na pele que se agita em pequenos sinais de um prazer tão puro e tão livre das castrações que não passam de aberrações inventadas por quem inveja a felicidade alheia.

E agora sinto-me grato por poder sucumbir à tua vontade de possuir aquilo de que disponho no homem que sou.

Afinal aquilo que saltou no peito onde repousas, tentação, era apenas o coração que é como um povo libertado por esse teu golpe de estado que comemoramos depois.

Era a euforia à solta nas principais artérias da capital de uma nação que formamos os dois.

Publicado por sharkinho às 09:56 PM | Comentários (0)

abril 14, 2007

TOP MODEL

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Foto: Shark

Gostava que posasses para mim. Que te quedasses numa posição confortável, essa figura inesquecível que poderia então pintar com palavras que te emoldurassem em definitivo nas páginas de um livro e na eternidade que a tua beleza merece na minha avaliação subjectiva.

Diante de uma objectiva, a que te observa o corpo e te retrata tão perto, este olhar que grava um zoom de cada pormenor quando a ele te expões.
Gostava de poder perder-me nas exaustivas descrições daquilo que em ti me impressiona. És tudo o que um homem sonha e sinto-me no dever de conseguir descrever essa jóia rara como te vejo, esse corpo que eu beijo como água de um oásis depois de um deserto percorrido.

O meu corpo ressequido pela falta do teu, em busca sedenta de uma gota tua, maravilhosa criatura que brilhas como o sol por entre as tuas iguais.
Apenas parecidas, que as imagino despidas e não lhes reconheço o encanto, não manifesto o espanto que me causas e eu gostava de contar ao mundo mas não posso, este segredo nosso que não me acredito à altura de pintar.

Com as palavras a falar da minha admiração, depois de cautelosa observação da tua pose mal estudada, a tua imagem deitada numa nuvem no céu de um paraíso que é onde estiver esse teu corpo adorável de mulher.

És modelo do meu padrão, és fonte de uma emoção sem fim.
E gostava que posasses para mim.

Publicado por sharkinho às 09:24 PM | Comentários (0)

abril 09, 2007

PONTOS DE VISTA

fruto proibido.JPG
Foto: Shark

Porque insistes em cruzar caminhos com o vaguear distraído do meu olhar perdido, sabendo de antemão que representas o céu e isso te torna quase impossível de alcançar?
Porque insistes em atiçar, tentação, a parte inquieta da minha atenção e depois aceleras o ritmo da passada que te afasta para longe de mim?

Uma fuga sem fim pela calçada da vida, numa observação descomprometida a este estranho ritual de sedução inconsequente. Nada acontece diferente depois dos olhares que trocamos quando nestas ruas nos cruzamos, por uma simples coincidência. E ambos temos consciência das rotas desencontradas, nas partidas como nas chegadas, deste sonho planado que acabará por aterrar.

Porque insistes em atrair o meu olhar, sabendo que o destino traçado é o do caminho separado que nos compete percorrer? É isso que me recordas com a mulher que transbordas na minha visão periférica, fenomenal, e eu resisto afinal a voltar a cabeça para prolongar a agonia que me impõe cada dia privado da ilusão que constituis. Tudo aquilo que possuis desperdiçado por não me teres ao teu lado nessa cama que nunca partilharemos, por muito que nos cruzemos em silêncio nas esquinas que a vida oferecer…

Sem tempo para perder com fantasias, no reino das utopias empatam as fadas essas bruxas malvadas que acenam o impossível. Falsas esperanças neste plano tangível em que me enfeitiças com o encantamento do teu olhar.

Num simples cruzar de caminhos, aleatório, que nada tem de premonitório senão a certeza que adquiro no momento em que suspiro o lamento previsível por não conseguir, de todo, conter esta vontade irreprimível de amanhã te rever mais uma vez.

A uma cautelosa distância, como recomenda a prudência contida nestas palavras que escrevo por saber que não as lês.

Publicado por sharkinho às 12:39 PM | Comentários (0)

abril 04, 2007

HORIZONTE

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O frio cortante de um olhar congelante quando o caldo entorna por detrás dos faróis azuis. A emoção escondida numa reacção contida que é apanágio das nórdicas, ramificações históricas infiltradas nos povos do sul, ou a imprevista erupção no azul (influência latina), da mulher que desatina mas sabe pintar o olhar com a cor do mais doce mel.

O sabor a fel que se dissipa quando a alma se agita soprada pela brisa da paixão. Incremento da ondulação observada naquela visão descongelada, a lava que se esconde no mesmo mundo onde se (ap)rende a guarda que barra o caminho às desilusões.
Sentimentos nos alçapões controlados pelos fios manipulados à distância com o poder cinético que o olhar denuncia.

