março 22, 2008
COMO UM BEIJO NO CHÃO

Foto: Shark
Uma árvore a sós na planície desnuda. Sem sentido algum, ali plantada pelo vento de passagem para outro lado qualquer.
Como uma marca no horizonte, um ponto de referência para viajantes perdidos dos amores esquecidos na terra ressequida pelo sol de Verão. A árvore sozinha num espaço imenso, sobrevivente teimosa, agarrada por raízes de emoção bem fundo no chão que o vento algum dia beijou.
A semente que vingou, surpreendente, humidade absorvida com sofreguidão no desespero de uma solidão que só uma árvore consegue suportar.
E aquela, persistente, determinada, chama seu um lugar no ermo que o destino lhe ofereceu a soprar. Fincada na terra com a garra de lutadora e a vontade de ficar ali, de pé, mesmo nos dias hostis de um Inverno oportunista que lhe fustiga os ramos despidos de folhas.
E a árvore teimosa, sem pressa, à espera do regresso da Primavera que de novo a cobrirá com o verde da esperança, da tempestade à bonança num ciclo que se perpetua até ao dia de morrer.
A sós, na planície que domina com o olhar, passado e presente, a árvore indiferente a quase tudo em seu redor. Orgulhosa da sua copa assim frondosa, preparada para dançar ao som da brisa que a queira agitar com pequenos sopros de saudade de outra brisa que entretanto passou.
Senhora do campo, portentosa, imita o cheiro de uma rosa quando não haja por perto quem o possa cheirar. Sem medo do tempo, corajosa, reproduz a melodia harmoniosa que o vento lhe segreda em sonhos daqueles que uma árvore solitária conserva na memória para cantá-la depois.
Apenas uma árvore ali plantada, pela brisa semeada como um beijo no chão.
Com seiva de mel e uma fragilidade aparente, uma árvore persistente com a resistência do betão.
Publicado por sharkinho às 10:07 PM | Comentários (0)
fevereiro 23, 2008
PERDIDOS E ACHADOS

Foto: Shark
Viajas incógnito nos confins de um porão bafiento sem saberes sequer qual o destino final dessa embarcação.
Viajas sem saberes a razão de te meteres ao caminho, escondido dos outros que acreditas piratas. Foges de ti próprio, afinal, refugiado nos pretextos que inventas para negar esse medo que te empurra pela prancha no meio das ruas.
E tu avanças como recuas, ao sabor de uma corrente que não controlas, numa hesitação imprudente que te amarra a uma saudade que te agarra pelos cabelos, arrastado à força para outros lugares onde te escondes dos outros. Ao sabor da tua ondulação interior.
Disfarças-te, amante, para que o amor não te possa reconhecer. Ocultas-te, cobarde, para que não te impeçam de fugir. De ti próprio, rumos aleatórios, com os outros a servirem de bodes expiatórios para as viagens que recusas em teoria mas te servem na prática como argumentos nessa táctica que te esquiva para outros portos em busca de respostas às perguntas que não ousas verbalizar.
Viajas enclausurado na mais absoluta escuridão, refém do coração que te apaga a luz do discernimento e ilumina cada momento com clarões coloridos de visões dos amores que dás por perdidos. Tão perdidos como tu, que viajas sem saberes porquê e te afastas aos poucos de todos os pontos de referência gravados na consciência que te alerta em vão quando já foste longe demais.
Encontras-te a sós com os fantasmas dos avós que acreditas possuírem a explicação para esse impulso que te trai, para essa esperança que se esvai repartida na bagagem que reclamas como perdida entre os achados nas respostas que jamais saberás interpretar.
Viajas para procurar um espaço por preencher no vazio das tuas (demasiadas) interrogações.
Publicado por sharkinho às 12:52 PM | Comentários (3)
fevereiro 05, 2008
ONE MAN SHOW

Seguia sozinho. Percorria aquele caminho embrulhado num manto de silêncio que lhe garantia a necessária solidão.
Só buscava a introspecção, isolado das influências perniciosas do exterior. Buscava explicações subjectivas para contrariar as agressões, como as percebia, de quem não sabia mas arriscava interpretar os sinais.
Seguia sozinho. Decidia o seu destino blindado por uma armadura de metal que lhe inspirava confiança, que transmitia a ilusão de uma segurança que procurava com afinco, como um santo graal.
Só buscava o antídoto para um mal, o mesmo que o obrigava a vasculhar no interior daquele mar profundo que o afogava em ideias, sensações, receio das emoções afiadas como lâminas desastradas que escanhoavam sem tino as ervas daninhas que lhe cresciam na pele. A do rosto diante do espelho que reflectia no sangue que agora escorria a dor inexplicável que urgia combater.
Sentia o peito doer, enfartado pelo mergulho exagerado no inferno interior. Sozinho, percorria aquele caminho resguardado dos reforços que atraía com a sua propensão suicidária para uma relação (sempre precária) com o lado de fora da fronteira que agora traçara no seu equador.
Uma fronteira imaginária com sentinelas de brincar.
Sentia o peito arfar, extenuado pela sucessão de batalhas entre o coração e a consciência, a razão e a demência, os inimigos que se revelavam aos poucos na fragilidade de cada aliança, nas ligações de conveniência que sucumbiam à pressão de factores que qualquer guerra distorce no meio da confusão.
Só buscava a salvação, a mesma que fugia de cada vez que se envolvia na peleja quando lhe invadia o território um novo micróbio conquistador.
Adoecia sozinho, vagueava pelo caminho em busca do antibiótico exterminador para os excessos do amor traiçoeiro. Um médico ou um enfermeiro especialistas no tratamento das maleitas associadas ao conflito armado entre um guerreiro fragilizado e os monstros que o perseguiam no seu campo de batalha privado, esquizofrénico, bipolar.
Escavava trincheiras no seu lado da barricada, procurava refúgio no ventre da terra para escapar à rebentação das bombas fingidas, das ondas explodidas contra a rocha firme, paliçada, a sua certeza firmada nos espaços concedidos pela insanidade à lucidez.
Depois erguia-se outra vez, desarmado na aparência, artilhado na consciência com o resultado das suas conclusões. Detective privado, seguia isolado as pistas que lhe deixavam nos rastos da passagem ao longo da sua viagem. Agente secreto, avançava discreto pela penumbra que iluminava a cada código que decifrava quando surgia na escuridão a sombra difusa de outro espião.
Paciente curado, o enigma desmascarado na sua simplicidade confrangedora de romance de cordel.
E na cumplicidade amadora dos seus demónios de papel.
Publicado por sharkinho às 12:33 PM | Comentários (3)
janeiro 03, 2008
BLACK & WHITE

Foto/Imagem: Shark
Um homem a preto e branco encostado a um banco à entrada do hotel.
Uma mulher fatal que ao longo da escadaria o contempla, cigarro apagado entre os dedos como isco para o seu anzol sedutor.
O olhar de fogo que lhe deita, isqueiro aceso, enquanto espreita pelo decote indecoroso a tentação mal disfarçada que ela finge ignorada para não se revelar em demasia. A vontade reprimida de cobrir um pouco mais a pele que aquele olhar desnuda, por instantes, mordendo os lábios brilhantes para conter um beijo impulsivo que lhe invade a imaginação.
Um homem a preto e branco enfeitiçado por um momento desenhado à distância pelo mirone no seu estúdio de pintor, no outro lado da rua encharcada de cinzento pelo Inverno que risca no papel com lápis de carvão.
Uma mulher fatal que ao cimo da escada solta uma pequena baforada que o vento obriga a dançar sensual diante do rosto agradável de um desconhecido que ilumina o seu com a chama e depois com o calor de uma expressão.
A cor da emoção, aguarela, espalhada sobre a tela do artista observador. O final de uma história de amor instantânea com a oferta de uma flor espontânea por parte de um homem a preto e branco que vira as costas depois, enquanto sorri, a uma mulher fatal que olha para si enquanto se afasta, sem ele saber, com a expressão de quem sente perder qualquer coisa.
Um homem a preto e branco preparado para enfrentar o temporal, à entrada do hotel onde sonhou um amor impossível.
Uma mulher fatal que não abraçou outro destino e segue o seu caminho para junto de alguém que jamais a soube merecer.
Noutra janela mais um voyeur, sentado diante de um teclado com uma história fantástica para escrever.
Publicado por sharkinho às 02:45 PM | Comentários (6)
janeiro 02, 2008
ASSOMBRAÇÃO

Foto: Shark
Uma sombra sinistra naquela parede ao fundo. Prenúncio de ameaça, desconforto. Uma sombra sem rosto que assombra inofensiva, assusta inexpressiva por não se saber quem representa.
Os contornos escuros desenhados na tela improvisada pela luz, cada vez maiores, cada vez mais próximos em teoria pela lógica das sombras na respectiva extensão. O bater do coração acelerado pelo cérebro dominado por um medo sem explicação.
Apenas uma sombra, nascida de um pesadelo ou produzida por um equívoco compreensível na realidade intangível das más interpretações.
Mas o receio nem assim se atenua, tão perto a porta da rua e a vontade de fugir em crescendo, no meio do apelo disparatado do instinto de conservação. O medo sob a forma de um qualquer papão concebido de propósito para nos alertar mas que tememos se aquela sombra que vemos corresponder à respectiva materialização.
Uma sombra e pouco mais.
Aquela que reflecte cada pessoa no interior do seu espaço privado que se permita habitado por qualquer forma de escuridão.
Publicado por sharkinho às 03:15 PM | Comentários (5)
dezembro 19, 2007
CHAPÃO DE CHUVA

Foto: Shark
O Inverno aterrou por cá, carregado de bagagens com forma de nuvem e ofegante como um turista atrasado para o check-in.
Já não sopra o bafo da sua respiração gelada, mas das malas continua a pingar uma chuvada que indicia ter-se partido qualquer coisa no seu interior.
Ou talvez sejam as lágrimas do Outono desalentado por este ano não ter chegado. A acontecer.
Publicado por sharkinho às 10:48 AM | Comentários (0)
dezembro 05, 2007
A BRUMA POR DETRÁS