A cor parece fria, um detalhe estético, como a do mar que replica ao sabor dos ditames do céu. Quase transparente, é no entanto a mais prudente no que respeita a revelações.
Mas existem as excepções, apaixonadas, as guaritas abandonadas ao assalto de uma tentação. No olhar a invasão em directo, ainda que seja discreto sob a disciplina militar que, enquanto desaba o falso glaciar, distante, reprime o excesso emergente nos entusiasmos juvenis.

Reacções pueris, desfasadas nas ocasiões emocionadas à vista de um olhar azul. O tempo necessário para mil perguntas em silêncio, o tempo de um processo que filtra os efeitos indesejados mais os defeitos encontrados na calma com que sondam a aparente perfeição.
O poder da atracção subsequente à súbita passagem de indiferente a fogosa, a contemplação embevecida ou a observação atrevida do seu esmiuçado troféu.

As cores reunidas do céu e do mar, sob as pálpebras proibidas de ocultarem aos olhos restantes os flashes brilhantes de um reflexo tão forte que nos pode cegar.

Publicado por sharkinho às 12:44 AM | Comentários (4)

HORIZONTE

deep blue.jpg

O frio cortante de um olhar congelante quando o caldo entorna por detrás dos faróis azuis. A emoção escondida numa reacção contida que é apanágio das nórdicas, ramificações históricas infiltradas nos povos do sul, ou a imprevista erupção no azul (influência latina), da mulher que desatina mas sabe pintar o olhar com a cor do mais doce mel.

O sabor a fel que se dissipa quando a alma se agita soprada pela brisa da paixão. Incremento da ondulação observada naquela visão descongelada, a lava que se esconde no mesmo mundo onde se (ap)rende a guarda que barra o caminho às desilusões.
Sentimentos nos alçapões controlados pelos fios manipulados à distância com o poder cinético que o olhar denuncia.

A cor parece fria, um detalhe estético, como a do mar que replica ao sabor dos ditames do céu. Quase transparente, é no entanto a mais prudente no que respeita a revelações.
Mas existem as excepções, apaixonadas, as guaritas abandonadas ao assalto de uma tentação. No olhar a invasão em directo, ainda que seja discreto sob a disciplina militar que, enquanto desaba o falso glaciar, distante, reprime o excesso emergente nos entusiasmos juvenis.

Reacções pueris, desfasadas nas ocasiões emocionadas à vista de um olhar azul. O tempo necessário para mil perguntas em silêncio, o tempo de um processo que filtra os efeitos indesejados mais os defeitos encontrados na calma com que sondam a aparente perfeição.
O poder da atracção subsequente à súbita passagem de indiferente a fogosa, a contemplação embevecida ou a observação atrevida do seu esmiuçado troféu.

As cores reunidas do céu e do mar, sob as pálpebras proibidas de ocultarem aos olhos restantes os flashes brilhantes de um reflexo tão forte que nos pode cegar.

Publicado por sharkinho às 12:44 AM | Comentários (4)

abril 03, 2007

RAÍZES

terra castanha.jpg

A terra espelhada naqueles dois pedaços da sua essência bravia, fixados em olhares desafiados no rosto do amante que nela adivinhava um corpo de intervenção.
O assalto ao bastião do amor, a sedução como um louvor à magia instalada naquela cama por fazer.

Os olhos castanhos de uma mulher, amêndoas, a gana de o ter como seu, fêmea acelerada com a alma moldada pela força das gentes de terras distantes ali semeadas pelo vento da migração. Os genes do calor, a fervura no interior de uma mistura que se lê naquele olhar.

O ginete à flor de uma pele morena, castanha, a fúria tamanha que explode na zanga e implode no ponto alto da tesão. O poder da deflagração concentrado num grito abafado para não sobressaltar a vizinhança, a emoção que nos olhos dança um ritmo latino, uma herança tropical. Sempre algo de especial, uma espécie de mistério, naquele olhar muito sério que denuncia a costela mourisca.
A coragem de quem sempre arrisca para lutar por um grande amor.

Os olhos que espelham a dor de uma forma tão clara e parece que dispara uma arma no seu interior. Quando se irritam e as pupilas se agitam num batuque emocional, uma experiência fenomenal na pele (segura) de simples testemunha.

Castanha a terra que os pinta da cor que muito encanta quando o amor se finca na retina morena que o traduz.

Publicado por sharkinho às 09:51 PM | Comentários (2)

CLOROFILA

mais perto de mim.jpg

Os seus olhos reflectiam esperança no brilho e na cor. Falavam de amor, quando verdes se perdiam nos seus reflexos as folhas das árvores naquela tarde de mudança de estação.
Um bosque plantado no coração enamorado de quem se perdia no mato por dentro daquele olhar.

Os seus olhos falavam de desejo também, quando quase os fechava e ainda assim brilhava uma centelha de fogo ateado, em tom esverdeado, que contrariava a laranja do sol que se deitava no horizonte como ela já cuidara de fazer.
Uma noite anunciada no final daquela estrada aberta no peito de quem se perdia no mato por dentro daquele olhar.

Sem aceitar qualquer saída.
Daquela floresta despida que o arrastava para o chão.
Daquela promessa cumprida que lhe beijava o coração.
Com os olhos.

O doce e o picante, o discurso inteligente, a sua boca sensual como isco no anzol. O apelo irresistível de um olhar tão temível como uma arma sem gatilho, uma bomba sem rastilho e em todo o corpo um detonador.

O prisioneiro do amor, num cativeiro voluntário, hipnotizado pelo imaginário despertado no meio de um sonho que partilharam até brilharem as estrelas no fundo verde daquela paixão.

À procura de uma entrada.
Naquela floresta encantada que o abraçava pelo chão.
Naquela promessa jurada que espalhava emoção.
Dos olhos ardentes, as lágrimas incandescentes de felicidade total.

Como sementes de fogo verde em campo lavrado pelos raios do sol.

Publicado por sharkinho às 06:35 PM | Comentários (0)

março 23, 2007

AMOR CEGO

cama desfeita.JPG
Foto: Shark

Estremeceu quando finalmente ouviu abrir-se a porta do quarto no hotel que escolhera para se encontrarem por fim.
Escutou-lhe os passos e sentiu-lhe o cheiro com a nitidez bastante para nem precisar de fazer qualquer pergunta. Não conseguia falar, a voz prisioneira da emoção que lhe soltava o coração do peito que esmurrava por dentro as paredes que o oprimiam na sua sede de escapar para o céu.

E era ela quem o representava, a fragrância que libertava pelo ar e o fazia flutuar nas nuvens como um pássaro encantado pelo vento arrastado até ao paraíso onde ela o pousava depois.

Sem uma palavra, sentiu que se aproximava e ele deitado sobre a cama concentrado a imaginá-la no escuro, estranhamente aliviado quando percebeu o ruído do interruptor.
A pressão dos seus joelhos mesmo ao lado do seu corpo petrificado pela ansiedade, revelando a vontade que o dominava e a escuridão que eliminava a diferença que o podia inibir.

A roupa que começou a despir com a sua ajuda, os beijos que recebia da boca carnuda de uma mulher que conhecia das palavras que lhe ouvia e dos sentidos que apurava para melhor a perceber.
O tacto sublimado pelo contacto inesperado da quente suavidade da pele macia do seio que o tocou. Nos lábios sequiosos que aquele instante despertou, como o resto do seu corpo libertado dos medos que deixavam de existir.

A intensidade do sentir, extremada pela percepção muito ampliada por uma vida sem cores nem luz. A sensação que se produz quando tudo o resto se multiplica, o rasto de uma mão que fica muito para lá de um momentâneo arrepio.

Percebeu que ela sorriu quando no fim de lhe saborear o gosto, tacteou sem pressas o rosto que adivinhava sereno e encantador.

E quando ela partiu, a luz que acendeu iluminava (e ele não via), junto à bengala que brilhava, a proveniência daquele odor que absorvia. E os seus dedos acariciaram uma flor por ela deixada como uma promessa declarada, a ligação que não se desfez quando o momento mágico chegou ao fim.

A certeza de uma próxima vez. Naquele ou noutro jardim.

Publicado por sharkinho às 11:59 AM | Comentários (11) | TrackBack

março 21, 2007

DESEJO CLANDESTINO

desejo não é pecado.jpg

Olha assim para mim e depois não negues que me desafias, nesse instante em que denuncias a tua vontade de me teres. O meu corpo no teu encostado, o calor do teu desejo acordado pela resposta que esperavas e não neguei.
Hesitas numa fútil reacção, a necessidade de negação de uma vontade proibida nessa alma esquecida por quem devia acarinhá-la. A pele que me embala adiante, abraçar-te de rompante para vergar a ténue resistência e eliminar essa prudência que te impede de ser feliz.

Esse olhar que me diz estar na hora de mostrar o quanto quero provar que sou digno de tal anseio, de te exibir o quanto quero substituir quem te permite privação. Acelera-me o coração com a tua revolta de mulher que sabe bem o quer e muito sente a falta de um amante que te sinta importante e te arraste nos seus braços para um leito que sentes pedestal.

O teu momento especial, negado por quem o deve, criado por quem atreve aceitar o desafio nesse olhar que exibe o cio de uma fêmea sedenta de paixão. O toque da minha mão nas tuas costas, a expressão que confirma que gostas de sentir este apelo selvagem e embarcas na louca viagem sem os medos postiços que alguém te incutiu.

A loucura que te possuiu nesta altura é genuína, o grito de prazer que me anima a cuidar de ti como uma jóia. Preciosa para desfrutar, diamante por lapidar, escondida num cofre privado por um amor desencantado que te trata como uma posse e todos os dias esquece a fortuna que toda tu constituis. Aos meus olhos aquilo que possuis é uma fabulosa riqueza e apago essa tristeza com a prova que te faltava, o teu corpo ansiava pela chama intensa de um desejo carnal, a vontade imensa de um orgasmo final que te liberte e no fundo te desperte para a vida que queres absorver.