Foto: Shark
A cor tão esbatida, como numa fotografia antiga de um passado sépia que o tempo se encarrega de deteriorar. No presente só olhamos aquilo que já vivemos e por mais que tentemos é certo que apenas ficamos mais atónitos de cada vez que nos percebemos daltónicos, sempre que desperdiçamos o tempo de agora, tão colorido lá fora, a contemplar o preto e branco que a memória insistiu em não apagar.
Folhas de papel amarrotadas num contentor cercado pelo tapete amarelado das folhas que uma árvore confiou aos humores de um novo Outono acabado de chegar.
Folhas em branco à espera de um futuro pintado com os tons do passado tal como a imaginação os restaurou, garridos. E os prenúncios do Inverno futuro espalhados pelo vento no chão, a escolha evidente entre um Verão que só está presente no passado das recordações e aquele que chegará, depois da Primavera seguinte pintar com o verde da esperança a mesma árvore que este Outono despiu.
A cor pouco definida daquilo que já partiu, assunto encerrado, na névoa dos restos de passado a que alguém se agarra sem nexo enquanto o futuro, perplexo, fica no tempo parado à espera de uma acção que o possa concretizar e lhe permita abandonar a pele de simples expectativa alimentada pela mesma nostalgia que empanturra qualquer frustração potencial.
A mancha difusa de um navio ancorado, algures no horizonte tapado pelo fumo que a água fabricou para troçar do fogo que apagou sempre que no passado entendeu chover.
O frio a penetrar insidioso pelas frinchas das portas fechadas e das janelas tapadas por cortinas que tentam em vão esconder tudo aquilo que não se quer ver sob o pretexto, mentira piedosa, de impedir a visão aos de fora. Os que precisam de censurar tudo aquilo que conseguem espreitar, meia dúzia, na sua visão macambúzia de censores das imperfeições como dos amores proibidos (que o são todos os por si não vividos).
As imagens desgastadas e pelo tempo relativizadas, simples recordações, por vezes inúteis mesmo como lições em cabeças duras demais para discernirem o preço elevado da sua insistência na cegueira de pressupostos inspirados na especulação acerca do que se terá passado em vez de atinarem, sensatas, na busca de um caminho traçado em função de um futuro melhor. O apelo do abismo, estapafúrdio, no beco sem saída de onde não se pode saltar, a dimensão aparente de uma fuga em frente, corajosa, na ilusão andrajosa de um palhaço rico na fachada dos sorrisos mas que se sente miserável perante a falta de piada da sua verdadeira condição.
O circo social que exige vitórias e não se compadece das memórias de excelentes actuações registadas em folhas amareladas que alguém despejou displicente num contentor depois de as amarrotar numa manhã de um Outono qualquer, passado ou futuro, pisando um chão forrado das histórias que uma árvore não precisa contar quando se oferece ao olhar de quem passa e a (pre)vê primaveril, com um sorriso nos lábios de quem ontem sonhou as cores do que hoje pintou para poder observar amanhã ou depois.
As máscaras diferentes de um permanente Carnaval.
Com as cores sempre berrantes de uma vida estival.
Publicado por sharkinho às 02:56 PM | Comentários (6)
novembro 23, 2007
A POSTA QUE LOGRARÁS VENCER
Finge que te preocupas. Simula a emoção. Camufla os sentimentos reais. Esconde dentro de ti tudo aquilo que possa servir de munição para o exterior. Os outros.
Disfarça os detalhes comprometedores, oculta os amores por detrás de uma cortina ou de um véu.
Faz de conta que vives no céu aos olhos de quem te sonda. Sorri. Mesmo que dentro de ti se mascarem as lágrimas de salpicos do mar.
Distrai o olhar com a cobiça do supérfluo, a vontade postiça suplente da que sentes perder. Doa o que doer, abdica da sinceridade como argumento seja do que for e usufrui do amor como se fosses responsável pela sua existência.
Baralha a consciência com jogos de palavras e outras sementes lançadas nesse campo onde acabarás por colher a tempestade dissimulada nas pétalas de uma flor de plástico tão falsa como a alma que acreditas possuir nessa altura.
Adultera o raciocínio e falsifica as conclusões. Vicia o jogo até o veres jogado à tua maneira, de esguelha, e aceita como legítima a euforia de uma vitória garantida pela esperteza à partida de quem só aceita a primeira posição.
Maquilha o discurso com a mesma perícia que adquiriste no controlo absoluto daquilo que deixas transparecer do olhar. Despista.
Engana como contrabandista quem pretenda tributo quando cruzas as fronteiras, os limites que excedes muito para além do ponto onde te competia parar.
Promete pagar algum tempo depois, inventa a confiança que cimenta a estúpida esperança dos que tornares credores. Copia os criadores e assume o mérito que não te assista por troca com aquele que te compete pelo genial expediente que te engrandece aos olhos da plateia de papalvos que te desconheçam os dons.
Imita os sons que produzem aqueles que seduzem com palavras vazias de sentido por representarem apenas as melhores interpretações.
Ilude com manobras trapaceiras e prepara as indispensáveis rasteiras para atrasares quem te persiga.
Depois não digas mal da vida.
Faz antes de conta que te sentes feliz.
Publicado por sharkinho às 09:57 PM | Comentários (11)
novembro 12, 2007
CONVERSA DE PIRÓMANO
O encanto é como um príncipio de incêndio.
Tanto pode converter-se numa labareda que dura enquanto houver algo para consumir pelo fogo no seu caminho, como pode bastar um simples balde de água fria para o transformar de repente num monte inerte de cinzas.
Publicado por sharkinho às 04:24 PM | Comentários (4)
outubro 31, 2007
SENTIDO ÚNICO

(Imagem recebida pela net, sem autor identificado. Processem-me...)
Encosta-te aos flancos que te exponham e procura o seu calor, como quem recorre a um cobertor que se esquece depois numa qualquer prateleira quando chega o Verão.
Disfarça a solidão com consolos de emergência e desliga a consciência como se calafeta uma janela para impedir o frio de se esgueirar por entre as frinchas que não consegues tapar com os corpos temporários forjados na imaginação ou seduzidos pela ilusão da imagem que crias, holograma.
Finge-te amante enquanto recebes, distante, os beijos mascarados com promessas de paixão que retribuis por obrigação sem esconderes a repugnância quando te compete decidir o comportamento a assumir perante a evidência de outro prazer que não o teu.
Executa o programa instalado na memória, o que inventa cada história que precisas de contar. As atenções para desviar da tua gritante insensatez, a mentira ponderada de uma forma descuidada que convertes numa omissão que te garante um estranho perdão interior.
Finge que conheces o amor, recitando-o pelas palavras de outras pessoas. Cultiva uma aparência apaixonada que te torne desejada pelos mais inspirados trovadores, os mais incautos sonhadores que se deixam prender pela tua fé, ateia, desmascarada pela lucidez de quem lhe testa a robustez e descobre na palma da mão os restos da borracha de um balão rebentado, demasiado insuflado pelo sopro sibilino das palavras de vento que te inflacionam a cotação.
Encosta-te à sensação agradável de te sentires desejável aos olhos das braseiras secundárias que te amornam as relações imaginárias com soluções de recurso ao longo do percurso para a velhice que um dia te surpreenderá como um amargo de boca.
Será indisfarçável então a desconsolada solidão, a manta retalhada por cada história mal contada que no fundo a compõe e a vida a deixar-se de merdas confrontando-te com o reflexo num espelho de uma ampulheta quase tão vazia como a alma que entendeste abastardar.
O reflexo de um olhar fatigado pelo esforço redobrado que se exige a quem entende o coração como objecto de manipulação, o amor como um dejecto que descartas, insensível, num momento vulnerável de cada tocha que te alumia a espaços ao longo da caverna tão escura onde sopra sibilina a brisa gelada de cada palavra camuflada com o duplo sentido que tu sabes proibido nesse caminho leviano, seco e cru, onde afinal só existe espaço para um.
E esse serás sempre tu.
Publicado por sharkinho às 10:28 AM | Comentários (6)
outubro 03, 2007
FOLHA SOPRADA
Arrasta-me pela vida como uma folha perdida de um livro que alguém deixou por escrever no capítulo que falava do Outono e ignorava as árvores despidas e perseguia com o olhar, imaginava, uma folha a voar libertada naquele momento pela força do vento mais a vontade incontrolável de partir para outro lugar.
A ligação precária a uma terra imaginária onde fugir não constitui opção mas a sede de emoção inspira um desejo irreprimível de perseguir o calor do sol no céu a que uma pele abrasadora me consegue arrastar.
Pela vida, como uma folha esquecida de um jornal que alguém deixou sobre o banco do jardim onde fizeste de mim notícia de primeira página no despertar matutino do teu corpo sedento de informação. Quem sou quando estou, onde ficarei e porquê. Como, ainda não sei. E o quê? Jamais saberei.
Amor em letras garrafais, para ultrapassar a miopia que possa desfocar a imagem cristalina daquilo que o meu corpo afirma ser fonte segura que jorra em ti a verdade de um facto que sabias mas preferiste ignorar a dada altura enquanto a folha aguardava uma brisa própria da estação, pousada no meio do chão junto à porta de uma estalagem no topo de uma montanha com vista para o mar.
E a vida a arrastar o tempo a passar a ferro o sentimento até a linha ficar plana no monitor e soar o avisador do código azul que implica um esforço derradeiro de reanimação.
Boca a boca, massagem cardíaca, alta voltagem de um beijo carregado de desejo que desperte de novo o vento capaz de me arrastar, como uma folha escolhida por uma pessoa conquistada pela leitura das palavras gravadas no caule de uma página em branco, para o fim (como um objectivo que se pretende alcançar).
Ou para o princípio de uma história reescrita ao sabor de outro vento (mais resistente à passagem do tempo) cujo sopro a memória nunca consiga apagar.
Publicado por sharkinho às 12:50 PM | Comentários (2)
setembro 22, 2007
POR HERANÇA A MALDIÇÃO
Ignorava o suor que lhe caía rosto abaixo e sorria enquanto sonhava que as suas mãos calejadas talhariam na madeira a fantasia para o filho ou a filha que estava para nascer.
Cada mão era escrava de um patrão, os manos Silveira, a dupla mais temida de empregadores do concelho.
Mas agora ele olhava para a mão, a esquerda ou a direita, e só via a mais resplandecente magia que a sua arte de carpinteiro seria a varinha de condão. Para encanto da menina, um passarinho, um rouxinol. E viesse um rapagão, que ele olhava para cada mão e libertava-as as duas para um mundo onde os Silveira não conseguiam entrar.
Precisava das horas extra pela família a aumentar e só por isso aturava os brutos, antigos campinos, cuja fortuna se dizia em voz baixa ter sido legada por uma tia de quem mal haviam ouvido falar. Eram na altura gente do povo, remediados, mas o dinheiro deixou-os estragados ao ponto de tratarem os antigos amigos e vizinhos como verdadeiros animais.
E ninguém refilava, com mais medo dos pides que frequentavam os bastidores nas patuscadas que aumentavam a fome com o cheiro nas narinas suadas dos homens mais pobres de Vila do Chão.
Ele chamava-se João e tudo suportava para não perder o lugar e talvez vir a sofrer as pressões que empurravam outros, mais fortes ou mais fracos, não o sabia nem queria saber, para a longínqua França ou outro exílio qualquer.
Ouviu no alto da ladeira a voz estridente da jovem cunhada e pediu licença com toda a reverência ao Silveira mais novo que era dos manos o menos mau. E ele não a deu, apressado que estava de lucrar sem parar à custa dos que precisavam e por isso calavam os gemidos com que imploravam aquilo que a revolta abafada queria berrar.
Mesmo assim, vergado sobre a bancada, conseguiria ouvir o recado da cunhada que lhe dizia “ela está a parir”.
E o João transpirava, mas sorria fechado em si próprio no mundo à parte onde o deixavam ser feliz. Espreitava clandestino uma frincha na parede e aguardava notícias, frenético, produção acelerada para cumprir o objectivo impossível imposto pelo mais velho, terrível, a meta definida para o momento da libertação relativa daquela prisão onde as grades se embutiam nas janelas da alma de cada pessoa explorada que, de qualquer forma, estava ali porque não sabia para onde fugir.
O tempo a passar cada vez mais devagar porque as notícias não chegavam de casa, o calor que arrasa mais os nervos que se apoderavam aos poucos do pacato João. E ele contava as unidades produzidas, em silêncio com o olhar, pois aprendera a contar sem nunca ter pisado o chão de uma escola. Trabalhava ou pedia esmola, como o pai lhe dera a escolher no dia em que o ensinou a contar porque era tudo quanto precisava para sobreviver na realidade que lhe deixaria por herança no dia em que a vida o enforcou no telhado do celeiro.
O João precisava de dinheiro para oferecer uma vida que queria melhor para o herdeiro que a cunhada no cimo da ladeira gritava agora estar entalado na mãe, virado ao contrário, e a parteira improvisada não conseguia resolver.
Começou a temer o pior e virou-se para os Silveira, conscientes do que se passava pelo que conseguiam ouvir, e pediu licença para sair, pela emergência, argumentando com a voz embargada que já tinha excedido a sua quota de produção e tudo.
Acabaria troçado pelos dois, os parodiantes de circunstância tão divertidos no usufruto do direito ao abuso de poder.
O João pedia por tudo, pelos seus filhos e suas mães ou mesmo por Deus. Que o deixassem sair agora para poder juntar-se ao sacristão numa desesperada oração por quem lhe restava na vida de merda que lhe competia agradecer.
E eles insistiam no não, que diziam ser obrigação para evitar maus exemplos para o resto do pessoal.
O João, alucinado, aguardava um novo recado da miúda mais nova das sete irmãs da mãe de um filho que era o seu. Mas aguardava calado demais e os colegas perceberam algo de errado no seu olhar que parecia prever o pior e eles nada podiam fazer quando a moça na ladeira lavada em lágrimas nem precisou de gritar.
O João que decidira espreitar na pior altura, a verdade que era tão dura e os Silveira às gargalhadas por outro motivo qualquer e ele pensou que era da sua mulher que escarneciam.
Voou para um machado antes que alguém conseguisse deitar-lhe a mão e a força louca do João abriu a cabeça ao patrão, o mais novo, como já vira fazer a uma melancia de Almeirim e outro, que entretanto fugia, sentiu o aço nas costas e depois deitou-se de bruços para morrer.
E o João não parou de correr até ao celeiro, onde a vida ajustava as contas com cada devedor.
E na ponta da corda o sinistro balanço anunciava o eterno descanso de mais um desgraçado com saldo perdedor.
Publicado por sharkinho às 01:31 AM | Comentários (2)
setembro 19, 2007
O ÁS DOS FLIPPERS
Puxei-lhe a cena até onde podia e só depois abrandei aos poucos a pressão, tentando encaminhá-la para o ponto ideal.
Larguei de repente e ela rolou bem depressa sobre si própria, deixando-se depois arrastar pela inclinação. Precisamente até onde eu queria, tudo a dobrar.
Desceu, acelerando de repente. Tão depressa que quase me escapou por entre os acrescentos de dedos com que tentei impedir que abandonasse o local cedo demais.
Empurrei-a com força até ao cimo, até onde a extra se escondia ansiosa à espera do talento de um jogador em condições. Acertei-lhe em cheio, naquele alvo desejado. Até estalou, quando a voz metálica anunciou que triplicava a pontuação se conseguisse enfiá-la na estreita portinhola que só se mantinha aberta por alguns instantes.
Os suficientes para a empurrar novamente de forma brusca até ao topo, a glória ao virar da esquina, tentando alhear-me aos comentários invejosos dos mirones enquanto lhe controlava as descidas e preparava o toque perfeito no botão lateral que a catapultava de novo para onde quadruplicava a pontuação.
Já se sentia a tensão acumulada em volta e eu na expectativa de superar os anteriores e constar entre os melhores de entre quantos se haviam esforçado até então. Um número memorável a perpetuar na memória, as minhas mãos a fazerem história e eu embalado para abarbatar o high score.
E ela girava sem cessar, como uma barata tonta, ao sabor de pequenos safanões que lhe indicavam o melhor caminho a seguir.
Mas às tantas começou a descer muito depressa, embalada, em busca de um final que eu tentava desesperado adiar. Pelo meio, manhosa, onde seria quase impossível deter a sua cavalgada inexorável para o refúgio inviolável. E esse seria o único ponto onde eu não poderia tocar-lhe outra vez e forçar mais uns pontos preciosos para o meu resultado final.
A ansiedade a subir, tudo decidido em fracções de segundo. As mãos cravadas na borda, preparando a aplicação da derradeira solução para o que parecia inevitável, e ela tão depressa a caminho do fim e eu só mais um bocadinho, espera, palmada na direita, palmada na esquerda, tá quase, tá quase…
Quase ouvi o meu grito interior quando ela tocou ao de leve no da esquerda, congelado, incapaz de reagir enquanto a malvada sumia egoísta, parecia que sorria, deslizando pela porta de saída central, quando a máquina fez tilt.
Publicado por sharkinho às 10:38 PM | Comentários (4)
setembro 18, 2007
A POSTA QUE ÀS VEZES VIVEMOS ASSIM

Às vezes torna-se tão óbvio o quanto a nossa vida varia na percepção apenas em função da forma como a conseguimos olhar.
A capacidade de encontrar os pontos de luz no meio da escuridão e de os focarmos até se destacarem na nossa alma como horizontes infindáveis onde o sol perpetua o seu nascer, essa mesmo.
Às vezes é tão fácil perceber, de entre o ruído de fundo das agressões que este mundo prepara para nos entorpecer, o quanto a vida se faz das pequenas coisas que definem os contornos da diferença com uma nitidez que nos surpreende quando a olhamos com olhos de ver.
O gesto bonito de um filho ou o sorriso maroto de uma mulher amada, a vida observada à luz mais forte que é precisamente aquela que o amor nos dá.
A vida do lado de lá das coisas entediantes, das rotinas irrelevantes dos dias perdidos porque estamos entretidos a cultivar uma espécie de obrigação de sofrer.
Às vezes é simples distinguir o que interessa no meio de dias passados à pressa, perseguindo objectivos sem nexo, ignorando necessidades como o sexo e muitas outras prioridades de que uma vida se deve fazer.
A palavra amiga de alguém que se esforça por nos entender as manias, por nos perdoar as arrelias que qualquer pessoa mais próxima é capaz de suscitar.
A vida que devemos olhar como uma vela alimentada pela força do fogo mas vulnerável a um simples sopro do vento ou a um suspiro mais profundo dos que se dão quando as pálpebras da consciência se fecham e no cenário só se perfilam as ameaças sinistras à felicidade que o medo ou o cansaço inventam para nos distrair do essencial.
Às vezes uma vida que apelidamos de normal está recheada de pequenos pirilampos à solta dançando no breu para prenderem a atenção de quem olha mas se sente incapaz de observar.
Precisamos de acreditar que é possível ser feliz, apesar de tudo o que nos diz tratar-se de uma utopia. A vida oferece-nos magia a cada instante do espectáculo que nos proporciona.
Uma noite suada na cama ou a gargalhada espontânea de alguém que nos selecciona por acaso ou talvez não de entre uma imensa multidão que nos explora ou simplesmente nos ignora em face das decisões egoístas e das emoções contrabandistas que nos roubam aos poucos a fé.
Parece simples mas não é, esta visão apurada de uma vida ignorada nos seus aspectos positivos que bastam, se o quisermos, para fazerem acontecer a diferença necessária.
Uma vida imaginária nos sonhos que afinal é o embrião do que podemos alcançar com a determinação de quem exige ser feliz e partilhar essa euforia com alguém que nos sorria perto o bastante para segurar a nossa mão ou acelerar-nos o coração com o desejo que brilha num olhar.
Às vezes basta deixar que a vida nos desperte do torpor para reinventarmos o amor nas suas múltiplas facetas.
Nas coisas mais insuspeitas podemos encontrar os aspectos da vida que devemos abraçar, como a esperança dos loucos que confiam nos poucos que contribuem para cada amanhã se antever agradável de viver. A loucura revela-se no oposto desta premissa, a que sempre nos afasta dos tais pontinhos de luz na paisagem.
E depois é só abrirmos os olhos a essa mensagem e percebermos a sorte de enquanto não chega a morte (ou algo ainda pior) sobejarem as oportunidades de nos revelarmos capazes de a tornarmos, nem que seja só às vezes, mesmo muito melhor.
Publicado por sharkinho às 10:58 AM | Comentários (14)
setembro 17, 2007
FAZ DE CONTA QUE SIM
Faço de conta que não percebo que manténs o teu segredo guardado a sete chaves numa gaveta que não abres porque queres fazer de conta, para sempre, que um dia a abrirás de propósito para mo contar.
Publicado por sharkinho às 09:46 AM | Comentários (7)
setembro 08, 2007
COM O DEDO NO BOTÃO