Pelo corpo de mulher que acarinho, esse olhar meigo que adivinho ser espelho da tua gratidão por toda a emoção que me empenhei suscitar quando me permitiste amar naquele dia o olhar que dizia preciso de me sentir desejada.

Sem presumir desrespeitada a dignidade e a nobreza que a tua pessoa dá a certeza de fazer parte do todo que te faz.

Publicado por sharkinho às 03:53 PM | Comentários (10)

março 20, 2007

PROSCRITO POR ESCRITO

Diz-me de uma vez por todas se aquilo que vês quando me julgas é a imagem de um homem inocente ou a de um carrasco executor.
Define na tua percepção um juízo de valor que te guie os passos perdidos até ao aperto dos meus braços estendidos, o medo ou a confiança, a proximidade ou a distância, uma sentença definitiva que me liberte do banco dos réus e me conduza ao reino dos céus ou em alternativa me condene com a pena capital.

Represento o bem ou o mal nessa avaliação ajuizada da minha alma interrogada pelo teu olhar perscrutador? Culpado ou inocente nesse libelo pendente que simboliza a tua dúvida e castiga a minha estúpida maneira de enfrentar o júri que me quer condenar pelo simples facto de não saber a resposta às minhas perguntas?
Dos crimes que cometi, a punição que já sofri deveria bastar para agora iluminar a tua consciência e garantir a inocência que prometi no momento em que exibi o arrependimento pelo passado expurgado e te juro no futuro não deixar repetir.

Na tua hesitação perdi a absolvição que ambicionava, a questão que se colocava não integra qualquer código penal. A causa era afinal a nossa, a tua escolha que a destroça pela ausência de uma decisão peremptória.

E assim acaba esta história, com o veredicto por conhecer. Aquilo que julgava merecer não passava de uma euforia, quando em segredo te dizia que a justiça seria feita. Mas o júri aproveita a condenação de bandeja oferecida pela tua indecisão.

A ausência de uma intervenção abonatória a sentenciar na minha memória a farsa do alegado perdão.

Ofereço os punhos às algemas e digo-te nada temas, pois não tentarei fugir da consciência penitenciária que me flagela voluntária e te preserva de me castigares também.

Por inerência, em cada segundo de ausência.
A tua pena de prisão perpétua neste amor de que me assumo refém.

Publicado por sharkinho às 11:01 AM | Comentários (6)

março 12, 2007

A POSTA PORNODRÁSTICA

adult video.bmp


Tal como acontece no cinema convencional, existem diferenças significativas entre os filmes pornográficos europeus e os seus congéneres norte-americanos.
Claro que isto pode soar esquisito a quem olha para a pornografia e a trata como as caras dos chineses (que para a maioria dos ocidentais são todas iguais), mas também existe malta que não distingue um Ingmar Bergman de um John Ford (exceptuando os tiroteios nos westerns deste último).

Decidi tocar neste delicado assunto (já sei que ninguém aluga ou compra filmes pornográficos ou vê o canal XXL em Portugal a não ser eu) precisamente porque o saber não ocupa lugar e um blogue serve também para a partilha destes conhecimentos e conclusões que poupam os/as mais sensíveis ao contacto com essas “porcarias”.

E porque coloco as coisas nestes termos em matéria de diferenças? Porque elas existem e saltam à vista desarmada de quem aprecia a coisa apenas na óptica de se manter a par das novas técnicas que o progresso possa trazer. Um hábito que ganhei na puberdade e muito jeito me deu nessa fase experimental…

A pornografia norte-americana difere da europeia em diversos aspectos, a saber:

- Desde o realizador ao casting, todos os intervenientes se julgam (ou se acreditam a caminho) em Hollywood. Daí, nota-se o esforço (debalde) de fazer filmes “com história” e, pior ainda, com momentos sem sexo à brava para os artistas poderem exibir os seus dotes cénicos. O resultado é confrangedor e nisso os europeus há muito se deixaram de tretas.

- As cenas de sexo nos states são mais brutas, violentas até. Ao contrário dos europeus, os americanos parecem entender o sexo pornográfico como uma espécie de wrestling em equipas mistas. O felatio, por exemplo, é quase sempre marcado pelo que parece constituir uma obsessão que lhes ficou desde os tempos da Linda Lovelace e sua célebre “Garganta Funda”. Não há volta a dar, aquilo parece uma competição para ver quem chega mais longe mais vezes e só mesmo quem nunca experimentou pode acreditar que aquilo sabe melhor a algum dos intervenientes.

- Os ambientes, ao contrário da simplicidade terra-a-terra do Velho Continente, primam pelo inverosímil e pelo esotérico. Desde o “filme policial” com assassinatos e tudo (muito estimulante do ponto de vista erótico…) ao puro e simples alucinatório em que dá a ideia de que anda muito LSD nas carolas daquela rapaziada.