O médico olhou de novo para o monitor da mais paciente das suas.
Parada no tempo, em morte lenta, ligada a uma máquina chamada ventilador. Paciência infinita, apatia, o ritmo cardíaco constante de quem já não possui sequer consciência das suas emoções.
Um vegetal.
O médico nada podia fazer mas algo o impelia a espreitar, em busca de algum sinal de melhoras. À procura de qualquer alteração que pudesse reforçar uma réstia de esperança numa forma de recuperação possível.
Que nunca aparecia, distante a paciente dos caminhos de outra fé que não a sua, nenhuma, egoísta, como o companheiro gritara quando pela última vez a visitou em pessoa, revoltado pela dor que convertia em ira e depois se traduzia no consolo periclitante da repugnância aparente pelo que entendia como uma deserção. Uma forma de traição distorcida, pois sabendo-o ausente no momento fatal vestia a si próprio (como outros lhe vestiam) a pele de traidor.
Renegava o seu amor, em vão, tentando esquecê-la. E tanto tentou que um dia afirmou não mais voltaria a falar sozinho naquele velório infinito à beira de uma cama num hospital e conseguiu honrar esse compromisso derradeiro que pelo menos o poupava ao desconforto da inevitável indiferença daquela casca fria que já nada albergava da mulher a quem um dia se ofereceu.
Desde esse dia não mais apareceu, incapaz de testemunhar cada passo doloroso daquela morte anunciada, um simulacro de vida suportado sem lógica de uma forma absolutamente artificial.
O médico olhou de novo para o monitor.
E pela primeira vez sentiu-se tentado a premir, desmentindo o juramento de Hipócrates, as letras “off” gravadas a vermelho e em relevo naquele piedoso interruptor.
Publicado por sharkinho às 12:28 AM | Comentários (0)
agosto 25, 2007
VERSÃO SIMPLIFICADA (2)
Esta vida tão boa, uma vida que voa debaixo dos nossos pés. Como um tapete mágico que nos larga em apeadeiros sinistros ou nos deixa apreciar as mais belas estações.
Primavera, renascimento. Inverno, recolhimento. Outono, nostalgia. E Verão, com festa em cada dia pela presença mais forte e constante do calor de um sol.
Pela linha da vida, desde o ponto de partida até ao momento imprevisível do regresso ao impossível que nos parece uma vida sem acontecer. A eternidade ansiada depois da vida esgotada, promessa de deuses que ninguém consegue confirmar. E a única certeza que nos dá, essa vida por vezes tão má, é a da viagem em curso com tudo aquilo que nos possa proporcionar.
A galope para alguns, esse caminho que não sabemos se acaba amanhã. E a passo para outros, indecisos a cada etapa em solo firme com medo que de repente se lhes acabe o chão.
Qualquer que seja a opção, os passos a dar sempre mergulhados na incógnita das respectivas repercussões. A tomada das decisões possíveis, às vezes tão simples e que afinal se podem transformar em pesadelos que nos podem exacerbar a ingratidão de reles mortais sem apreço pelo seu único dado adquirido, precisamente aquele que se esvai sem hipótese de repetição.
O futuro olhado como se fosse garantido em qualquer das suas previsões, como se amanhã quisesse dizer mais do que um simples palpite optimista, uma arrogância imbecil assim exclamada sem qualquer ponto de interrogação.
E as lições do passado ignoradas, as vidas desperdiçadas nos mesmos ciclos medonhos de monotonia cumpridora dos mais estranhos rituais.
Sem sentido algum.
Em frente, o obrigatório, por muito que do cimo do tapete haja quem tente vislumbrar as alternativas para prolongar o percurso ou os atalhos para tentar abreviar aquilo que apenas a incerteza nos proporá.
Amanhã, pela vida fora?
Para mim só existe hoje e agora.
E o resto logo se verá.
Publicado por sharkinho às 09:19 PM
agosto 18, 2007
SOLIDÃO DISFARÇADA

O cerco apertava enquanto o passado acumulava detritos em seu redor.
Cada vez mais alto, o resíduo deixado pela passagem do tempo em cada momento desperdiçado, em cada passo mal dado, cobria o horizonte visual e distorcia a imagem dos outros enquanto cuidava de lhes turvar a sua.
Lembrava-se do dramaturgo Samuel e entretanto acumulava papel no muro crescente das coisas que emparedavam a sua consciência entre os pesos que criava ao sabor da maré que oscilava entre a mais implacável lucidez e uns assomos de estupidez tão grande como a de um tijolo.
Mais um, somado aos detritos do passado e firme na estrutura que cimentava sem cessar com as mazelas por sarar que lhe infectavam a percepção.
Como bolas de sabão, explodiam-lhe no rosto os capítulos já escritos e perdiam-se por detrás do muro os trilhos abertos para os capítulos por escrever.
Perdia-se sem saber como naquele espaço exíguo que lhe restava para se perceber, numa espécie de clausura que obrigava a viver os outros à distância.
E assim se expunha ao medo do desconhecido e vestia a pele de lobo como couraça e depois constituía-se uma ameaça latente para cada pessoa distante que há muito desistira de se empoleirar do lado de lá da barreira que crescia inexorável.
Afirmava-se sensível mas ignorava a sensibilidade alheia, centrava os considerandos na imagem de si que especulava sem contar, que as desprezava como hostis, com as recomendações demasiado sinceras que poucos insistiam.
E eram cada vez mais escassas as imagens que lhe transmitiam, lá de fora, para o fundo do poço em que se tornara aos poucos o seu chão.
Buscava a solidão disfarçada como se aplica uma pomada num hematoma superficial e com isso só acrescentava mais uns quilogramas de entulho ao cerco que apertava e não dava mostras de ceder.
Aos poucos deixou de doer, substituída a decepção por uma raiva generalizada às gentes do lado de fora da barricada em que se entrincheirou.
E foi assim que desapareceu do mundo teimoso que aconteceu indiferente à sua ausência.
No dia em que apenas os mirones espreitavam em silêncio o poço sem fundo e escutavam atentos os fracos gemidos do que lhes era descrito pelos outros como uma mera aberração.
Sem alguém que insistisse em desmentir essa versão, vergada a resistência dos que acreditavam e ainda esgatanhavam o muro em busca de um fio condutor.
Dos que se afastavam para longe, para um sítio sossegado onde o seu próprio cerco não tardava a apertar.
Enquanto o passado acumulava detritos em seu redor.

Publicado por sharkinho às 04:54 PM | Comentários (2)
agosto 14, 2007
ASA DELTA

Foto/Imagem: Shark
Correr sem parar até à borda do precipício.
E depois saltar num abraço sem fôlego à imensidão do vazio.
E então voar por entre os humores do ar reflectidos nas variações constantes da sua temperatura.
O ar que nos puxa ou nos empurra, sob o olhar atento do sol, para mais perto da terra (a gravidade da situação) ou em voo sereno, planado sem ondas até um ponto qualquer do céu.
E a terra que reparte o horizonte com o azul sem fim, esqueço-me de mim, dispensável, enquanto ela decerto sorri perante o arrojo do homenzinho pequeno que desafia o seu incomensurável poder de atracção e tenta voar como os pássaros munido de asas feitas de papel.
E o ar a pregar as suas partidas, tão depressa um poço como um invisível trampolim. A força de braços fingindo-se capaz de contrariar cada chicotada lateral que determina o rumo a seguir e o vento afinal tão discreto na sua deslocação numa tarde de Verão pachola.
A descida inevitável num espaço de aterragem que simboliza o alívio do chão debaixo dos pés e ao mesmo tempo constitui um pequeno desgosto pelo fim da adrenalina e das múltiplas sensações e equívocos que produz.
Os cabos desapertados, ligações desactivadas uma a uma até não sobrar nenhuma à experiência que assim findou, senão a certeza da vontade de a repetir.
Talvez noutro lugar. Com o vento de feição e outro tipo de embarcação, mais segura, risco calculado e mais prudência na fé.
Um sonho sustentado, felino.
Daqueles que caem sempre de pé.
Publicado por sharkinho às 04:55 PM | Comentários (0)
agosto 11, 2007
PALAVRAS INÚTEIS?

Palavras tão fáceis, palavras tão ágeis a transmitirem ou dissimularem emoções. A voz por escrito de alguém incapaz de calar mais do que a boca que beija como louca a imagem de um desejo ou a tangibilidade da sua concretização.
As palavras tão certas, palavras tão perfeitas a espalharem o som do que se escreveu. A melodia de uma paixão ou a cacofonia que uma desilusão acarreta. A escrita da palavra mais correcta para transmitir algo que de outra forma tenderá a morrer.
O tempo que não perdoa e a memória que nos atraiçoa pela idade ou pela doença, pela dúvida ou apenas pela necessidade imediata de negação.
Mas as palavras por definição constituem-se testemunho, na leitura do passado tal e qual o sentiu quem nesse tempo assistiu impotente ao desenlace de histórias mal interpretadas que poderiam conhecer outro final. No futuro em que o leitor se permite pensador em vez de se deixar apropriar pelo encanto ou pela ira e enveredar pela explicação desnecessária.
A execução sumária de uma ilusão, de uma fé ou de uma certeza até. Definitivas as consequências, se ausentes as palavras que permitem desvendar o equívoco ou distinguir a mensagem verídica na intenção de quem a gravou.
Na forma de palavras cuja verdade intrínseca o tempo não consegue esborratar.
Palavras tão fáceis de decifrar, tão fiáveis na respectiva interpretação depois de o tempo deixar assentar todo o pó que impede a sua leitura correcta no presente. A visão mais esclarecida com a análise posterior do relato de um grande amor ou da essência de uma opinião espontânea.
Palavras indispensáveis para quem gosta de (se) falar.
Ou palavras indecifráveis (para quem não as saiba ler).
Publicado por sharkinho às 09:53 PM | Comentários (0)
RAÍZES NO SUL
Foto: Shark
Aqui e além a paisagem, quase sempre a paisagem, exibe as cicatrizes da passagem efémera da presença humana na pele da terra que depois a cobre de vegetação.
Mas impõe a vontade da Mãe Natureza que a veste, a terra, na esmagadora maioria dos lugares que a vista consegue alcançar. O verde, imenso, mais o dourado intenso nos campos onde a água escasseia ou a espiga se arrebita alentejana ao vento que a agita mas não consegue arrancar.
Desta terra que é força, uma terra tenaz cuja vida acontece nos locais mais imprevisíveis. A semente que sobrevive numa pedra, sequiosa, mas aguenta paciente o momento mais adequado para agarrar o lugar e depois levantar um sinal de resistência no meio do que às vezes sentimos desolador.
E depois encontramos a linha costeira, onde o mar castiga os flancos de um Alentejo que desafia os elementos e resiste com uma parede de rocha ao avanço das águas salgadas de muitas lágrimas escapadas dos olhos tristes das viúvas de pescadores.
O oceano que se arrepende depois e amansa nas praias escondidas, discretas, difíceis de alcançar e as beija com o doce ondular de uma maré vazia da vontade de converter em areia a rocha litoral que o pó interior condensou.
O calor que o queimou e ainda queima sem misericórdia, salpicos de branco caiado com uma faixa de amarelo ou de azul. A vida pachola do sul onde o esforço se quer doseado, pois nem a terra à mercê de si própria consegue acelerar a criação de vida por já não conseguir transpirar. Quando o calor se instala nos invólucros da dor que se cala à maneira das gentes, poucas, que insistem como as sementes na pedra sobreviver a um clima tão hostil.
A força de um sul onde a planície predomina mas também se revela alentejana cada uma das suas elevações.
O poder das paixões que nascem sob a luz do seu ocaso vermelho, o apelo dramático do amor que surge como um imperativo para contrapor a beleza da esperança à fatalidade que emerge nos olhares de velhos apoiados em cajados na orla dos montes ou à beira das estradas nacionais secundárias.
O Alentejo cheio de histórias para contar.
E eu cada vez mais arrastado pela força da corrente que me prende por uma insuspeita costela alentejana.
Publicado por sharkinho às 05:30 PM | Comentários (7)
agosto 06, 2007
POR ANTECIPAÇÃO

Chorou-a ao longo de meses mas nem uma lágrima verteu. Foi como uma espécie de luto que vestiu, mas interior.
Onde o silêncio carpia a perda de um amor e a saudade dispensava a luz da partilha com qualquer outra pessoa.
Porque a emoção defunta daquele viúvo solteiro há muito só buscava companhia na solidão de um monólogo abafado pelo ruído de fundo das memórias prometidas que o tempo esqueceu.
Publicado por sharkinho às 07:56 PM | Comentários (4)
agosto 01, 2007
A POSTA QUE ATÉ PARECE QUE ÉS BRUXO

A bola de cristal, muito calculista e racional, fornecia-lhe imagens nítidas dos seus futuros possíveis. Charadas, na maioria, pois a bola sabia respeitar as regras do jogo do folclore da (e)vidência simulada.
Curtas metragens de longas viagens pelo que a sua escassa influência poderia determinar naquilo que aconteceria passavam no interior da bola de cristal, numa espécie de antestreia privada com sabor a peep-show e sem qualquer explicação acerca dos detalhes específicos do seu papel em cada uma das cenas da sequência.
A bola de cristal, vaga nas respostas mas de alta definição, parecia brincar com o seu único espectador. Oferecia-lhe imagens de amor impossível ou de separação definitiva, de sucesso na conquista ou de vergonha pela aparente deserção.
Sem qualquer explicação.
E ele observava em silêncio os cenários variáveis em função de uma incógnita que sempre lhe escapava de cada vez que uma teoria sua explicava um desenlace qualquer.
O rosto de uma mulher que influenciara algumas decisões e o de outras que algures desistiram de o tentar. Pretextos que a bola de cristal lhe oferecia para ver se ele escolhia um dos rumos em exibição naquele canal de comunicação celestial clandestina.
O bem e o mal de mãos dadas na elaboração de cada trama intestina, os flashes de momentos na cama como pensamentos marcados por uma nostalgia irreal face às imagens de episódios ainda por acontecer.
O futuro na sua mão, redondo, e a bola a prever um triângulo no qual não acreditava. E a repetição incessante de uma emoção contrastante com a ausência de brilho no olhar da mesma pessoa no fotograma de uma alternativa herdada de um passo em sentido contrário (o tempo como adversário) que parecia deitar tudo a perder.
Não sabia o que perdia, porém. Assistia a algo que na verdade não tinha e por isso concluía-se sem nada de concreto a temer.
A bola a oferecer de bandeja o espectáculo da vida que graceja quando desencadeia eventos sob a lógica implícita na queda programada de uma quantidade infinita de peças de um bizarro dominó.
E ele sentia-se só no momento de tomar a decisão de avançar num sentido, a tentação de alterar o definido (também) em função das escolhas dos outros implicados nas entrelinhas do guião.
Acompanhavam-no, no entanto, algumas certezas que o passado firmou. E a essas não lhes permitiria fraquezas que pudessem resultar da simples observação do resultado da especulação de uma máquina de calcular imaginária, a hesitação embrionária em resultado de um excesso de zelo.
Não sabia o que fazer com aquela informação valiosa disponibilizada por uma vidente engenhosa que no fundo lhe manipulava as opções com as visões subjectivas gravadas no processador da sua bola de cristal, condicionadas pelo seu próprio presente a acontecer prioritário.
A baliza que imaginou no horizonte do imaginário quando se confrontou com a necessidade de impor um objectivo qualquer para a bola que aquela mulher lhe passara para as mãos, enigmática, foi a solução que encontrou (a mais prática) para resolver as inúmeras questões suscitadas pelo acesso às imagens proibidas que de pouco serviam sem uma explicação cabal.
Olhou de novo para a bola de cristal, sorriso trocista, farto de se sentir um tolo.
E quando a rematou para longe, a perder de vista, o visionário de circunstância festejou o golo, muito antes de o esférico passar sob o vulto da Guardiã e beijar as malhas do futuro que o avançado escolheu e a bola de cristal que para sempre se perdeu jamais voltaria a influenciar.
A última imagem que passou foi a de um homem que caminhou sereno sobre as águas agitadas de um passado que esqueceu, rumo a um futuro alternativo que podia ter sido outro, quiçá melhor (não o sabia).
Mas era aquele afinal o seu (que o fazia). E a bola de cristal não o escondeu, pouco antes de desaparecer sob as ondas a sua última centelha de luz enquanto a vidente premia, indolente, os botões no comando à distância com que escolhia, imperturbável e fria, outro canal do aparelho alternativo de (tele)visão virtual ao seu dispor.
Publicado por sharkinho às 12:33 PM
julho 30, 2007
NUM TEMPO QUALQUER
Foto: Shark
Nos ramos, pássaros famintos pareciam aguardar que o vento lhes trouxesse notícias da terra onde a abundância (na cabeça de um pássaro) certamente saberia voar.
Mas bastaria chover e isso parecia não estar para acontecer, tal como já não acontecia há mais tempo do que qualquer daqueles pássaros conseguiria lembrar.
Lá por baixo, outras criaturas resistiam como podiam, as pessoas, ao calor insuportável, à sede e ao pó.
A sua pele falava, como a de velhos pescadores, da aridez que sulca as cútis como antes, no tempo em que os pássaros famintos ainda não passavam os dias em galhos onde acabavam por morrer novos demais, os arados rasgavam a terra para as outras criaturas, as pessoas, conseguirem comer algo que não os corpos esqueléticos dos pássaros a quem as árvores não conseguiam deitar a mão num momento em que o vento entendia soprar mais uma vida para o chão.
Cansava, só de os ver naquele arrastar do padecimento, as pessoas, calados pela planície em busca de sucessivos nadas em que se convertiam as miragens, alucinação, que lhes traíam o olhar e os convenciam a andar, quantas vezes, uns passos demais.
Caíam como os pássaros, primeiro os novos e depois os velhos, levantando uma pequena nuvem de poeira que parecia uma alma acabada de sair do inferno e ficavam ali até que alguém passasse que os transportasse sem pressa até à mais próxima vala comum.
Nos ramos, pássaros famintos com os bicos escancarados pareciam ignorar que há muito os milagres não aconteciam naquela terra massacrada pelo sol. Aguardavam a morte sem chegarem algum dia a experimentar a vida que lhes era destinada viver. Noutro tempo qualquer e nunca naquele espaço onde se tecia cada pedaço de uma manta ilustrada que contava as histórias de dor que os lá de baixo, as pessoas, insistiam em contar por entre o princípio do fim e o momento da respectiva consumação.
Eram gritos de alerta aos viajantes, os que passavam distantes temendo algum assomo de força do desespero naqueles corpos ressequidos e quase privados de locomoção. Temiam um surto de ladrões, ou de outra doença esquisita e naquelas paragens quase sempre fatal para quem dela não conseguia fugir.
Daquela terra já não fugia ninguém. Nem os pássaros famintos nas árvores despidas, poucos que restavam, eram estúpidos e por isso não ousavam voar em busca da terra da abundância que, existindo, certamente voaria até aos pássaros cujas forças já não permitiam lá chegar a tempo de evitar o mesmo destino que nas árvores aguardavam em paz.
Naquele lugar, todos sabiam, os pássaros nas árvores e os lá de baixo, as pessoas, que a salvação ficava sempre, em qualquer direcção, a uma distância comprida demais.
Publicado por sharkinho às 10:56 PM | Comentários (0)
julho 25, 2007
FILTROS DE COR
Foto: Shark
A vida pelos olhos de quem observa, debaixo de uma ponte, aquilo que acontece num mundo ao qual já nem sente pertencer.
A vida pelos olhos de quem assiste, a bordo de um iate, ao passar do tempo de qualidade que a distância abastada proporciona.
A vida pelos olhos de um pai, num hospital de campanha, com um filho morto nos braços por uma doença que o outro lado do mundo há muito erradicou.
A vida pelos olhos de quem ignora, na fila de trânsito, outras preocupações que não as da sua realidade comezinha e saturada de pressões.
A vida pelos olhos de quem acredita, no interior de um confessionário, que aquilo que se vive de melhor só acontecerá depois de morrer.
A vida a acontecer aos olhos de quem não selecciona mas apenas distingue os filtros de cor que o acaso aplica consoante os tempos e os espaços destes mil mundos possíveis num mundo camaleão.
Publicado por sharkinho às 11:08 AM | Comentários (0)
julho 15, 2007
EM PARALELO