- Talvez uma moda de mau gosto, as actrizes e actores do género made in USA têm a estranha mania de cuspirem(!) nos órgãos genitais uns dos outros a toda a hora. Algo que jamais encontrei numa película de origem europeia. E ainda bem, pois não constitui uma visão agradável do ponto de vista estético. Ou de qualquer outro, aliás, e só algum problema sério nos orçamentos pode justificar tanta escassez de lubrificantes na produção…

- Os americanos, sempre divididos pelo apelo ao politicamente correcto, insistem em filmar as cenas de penetração com preservativo. Tudo muito higiénico, tudo muito correcto e pedagógico, mas apenas se eles conseguissem manter essa preocupação nos tais momentos do felatio “à canalizador” ou abdicassem de todo do clássico universal da conclusão pornográfica (e sem a qual dificilmente se safavam no seio do seu mercado alvo feito de machões dominadores à antiga que não dispensam o grafismo tradicional de qualquer happy ending da coisa. E espero não precisar de ser mais específico neste particular.).

Em resumo, e para não me alongar mais neste tema que a ninguém interessa pelo facto que apontei mais acima, eu sou um europeu assumido nestas coisas e é por estas e por outras que descubro o tal elo que nos une em torno de um aparentemente inevitável federalismo que traduzirá estas proximidades que nos distinguem dos ocidentais do lado de lá do Atlântico.

E o parágrafo acima serve apenas para dar um ar mais compostinho à coisa, pois são estas incursões pelo proibido que arruínam a reputação de qualquer blogueiro junto da exigente faixa puritana (não assumida) que confunde a versatilidade nas opções com a falta de bagagem para seguir a corrente mais em voga.

Mas é que eu percorro a blogosfera e fico cada vez mais saturado de clones…

Publicado por sharkinho às 11:19 AM | Comentários (9) | TrackBack

março 06, 2007

STRIP (TEASER) - Reloaded...

inside my head.jpg

Desaperto com toda a calma do mundo cada um desses botões que me separam da tua pele que anseio tocar. Um a um, olhos nos teus. Seios por debaixo do tecido, sem rodeios assumo que desejo a minha boca nesse peito que adivinho coberto pela roupa que desaperto com toda a calma que o mundo contém.

E tu não me dizes para parar e eu continuo a avançar, dedos sem pressa na pele falsa que te cobre verdadeira a tua que anseio mas receio tocar cedo demais. O teu tempo a comandar e eu bem tento abrandar o movimento, este coice no meu peito a cada milímetro mais perto do calor que emanas. Do olhar que me apontas como um revólver cheio de balas de amor e esvazias o carregador na minha mente possessa que tanto se esforça por me conter em câmara lenta neste filme que projectei.

Finalmente desapertei o último botão com os dedos da minha mão que afasta com delicadeza a barreira que me separa dessa pele que me cobre o pensamento em tom de fogo igual ao do teu olhar agora.
O respeito que me demora, o teu tempo a comandar e eu bem tento desacelerar a vontade destravada que me atrai os lábios para os teus. O beijo de um anjo com boca de cetim e o demónio a brotar nas chispas de um olhar que me abraça em sentido figurado, adereço preparado para te encantar enquanto me lês.

Nas ideias que não vês mas tentas imaginar, curiosa.
Nas palavras que despem a minha tentação libidinosa.

(Na minha insensata nudez.)

Publicado por sharkinho às 12:41 AM | Comentários (6)

março 02, 2007

A POSTA NO ACELERADOR DE PARTÍCULAS

bd shark.jpg

Em boa medida, aquilo a que se convencionou apelidar de crise da meia-idade (que alegadamente nós homens enfrentamos pela casa dos quarenta) tem imensos paralelos com uma outra que nos toma de assalto quando o buço desponta.
E a principal semelhança entre esses dois períodos marados que nos descontrolam o pensamento e a atitude consiste na rebeldia atesoada que marca ambos com um cunho indelével e nos acelera sem controlo rumo a situações por vezes caricatas.

Confesso que na adolescência, e mal se revelou essa extraordinária utilidade suplementar de uma parte do corpo que julgava destinada apenas a cumprir funções no âmbito do sistema urinário, o acne assumiu um papel secundário nas minhas preocupações e o sexo passou a protagonizar quase todos os momentos dos meus dias.
Foi o tempo de desejar. As vizinhas, as amigas, as professoras, as primas e tudo quanto era fêmea ao alcance da vista pareciam-me sex symbols capazes de incendiarem fantasias e de condicionarem o meu comportamento de jovem aprendiz de garanhão.