Como numa rasteira das que o destino nos prega para testar a capacidade de cada um para lidar com os seus trambolhões.
Como num simples cruzamento de linhas que pode originar a coincidência fatal ou a conversa inicial de uma relação proibida.
Como em todas as manhas do azar ou da sorte na vida que determinam o caminho a seguir sem que alguém possa intervir de forma esclarecida para mudar a agulha.
No prato, a deslizar, diamante, sobre as pistas traçadas no vinil. As músicas tocadas ao gosto de quem manda afinal nisto tudo e compõe os arranjos como impõe a natureza do tom, a pureza do som que se torna roufenho quando na melodia alguns acordes despertam para a realidade inevitável de uma generalizada surdez.
Como num sonho concretizado dos que flutuam inacessíveis no limbo que a utopia oferece para nos seduzir.
Como numa fita antiga, a preto e branco, sublimada a magia da imagem pelo mais belo aproveitamento da luz.
Como na maioria daquilo que se vê, exactamente o que alguém produz a partir da sua visão subjectiva depois de renegar a natural alternativa noutro olhar que não o seu.
Na tela, a contracenar, amante, sobre as linhas definidas pelo guião. As cenas interpretadas ao sabor das palavras simples de um escritor, adaptadas às exigências dramáticas e às imagens capazes de agarrarem uma audiência quando nas bilheteiras se faz sentir o longo braço da lei, numa terra de cegos quem tem um olho é rei, da oferta e da procura num mercado global.
Como numa dimensão paralela, num mundo secreto onde a vida acontece exactamente como a pretendemos e até conseguimos ignorar os pecados deixados por limpar no planeta distante que deixámos para trás.
Como numa mentira, mas daquelas tão compensadoras que qualquer consciência consegue na boa aceitar.
Ou simplesmente ignorar.
Publicado por sharkinho às 04:49 PM | Comentários (5) | TrackBack
julho 11, 2007
A POSTA QUE LHE DEU NA BOLHA

A princípio deixou-se apoderar pela apreensão quando se descobriu no interior daquela aparente prisão que inviabilizava uma vida em pleno lá fora.
Gostava de acreditar que fazia falta a alguém no exterior da fina película transparente que agora delimitava o seu espaço pessoal. Depressa percebeu que não passava afinal de mais uma ilusão sua, a malta que andava na rua (como chamava ao direito do avesso em que se acreditava) seguia o seu caminho imperturbável e olhava de soslaio, indiferente, a sua figura flutuante que pairava a escassa distância do chão.
Depois foi caindo em si, livre de intromissões ou de interferências, de ralações ou de ingerências que pudessem desconcentrar a sua atenção do que agora se colocava como o mais pertinente dos assuntos a ponderar.
Aos poucos começou a apreciar aquela distância artificial, aquela prudência natural perante o que percebia tratar-se de uma forma bizarra do desconhecido de quem avisavam na infância para nunca dar conversa.
Percebeu que conversava demais e foi sentindo os sinais de forma cada vez mais clara, enquanto observava em silêncio o ruído de fundo que os outros produziam e a sua esfera protectora não impedia de ver ou de ouvir.
Habituou-se com o passar dos dias a essa postura diferente, cada vez mais evidente a conclusão precipitada, a decisão equivocada com base em argumentos nascidos de uma fonte cuja água há muito fluía com vestígios coliformes.
A nascente de ilusões que desaguavam na foz do realismo sumário, sempre ausente uma bandeira azul que garantisse a pureza cristalina que bebia quando a esfera não filtrava o que via nem aquilo que lhe era dado a beber.
Sentia-se agora à vontade no interior daquela cela fictícia, onde passaria a voluntária a detenção quando naquilo a que chamava prisão deixou de procurar uma porta de saída.
E ainda melhor ficou no dia em que constatou que, apesar de algo diferentes da sua e mais ou menos dissimuladas, tanta gente flutuava em redomas invariavelmente muito parecidas…
Publicado por sharkinho às 03:39 PM
junho 28, 2007
UM MUNDO SÓ SEU

Aos poucos o nevoeiro a levantar.
O sol a abrir caminho por entre o manto incolor da cegueira temporária, faz-se luz em cada recanto da ilha deserta e tudo o que não se via parece agora ao alcance da vista outra vez.
O navio lá adiante, pintando o horizonte com a sua presença visual. Apenas um barco, afinal, vontade alguma de embarcar para longe daqui.
Aos poucos o fim da bruma e um rasto de espuma que desponta logo ali onde a areia se deixa beijar pelas ondas do mar e a terra acaba. Engolida pela água cada vez mais manchada por pedaços de azul. Do céu que se percebe destapado e envia um recado que brilha nas penas daquele bando de gaivotas que voam a liberdade e transportam a verdade aos olhos de marujos e de náufragos sem uma rota para a fé.
Como estrela polar, a luz a brilhar de passagem nas asas de uma viagem silenciosa no reflexo dos olhos de alguém. E nem interessa quem, entregue a si próprio, sentado nas rochas a soprar o nevoeiro e a descobrir o mundo inteiro nas intermináveis horas de meditação.
Lições do passado, no presente avisado acerca do futuro que um mago lhe revelou. No dia em que naufragou, abalroado de surpresa por um torpedo na proa. O fim inesperado de uma embarcação condenada ao estaleiro pela falta de dinheiro de um arruinado armador.
Aos poucos a visão cristalina de um mundo só seu. Perdido por entre o breu o furor cosmopolita, abandonada em definitivo a vontade de acreditar no milagre a ressuscitar nado morto. Aquilo que nasce torto e jamais se pode endireitar.
A sensação de acordar no final do sonho e passar o testemunho ao próximo corredor, um momento de libertação indolor que sabia necessário.
O reencontro com algo que o nevoeiro tapava e agora se mostrava ao brilho da luz.
A saudade esquecida no meio da euforia pelo regresso da paz.
Publicado por sharkinho às 11:37 AM | Comentários (0)
junho 25, 2007
UM ESBOÇO GROSSEIRO

Foto: Shark
Foi-lhe negado o perdão pela ausência da perfeição que em dada altura exibiu. Desastrada a sua atitude conciliadora, pior ainda quando enveredava pela reacção hostil.
Parecia de propósito, rasteira da vida, a sucessão de imponderáveis que aumentavam a pressão e arrastavam os desfechos para becos sem saída.
Circulava sem nexo pelo labirinto complexo da sua mente inquinada pelo excesso de informação deturpada que inevitavelmente lhe distorcia qualquer conclusão.
O despropósito da reacção injustificada que embaraçava depois, quando já pouco ou nada podia fazer.
E o ciclo vicioso que aumentava e cada vez mais contagiava tudo em seu redor com o vírus da solidão.
As suas relações explodiam como bolas de sabão, desapareciam como seara lambida pelo fogo que ateava inconsciente com palavras insanas e tentativas trapalhonas para remediar o mal feito assim.
Como peças de dominó tombadas numa sucessão interminável de réplicas do abalo original que produzia com o impacto das suas intervenções, jaziam no solo da sua memória os amores acabados e os encontros adiados para amanhã ou nunca mais.
Destroços de uma guerra interior descontrolada, estupidamente extravasada para fora dos limites de um território em ebulição. Uma bala no coração em cada resposta às suas agressões extemporâneas até a hemorragia ser impossível de estancar.
A imagem a sangrar nas manifestações da sua evidente desorientação, o choque da deserção generalizada em ambos os lados da fronteira.
The enemy within.
O silêncio em volta do campo de batalha vazio onde parou para pensar.
Acabou por encontrar a solução nas armas abandonadas que reuniu no centro do paiol que demoliu por implosão, fundidas num enorme invólucro de metal com pequenas ranhuras destinadas à observação prudente do que acontecia lá fora. Invulnerável aos outros no interior de um blindado completamente parado e por isso mesmo inofensivo como meio de agressão.
Conformou-se com a solidão tranquila até perder sequer a vontade de olhar o céu.
Algum tempo mais tarde, a sua fortaleza petrificada acabou convertida num imenso mausoléu.
Publicado por sharkinho às 05:36 PM
junho 03, 2007
FUNDO FALSO