Dava comigo em figurinhas patéticas, tentando atabalhoadamente sondar as hipóteses (quase sempre remotas) de concretizar na prática tudo aquilo que via nas Ginas que os colegas de turma gamavam nos esconderijos secretos dos pais. Fui aprendendo, à custa de alguns vexames próprios da época e da circunstância, a moderar a abordagem por forma a não “espantar a caça” ou a evitar comprometer-me perante esses alvos que me enlouqueciam quando se travestiam em amantes tresloucadas no meu fértil e infatigável imaginário juvenil.

E essa aprendizagem faz toda a diferença quando a ternura dos quarenta nos impele de novo para as cruzadas do amor, pois a relativa maturidade que vamos adquirindo permite-nos controlar o impulso arrebatador que nos arrasta (naquilo a que o povo desbocado designa como pensar com a pila) para um novo descontrolo hormonal que muitos entendem como o canto do cisne da nossa sexualidade primária.
Ou seja, voltamos a cobiçar (quase) tudo quanto mexe mas conseguimos dar a pala de distantes e contidos que não nos coloca sob suspeita de andarmos com falta de algo (naquilo a que o tal povo sem tento na língua apelida de mal fodidos).

Se essa é uma constatação fácil quando somos adolescentes e efectivamente o nosso olhar guloso traduz um apetite voraz por satisfazer, o mesmo pode não corresponder à realidade na fase quarentona.
Aí, o problema não reside apenas no apetite mas também no (chamemos-lhe) requinte que almejamos sempre que desejamos esta ou aquela pessoa. Mesmo que tenhamos estado na cama com alguém poucas horas atrás, o que em teoria nos sossegaria a maluqueira, basta um vislumbre de algo numa pessoa (digo pessoa porque gostos não se discutem) que nos desperte uma imagem mais sensual e a nossa libido converte-se instantaneamente num acelerador de partículas…

E essa é a parte castiça da tal crise de meia-idade que assumo pela interpretação destes sinais que nunca me abandonaram mas seguramente recrudescem nesta altura e, pela troca tímida e fugaz de impressões com outros machos da espécie, concluo indiciarem o mergulho na convenção que referi. Sobretudo quando se associam a aceleração libidinosa e a descontracção perigosa que nos leva a negligenciar a prudência em muitos domínios que a nossa vida contempla.

Não tem sido fácil de gerir, tal como não o foi outrora, este call of the wild que na caricatura mais corriqueira empurra gajos com idade para terem netos para o interior de desportivos descapotáveis.

Mas tenho que admitir que dá pica, este regresso (porquanto irregular) a um estado de espírito que a ser uma espécie de despedida aos dias de glória constitui sem dúvida um portentoso e agradável adeus…

Publicado por sharkinho às 12:13 PM | Comentários (17) | TrackBack

fevereiro 14, 2007

PRONTO, TÁ BEM...

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Publicado por sharkinho às 10:29 PM | Comentários (6)

fevereiro 03, 2007

ANTES DE DORMIR

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Vejo por cima do meu desejo o teu rosto e o teu peito, o teu corpo comprimido contra o meu. Olhos abertos que te sondam na penumbra a expressão e a tua sombra no colchão, desenhada pela forma pouco iluminada de uma escultura divina da vontade felina que me quer.
Os contornos de uma mulher, a fêmea assumida que faz parte da minha vida e não enjeita desfrutar do que sente ser o lugar que lhe pertence neste instante porque se gosta minha amante e não reprime a tentação.

E grita a emoção que lhe provoco sempre que lhe toco ao de leve na pele, sustida por um cordel a minha vontade de gritar também enquanto ela se vem por cima do meu desejo, aquilo que eu vejo lá no alto do meu céu. Da boca que ofereço a um corpo que mereço brotam beijos agradecidos nos seios quase despidos de uma roupa que não deu tempo para tirar.

O meu peito a ofegar por debaixo do cabelo que espalhas sobre mim enquanto incendeias o olhar assim com as ideias que te tomam de assalto a cabeça e invertes bem depressa a nossa posição. E com essa decisão repentina ateias também a minha vontade de render um pouco mais e adiar os instantes finais que preparamos na entrega com que amamos sempre que é nosso o tempo para viver a dois.

O dia já espreita sobre a sintonia perfeita com que acolhemos em simultâneo os sinais exteriores do prazer, cada um a receber o seu quinhão da mais intensa sensação que os corpos proporcionam quando os amantes ambicionam nada menos do que o melhor de si para o outro.

E abranda o fulgor mas transpira o amor pelos poros encharcados dos dois corpos abraçados e eu deixo-me embalar pelo sono a que resisti enquanto vejo mesmo ao lado do meu desejo saciado o teu rosto belo que sorri.


Publicado por sharkinho às 06:46 PM | Comentários (13)

janeiro 29, 2007

LUGAR CATIVO

É lutar em vão, contrariar o coração com argumentos que ele rejeita e nunca conseguirá entender.
É lutar para perder, nesse esforço artificial que a razão abraça, tão fútil, quando afinal aquilo que se passa é tão impossível de desmentir.