Foto/Imagem: Shark
Tentou agarrar sem sucesso o holograma da sua maior ilusão. Uma verdade que mentia enquanto fugia da sua mão sem se mexer, como um fantasma ou uma nuvem de sonho capaz de se desvanecer em fumo com o simples sopro de uma corrente de ar.
Uma imagem postiça para entreter a audiência sedenta de novas sensações.
E o mágico fingia mas por dentro sabia que não passava de um engano para consumo interno, à vista de um público incapaz de distinguir um coelhinho na cartola de um sinistro furão.
Vivia da ilusão com que mentia a si próprio e depois partilhava no espectáculo a dor maquilhada com lantejoulas e efeitos de luz. Pombas brancas e ramos de flores, a carta de um baralho adivinhada com os dedos mais a rapidez de execução.
Os aplausos efémeros para a actuação, antes do silêncio sepulcral de uma sala vazia onde aconteceu a magia mas agora acabou e o ilusionista no meio da pista imitava o palhaço a abraçar o vazio.
A mentira que o fazia acreditar que o tempo podia parar no meio de um número bem conseguido, um momento cristalizado com a varinha de condão.
Vivia da ilusão que fazia acontecer, tanta gente a ver e ninguém percebia como o fazia tão bem. O gosto que a vitória tem, insuficiente para o compensar daquilo que tentava agarrar sem sucesso. Sorria amarelo e depois empalidecia a chorar, oculto nos bastidores como uma aberração daquele circo amador.
Vencia a solidão treinando a esperança e ganhava confiança no seu dom de prestidigitador.
No palco dominava a situação, controlava a emoção e conseguia serrar uma mulher em dois. Juntava as partes depois, em caixas separadas que pareciam animadas porque se viam uns pés a mexer e uma boca a sorrir da sua assistente contorcionista.
Unia tudo aquilo com pozinhos de perlimpimpim e satisfazia assim o compromisso com os espectadores que exigiam do seu tempo apressado uma contrapartida fenomenal.
E era o que lhes dava afinal, num espectáculo colorido de um mágico travestido em pessoa feliz. Conseguia enganar por obrigação tentando criar a ilusão perfeita, colava a alma desfeita em pedacinhos embrulhada em paninhos multicolor.
Depois oferecia uma flor surgida do nada a uma espectadora encantada e sonhava naquela cara uma outra estampada que não podia tocar.
E insistia em tentar agarrar o holograma que tanto brilhava na escuridão mas que fugia de uma mão enquanto a outra, profissional, esmagava no rosto do mágico as lágrimas que ninguém podia adivinhar.
Como por magia, transformavam-se em borboletas que fazia desaparecer no fundo falso de uma caixa imaginária, inventada, que só ele conseguia decifrar.
Não passava de uma memória forjada, mas o mágico enlouquecido há muito havia esquecido o que isso queria dizer.
Publicado por sharkinho às 08:23 PM | Comentários (5)
maio 27, 2007
OLHOS FECHADOS
Sentiu-o pela primeira vez numa festa e perdeu de todo a vontade de festejar.
Decidiu ignorar esse sinal, relegando-o para o dormitório dos sobressaltos sem explicação onde repousam essas preocupações fugazes e por isso mesmo encaradas como secundárias.
Viveu uma vida normal, apesar da sua sensibilidade anómala, exagerada, até ao dia em que o voltou a sentir.
Na sala de espera de um hospital onde deixaria internada em definitivo a sua capacidade de estar próximo de outras pessoas.
Era um indivíduo discreto, embora de trato agradável e sem problemas de integração. A única excepção ocorria quando se manifestava a sua natureza susceptível, sobretudo quando se via exposto a cargas emocionais mais intensas.
Lidava mal com o excesso de emoções e por isso refugiava as suas numa postura de aparência distante e reservada que o poupavam à partilha das emoções dos outros e às partidas que a sua pudesse pregar-lhe.
Receava sentir por julgar que isso poderia levá-lo à loucura um dia, tamanha a repercussão dos sentimentos dos outros, apenas os piores, na estrutura frágil que albergava os seus que o pressionavam sem cessar.
Como vozes interiores, mas caladas. Mais como olhares expressivos demais que lhe diziam tudo o que jamais quereria saber e o agrediam de cada vez que se abriam como janelas sobre a alma de alguém.
E ele fugia aos poucos dos muitos que o perturbavam nessa perspectiva, buscava os indiferentes, os ausentes ou os mais frios que conseguia encontrar.
Foi conseguindo viver assim, numa luta contra o tempo que restava no pensamento que sentia fraquejar. Um sacrifício pensar, os seus olhos teimosos que enchiam de imagens a mente que as convertia depois em dolorosas sensações que o dilaceravam, emoções que ultrapassavam o limite da resistência à dor que tanto nascia de um grande amor como de uma tragédia passada.
A sua ou as de outras pessoas que o feriam com a tristeza reflectida num olhar. Cada vez pior, à medida que o tempo passava e o mundo se transformava num viveiro de infelicidades adubadas pelas mais absurdas motivações.
Envelhecia prematuro perante o horizonte tão escuro nos corações da maioria, a multidão que nesse dia o apanhou sem alternativa de fuga.
À espera da tão adiada consulta de urgência que aguardava na lista de espera de uma especialidade cada vez mais sobrecarregada pelos desequilíbrios em constante mutação nos sintomas como na bizarria das suas manifestações.
A ele tocava-lhe aquela, a sensibilidade às mensagens transmitidas pelos olhares das outras pessoas. Ensandecia, enquanto a sua visão percorria um a um os sentires dos pacientes que o rodeavam.
O rapaz que se revoltava por algo que não conseguira ainda obter, o velho zangado por algo que tinha obtido mas perdera depois.
E ao lado dos dois uma mulher desesperada com a morte traçada num diagnóstico confirmado pela segunda opinião. Um homem calado, na outra ponta da sala, de olhar perdido no vazio da solidão interior que o emudecia enquanto se evadia de uma culpa penitenciária para uma loucura que equivalia ao perdão divino, eterno, que apenas no céu poderia encontrar e já não conseguia esperar pelo momento de lhe encostar, a esse céu mesmo à mão, a arma de caça carregada com uma anestesia final.
Era com esse que mais se identificava, o que mais acentuava a sua preocupação com a estranha evolução do seu problema ainda por identificar pela ciência rudimentar que estudava a cabeça das pessoas.
Conversa de treta e uns comprimidos indutores da estupidificação, cobaias voluntárias em experiências aleatórias de cientistas condenados a pouco mais do que uma bola de cristal para acertarem nas suas previsões.
E ele sozinho no meio de tanta gente incapaz de calar sob as pálpebras a agressão latente da sua perturbação específica. Numa câmara de tortura individual, construída em segredo pelo cancro do medo nas traseiras das células mais sedentas de crescer porque o tamanho confere poder e a morte de um cobarde não angaria nos outros a vontade de o chorar no momento do fim.
E ele sozinho a senti-lo germinar a cada impacto de um olhar revelador.
Acabaria por fugir antes do seu nome soar nos altifalantes fanhosos.
Preferiu a deserção para o degredo da solidão onde poderia escolher a melhor forma de sucumbir à demência.
Preferiu a inconsciência à sanidade cruel e optou por vestir a pele de um eremita.
Ainda hoje habita num monte isolado, esse homem derrotado pela força temível de uma dor impossível de ignorar.
O brilho ausente no reflexo descrente do seu próprio olhar.
Publicado por sharkinho às 05:17 PM | Comentários (10)
maio 24, 2007
DO PENSAR COM A PILA

Eu tive um cão, um rafeiro meia leca, cuja reputação no Bairro do Charquinho assentava em duas características mais destacadas: era estupidamente guloso e comia três ou quatro queques por dia no café do Bairro, pensava com o estômago; e era o macho canídeo com maior taxa de sucesso na finta aos donos incautos de cadelas, também pensava com a pila.
E é nesta última expressão que me debruço, pois tudo aquilo que verdadeiramente interessa já está a ser minuciosamente dissecado por uma chusma de especialistas e de pensadores e ninguém liga aos pequenos nadas que também fazem a realidade terra a terra do nosso quotidiano.
Pensar com a pila é uma expressão idiomática que aplicamos aos gajos que, como o meu cão acima citado, concentram o raciocínio numa prioridade específica (determinada pela pila) e deixam dominar o comportamento em função do objectivo primordial. Ou seja, tomam as suas decisões de acordo com a premissa de que mais vale uma passarinha na mão do que duas a esvoaçar fora do alcance do predador.
Tentando perceber a origem deste popular conceito, chama a atenção o facto de existir uma associação de ideias entre aquilo que definimos como a cabeça da pila (onde na verdade quase tudo acontece em matéria sensorial e isso para o povo só pode ser prova da existência de uma inteligência superior) e a capacidade de pensar.
Faz sentido. Se existe uma cabeça, não a vamos presumir acéfala. E considerando o imediatismo da reacção da pila a certos estímulos, é natural que a entendamos como um órgão autónomo e dotado de vontade própria. Às vezes até dá essa impressão...
Claro que a evolução do estudo anatómico já permite afiançar a inexistência de um cérebro (no sentido convencional) na mais polémica extremidade humana, mas à sabedoria popular pouco interessam os avanços científicos nesse particular (excepção feita ao domínio da investigação de fármacos e de utensílios capazes de melhorar o desempenho e/ou o tamanho do objecto de estudo – viagra, enlarge your penis e afins).
Daí à constatação empírica de que existem indivíduos cujo discurso e atitude parecem absolutamente condicionados pela vontade suprema do falo é um passo, na forma simples e prática que o povo encontra para distinguir os traços mais marcantes das partes que o compõem.
E é nas partes que incide a reflexão espontânea do pensador de rua quando analisamos a génese da associação pila/pensamento, mais do que no encéfalo dos visados (onde sabemos afinal produzir-se o toldar do raciocínio perante um ombro desnudo ou um olhar mais sensual).
Se por um lado isso implica um estudo ao nível da observação comportamental (de esguelha), também revela o cuidado com o eventual processo cognitivo de uma porção particularmente reactiva da anatomia masculina.
O povo é quem mais ordena também no sentido da vida e isso comprova-se com a fertilidade do terreno de onde brotam as conclusões que permitem explicar de forma lógica e elementar os mais intrigantes mistérios que esta Humanidade tão profunda consegue produzir para posterior decifração.
E assim conseguimos identificar peculiaridades e traduzir as suas repercussões num condensado de palavras que fornecem todas as respostas necessárias para uma existência sem dúvidas naquilo com que lidamos de perto em cada dia.
O meu cão actual só pensa com o estômago. E por isso é virgem.
Essa relação causa/efeito denuncia o preconceito que me leva de forma instintiva a considerar o bicho estúpido como uma porta.
E esta conclusão basta-se a si própria para fundamentar o pressuposto de que na sabedoria popular existe sempre uma verdade intrínseca que não se compadece das certezas relativas de uma abordagem mais científica.
Bibliografia
A Mitologia Embrionária do Homem das Tabernas (Edições Reguengos Tintos), por Zé Móinas
Do que Falo (Edições Pi'), por Zé Bastos
Neulocilulgia da Glande, Vol II (Edições Chao Chao), por Dr. Zé Pili Lau
Publicado por sharkinho às 11:58 AM | Comentários (6)
maio 23, 2007
PALAVRAS PARA FAZER
Foto: Shark
Palavras escritas, palavras ditas, ideias perdidas na ausência das acções.
Palavras que falam de emoções escoadas pelo buraco negro de uma intenção por concretizar.
Às vezes mais vale calar, cobrir com um remendo de silêncio o futuro orifício que dessa forma nem chega a acontecer.
Palavras por dizer, recatadas, palavras poupadas ao corrector implacável de uma inevitável tendência para a desilusão. Pelo exagero das expectativas em palavras tão queridas mas condenadas ao saco roto por onde deslizam para o esquecimento e em vez de brilharem no firmamento da esperança acabam pisadas como folhas secas no chão.
A cor cinzenta da morte anunciada do Verão, quando um manto de sono a que chamamos Outono começa a cobrir aos poucos a terra calcorreada como a lembrança ignorada das palavras que o vento soprou. Adormecida na letargia a mensagem que tombou no sorvedouro da luz que rompe, a custo, a névoa nas noites frias do interior pessoal de quem gela no litoral enquanto olha o horizonte e só vislumbra uma parede que é feita de humidade caída do céu.
Cada palavra que se perdeu, desorientada pela referência tapada que lhe indicava o sentido que pretendia vestir e o caminho a seguir desenhado no mapa de um significado que alguém não cuidou de decifrar, é como um grito passageiro nos ouvidos do nevoeiro que o encaminha indiferente para um ponto tão distante que nunca mais encontra um caminho de volta. O eco que jamais brota das palavras que passam ao lado do seu receptor.
Sejam palavras de amor ou simplesmente sinais de uma dor que mesmo injustificada acaba assim amplificada nos berros sem nexo dos parágrafos de um texto escrito em contramão na estrada da solidão onde mais ninguém circula, se a mensagem não estimula o verbo comunicar é ilegítimo ambicionar alguma espécie de retorno.
As palavras feitas transtorno que alguém insiste divulgar como um rasto que pretende deixar para memória futura.
De quem busca na noite escura sem sentido (de orientação) algum rasgo de iluminação que substitua o rumo incerto de uma travessia pelo deserto por um caminho infindável de mãos dadas com o espírito inquebrantável das palavras assim recuperadas como argumentos de solidez.
Daquilo que se fez e daquilo que se quer fazer no culto de uma relação onde nunca algo possa ficar por dizer.
Publicado por sharkinho às 01:01 PM | Comentários (6)
maio 18, 2007
A UM METRO DA LUZ