O melhor mesmo é desistir. Da fuga fingida que o amor, esse carcereiro realista e arrebatador, jamais permitirá.

Publicado por sharkinho às 10:41 AM | Comentários (6)

janeiro 20, 2007

QUERO MAIS

São os seios que explodem nos meus olhos ou apenas o som quente de uma voz diferente que actua como rastilho da imaginação.
E eu transformo-me feiticeiro no amante que o mundo inteiro reclama, um corpo possante numa cama onde se sonha cada uma das mulheres que me queiram ou desejo possuír.

Mãos cheias de peles macias na tesão de fantasias arrojadas onde a minha imagem se transfigura na de um mestre do prazer.
Mulheres arrebatadas pelo toque incandescente da minha língua e pelo apelo irresistível do meu porte viril. À mercê da minha vontade insana de satisfazer, servil, cada uma das suas propostas de fêmea descontrolada pela sede de se sentir amada enquanto o seu corpo desfalece nos meus braços em orgasmos múltiplos gritados pelo meu primeiro nome.

E eu mato a fome de macho tentador, prisioneiro e libertador de forças poderosas nas mentes libidinosas concentradas no meu desempenho. Cada toque convertido num intenso arrepio. Aceito qualquer desafio, boca no peito e fogo no olhar que despe a alma de preconceito e a toma de assalto, conquistando o derradeiro bastião da resistência inútil ao meu encanto sedutor.

O sexo e o amor, lado a lado, o fulgor assim beijado que alterna entre a força masculina e o culto meigo da vagina no trono no topo do mais imponente pedestal.
Cada amante uma rainha que exige ser a minha no instante em que tombam como pétalas as suas vestes no chão. A pista de uma valsa palaciana ou de uma salsa mundana, ou em cima daquele leito a música das bocas que se absorvem como loucas e gemem as notas finais de um tango bem dançado, pelas ancas agarrado o meu par a quem só apetece gritar não pares agora.

E o meu corpo que devora, fantasia minha, o desejo proibido da menina que o meu beijo incendiário desperta no corpo da mulher. Tudo aquilo que ela quer num homem a sério, tal e qual me sonhei. Aquilo que lhe dei, retribuido. O prazer bem repartido em sessões contínuas de satisfação, o meu troféu de machão naquelas nádegas apalpadas com vigor.

O olhar lânguido depois da entrega total ao instinto animal que correu pela floresta florida no auge de uma festa despida. E a fragrância no ar dos corpos a latejar, os ecos de mil emoções e as inesperadas sensações que brotam espontâneas nos sorrisos cúmplices que trocamos sob a luz envergonhada de um nascer do sol.

E eu cubro com o lençol aquele tesouro adormecido e depois parto enamorado em busca de outra marca assinalada no mapa da viagem sonhada ao mundo das riquezas sem fim que as mulheres constituem para mim.

Publicado por sharkinho às 04:40 PM | Comentários (14) | TrackBack

janeiro 11, 2007

DE REPENTE

E de repente o teu corpo ardente pressionado contra a parede pelo desejo do meu.
O mundo prestes a acabar e nós a acelerar as pulsações pelo turbilhão das emoções com pressa, como se amanhã pudesse nunca acontecer e nós a correr de braços abertos para o amor que se faz.

Os lábios desenfreados e os cabelos misturados pela fúria amante de um impulso que de rompante nos assola bem fundo e nos isola do mundo que deixa de existir agora. A pressa de agir na urgência de sentir a vontade libertada na respiração descontrolada pela atracção que lhe abriu as portas para a evasão.

Mas ela não foge, antes provoca os beijos que os teus lábios dão em troca de cada toque da minha pele que te seduz. Acende-se uma luz quando primes o interruptor do holofote que o amor alimenta, a energia que sustenta estes corpos que levitam sem saírem do chão.
Ilumina-se o coração com a alegria do espectáculo de magia em que dois se tranformam num.

E em momento algum o truque se revela, pois o coelho na cartola não sai porque não descola da pomba branca que só no final anuncia a paz. Os corpos fundidos em abraços apertados como nós. Que nada nem alguém consegue desatar.

O desejo a perdurar no lume brando das carícias depois, o sorriso maroto dos dois e as malícias que insinuam um consolo que não desdenha uma repetição.

E de repente o teu corpo ardente pressionado contra o chão.

Publicado por sharkinho às 12:44 PM | Comentários (6)

janeiro 05, 2007

E A FACILIDADE...

...Com que tu me pões a ver o mundo assim:

mundo fantastico.gif

Publicado por sharkinho às 11:27 AM

janeiro 03, 2007

YOUR MOVE

your move.jpg
Foto: Shark

Jogo contigo nas palavras que digo e nas ideias que me ocorrem e não consigo expressar.
Jogo contigo o jogo de amar, o da glória. Disputamos a vitória mas sabemos que nenhum sairá perdedor.
Jogo contigo o xadrez do amor, quando te ponho em xeque e ameaço que te vou comer. A peça, uma qualquer, do todo que te faz mulher no tabuleiro da nossa ligação.
Jogo contigo o monopólio também, pois aquilo que se tem de precioso ninguém aceita partilhar com qualquer tipo de concorrência.
Jogo contigo uma paciência, baralho de cartas que te escrevo sem pressa a cada dia que passa com o teu naipe de copas gravado a ouro no meu coração.

Jogas comigo, a tua língua no meu umbigo, quando me destacas da imensa multidão que te louva em silêncio porque a todos mando calar porque é minha a vez de jogar e eu não te perderei nem a feijões.
Jogas comigo no plano das emoções, um dominó que nem sempre encaixa, uma constatação que me rebaixa neste jogo de damas onde a mais bela peça és tu.
Jogas comigo a olho nu, master mind que me decifra, és a mulher que me rifa com a certeza de que o prémio sai à casa (de partida) que é de volta e não de ida o bilhete que adquiri. O teu rosto que sorri enquanto me agarras com força, sempre que parto a louça num arremedo de mau perder.
Jogas comigo às escondidas quando simulas desentendidas as mensagens que te desenho no pictionary da minha imaginação. Gravuras elaboradas no teu corpo desenhadas pela passagem suave da minha mão, sempre que jogamos à cabra-cega no escuro que não me nega um vislumbre desse corpo magnífico impresso na minha cabeça como um brasão. As curvas que me despistam na aceleração cardíaca da tentação demoníaca que para mim constituis.

Afinal jogamos os dois, brincamos como gaiatos, o jogo dos gatos e dos ratos ou uma partida bem calma de king quando te assumes a rainha do meu sentir.
Jogamos sem desistir o jogo da vida que não aceita a despedida de forma alguma. Uma interminável maratona que disputamos num par, o destino a dançar e nós trocamos os pés de vez em quando nessa pista de fandango tão cheia de armadilhas e ratoeiras.
Fazemos algumas asneiras que se corrigem depois.

E acabamos por ganhar a dois, sempre que arrastamos a jogatana para cima de uma cama e abrimos o jogo sem trunfos na manga da roupa que deixamos espalhada pelo chão.

O jogo da nossa paixão é como um fogo que arde e se vê na vontade que se lê nestas palavras que acabo de te oferecer.

Agora joga tu…

Publicado por sharkinho às 01:07 PM | Comentários (22) | TrackBack

janeiro 02, 2007

ESCALADA INÓCUA

As emoções contraditórias guerreavam-se no cérebro e faziam as pazes no coração. Uma enorme confusão naquele corpo de marioneta ao sabor das marés.
O sangue fluía como uma corrente de lava que queimava por dentro até ao momento de solidificar.

Muito lhe doía enquanto empedernia, cada vez mais difícil a ascenção.
Um dia quando subia deixou de lhe doer, o coração parou de bater num instante fatal.

Só nesse dia conquistaria o cume do seu pedestal.

Publicado por sharkinho às 06:40 PM | Comentários (3) | TrackBack

MEMÓRIA SELECTIVA

Navegou a tristeza desorientado durante anos a fio no caudal memorizado das lágrimas que ela verteu.

Publicado por sharkinho às 05:48 PM | Comentários (3)

ATÉ AO FIM

Entrou em transe no preciso instante em que os lábios dela se colaram aos seus, estremecendo com a alta voltagem do esticão que sentiu pela descarga de amor.
Só voltaria a acordar muitos anos depois quando ouviu estalar os dedos do Criador.

Publicado por sharkinho às 05:38 PM | Comentários (2)

dezembro 10, 2006

DEIXA-ME ENTRAR

jogo de luz.jpg
Foto: Shark


Como uma ligação à corrente, energia pulsante que se apodera de mim.
Como uma calma aparente, uma pose distante, que controla o frenesim.
No interior a batalha disputada em silêncio, abafada no seu fragor para não incomodar as palavras que saltitam como notas vivas nas pautas mágicas de uma sinfonia.

Como um raio de luz libertado do seio da escuridão, relâmpago e trovão.
Como a ponta da varinha de uma fada madrinha que me toca e enfeitiça.
Lá fora a paz oferecida em miríades de tons, a alegria nos sons estridentes das crianças que brincam a felicidade tão espontânea numa idade onde um sorriso pode bastar.

A visão do paraíso no céu do teu olhar.

O coração a galope na pradaria, a emoção de uma fantasia que realizamos a dois.
E regressamos depois ao ponto de partida, a nossa pele despida das roupas e a alma nua de falsos pudores. Os braços que te apertam nos sonhos que te alertam para a urgência de me amares enquanto respirares e, quem sabe, para lá do que julgamos um fim.

A visão do paraíso tão perto de mim.

Como um destino traçado num quadro pintado pelos anjos da guarda que zelam por nós.
Como uma profecia so