Sentia-se como um explorador apanhado de surpresa por uma armadilha instalada no interior de uma pirâmide, cada vez mais comprimido pelas paredes contra o sarcófago de um escriba importante, de um assessor de qualquer grande e poderoso faraó.
A claustrofobia a aumentar com a pressão do avanço daquele gigantesco espremedor e ele lá dentro, como rato preso na ratoeira à escuta dos passos felinos da morte a chegar.
E ele esgotava a mente em busca de uma saída para aquela situação, raciocinava em vão as hipóteses mais absurdas apenas para ter a certeza de que não deixava em aberto qualquer solução que pudesse surgir na pior altura e aumentasse ainda mais a sua agonia no fim.
Pensava assim enquanto media a distância com o olhar, o espaço cada vez menor naquela tumba que partilharia com um ilustre desconhecido a quem nada incomodaria a proximidade de outro cadáver qualquer.
O aperto que aumentava a cada nova estação. O Inverno, a Primavera e depois o Verão devastador com o sopro de calor que emanava daquelas paredes humanas, os passageiros unidos com o único intuito de o esmagar.
E ele queria ir trabalhar como todos os dias, mas arfava como um estúpido perdido no meio da multidão. O medo que o invadia e os vermes que percorria com o olhar alucinado de alguém enlouquecido pelo quotidiano desenhado com requinte pelo melhor arquitecto enviado por Rá.
O sol que não via por detrás da barreira impenetrável que o oprimia como um manto pesado de nuvens no Outono que entretanto chegou quando, para espanto dos indiferentes mais próximos, a última folha caiu e o louco saiu aos gritos da carruagem na derradeira viagem, deixando a mala com os ossos do ofício no interior do túmulo da sua sanidade que abandonara a realidade algures no túnel onde agora buscava, demente, um fundo com uma luz.
Publicado por sharkinho às 10:13 AM | Comentários (10)
maio 16, 2007
O LOPES AZARADO
O senhor Lopes pressentiu que ia ter um dia mau. Péssimo, aliás, desde o momento em que falhou a palmada no despertador e acertou em cheio no copo de água que se estilhaçaria no chão.
O mesmo aconteceria pouco depois à jarra preferida da sua namorada agora ex, entretanto telefonara a partir-lhe o coração com a triste notícia do final da relação a dois.
Em cacos a sua vida porque a sorte andava fugida e nada parecia correr bem.
Nem mesmo a simples arrumação dos seus pertences na mala de viagem, o perfume na bagagem de um frasco que fraquejou sob demasiada pressão.
Aquela que sentia em cada gesto que fazia, receoso de mais perdas desastradas e de outras cenas maradas que pudessem atrasá-lo para o check in.
Regava as plantas no peitoril da varanda quando o telemóvel tocou e no momento em que se virou o cotovelo à solta pregou-lhe uma grande partida. Observou a queda da sua belíssima begónia a partir do sexto andar, apenas dois abaixo do seu, inclinado na posição ridícula que a tentativa frustrada de evitar a queda lhe proporcionou.
E obviamente reparou como o vaso tocou de raspão na cabeça do pior vizinho possível, apenas o bastante para desviar a rota para o vidro da frente do carro estreante da família Almeida, os coléricos do rés-do-chão.
A maior confusão armada, uma vizinha desmaiada, alguém chamou a polícia e o senhor Lopes foi prestar declarações. Uma eternidade passada na esquadra, o agente sem pressa a buscar no teclado cada vírgula ou til. E o xis, onde está? Mais a porra do agá sempre presente nas muitas entradas do verbo haver.
Haver até havia, mas aquele início de dia acabou aos poucos com as hipóteses que o senhor Lopes tinha de chegar ao aeroporto a horas.
Quando finalmente entrou em casa, depois de entornar uma bica sobre as calças e observar mais um objecto estoirar no meio do chão, era mesmo tarde demais, o avião já descolara e sendo assim nem sequer tentou.
Deitou-se mais cedo, contrariado, demasiado enervado para ver um pouco da televisão onde os destroços do seu avião abriam os especiais informativos de todos os canais a essa hora…
Publicado por sharkinho às 09:37 PM | Comentários (7)
maio 08, 2007
PARALELOS ASSIMÉTRICOS
Do tempo que com eles passou nesse dia, tempos atrás, recordava-se apenas de frases soltas e conceitos vagos.
Lembrava-se da sensação desconfortável de uma camisa-de-forças mental, das raias da loucura a que a situação os fazia chegar. Pelo menos a um, não o sabia.
Também tinha uma ideia do tédio que a sua rotina lhes gerava, cada dia que passava sem nada de novo para contar.
Isso ficara-lhe na memória como registo da sua percepção da conversa com cada um dos seus interlocutores, os gémeos agora abstémios com quem tomara copos nas madrugadas juvenis.
Lembrou-se ainda das queixas com o barulho e, a propósito, uma voz estridente, incomodativa e permanente que parecia constituir um denominador comum (ele não tinha bem a certeza).
Um olhar triste igualmente lhe ficou na retina, embora pelas semelhanças entre ambos não conseguisse discernir em qual dos dois. Ou mesmo se tinha sido apenas num.
Sabia ser similar a saturação que lia na expressão de qualquer deles, tal como uma crescente vontade de fugir que transpirava das palavras tristes que se prestou a ouvir.
E falavam do azar que os atingiu, a vida estragada num minuto mau.
Em tudo isto, recordava, estavam de acordo também as suas afirmações e os desabafos que ouvira com paciência no dia de os visitar.
Quando partilhou com um amigo esta dúvida que o assaltava, o paralelo que o baralhava em relação a qual seria o irmão que lhe dissera isto ou aquilo ficou mais ainda intranquilo por não lograr uma distinção nas suas impressões do contacto havido.
Lembraram-lhe então que visitara um irmão a cumprir o penúltimo ano de uma pena de cinco na penitenciária local e o outro na casa onde vivia desde o dia em que casou com uma gaja conhecida que engravidou sem saber o que fazia, uma década atrás, igualmente embriagado no momento da ocorrência fatal.
Publicado por sharkinho às 04:18 PM | Comentários (0)
maio 06, 2007
O VENTO QUE SOPRAVA UTOPIAS

Que ventos sopram ao longe as velas da caravela que foge no horizonte distante daquela memória?
Talvez sejam os ventos da história (mal contada) que um dia será recordada como um capítulo que ninguém conseguiu encerrar.
Uma tragédia, se calhar, o destino transportado pelas ondas até à frágil estrutura da embarcação. Destruída por uma borrasca que aos deuses oferece a voz para gritarem à casca de noz que num momento de fúria seria tão fácil de afundar como um castelo de cartas à mercê de um furacão.
Ou talvez naquela história soprem os ventos de uma glória deserta, uma ilha toda coberta pelo nevoeiro que o medo instalou nos corações. O frio nas emoções congeladas das âncoras fundeadas na desolação de um cais ou na aridez de uma doca seca qualquer.
Uma corda a amarrar os sonhos de uma vida dedicada à exploração dos confins do coração cujo mapa nenhum navegador logrou um dia desenhar.
A descoberta de uma vida melhor nas traseiras do quintal onde assistimos ao nascer do sol e percebemos a dimensão da pequenez que nos caracteriza.
O sopro de uma brisa tão perto de qualquer peito feito deserto, tão suave que nem uma vela consegue apagar, as migalhas de existência debicadas sem consciência de que morrem no tempo as hipóteses de um dia zarpar.
A estrutura envelhecida da nau que jaz esquecida por entre os escombros da frota que outrora integrou, nos dias em que navegou sem olhar à prudência com o rumo traçado pelo ocaso pintado como uma pista laranja nas águas serenas onde sopram ao longe os ventos que arrastam a caravela que foge no horizonte distante que a noite agora cobriu.
A caravela que fugiu de uma forma de prisão que era a sua condição de transporte público regular sem nunca arrojar uma viagem destemida em que o dia da partida parecia nunca mais chegar e a chegada apetecida acontecia numa ilha de onde ninguém desejava partir.
Um ponto minúsculo nas cartas interpretadas pelas gentes embarcadas como um baralho de tarot. Uma vontade que germinou numa ansiedade incontrolável de enfrentar o desafio e renegar aquele frio que enregela quem prefere atracar nas lembranças para recordar de uma história marcada pela desistência.
O amor de um marinheiro a bordo daquele navio tão afastado, um corte inesperado no fio condutor.
A caravela a desaparecer por detrás da curvatura enquanto a terra gira sem que nada para ela pareça importar na sorte ou no azar de quem embarca algures e depois aporta em nenhures ou mesmo de quem nem chega a atingir objectivo algum.
A noite a chegar e o marujo a mergulhar dando início à perseguição mais louca enquanto da sua boca brotam gritos de amor que disfarçam a dor pelo choque da água fria, o prenúncio da hipotermia que arrasta o corpo para o fim.
Mas nem uma nortada pelo vento descarregada arrefece uma alma assim.
Publicado por sharkinho às 08:14 PM
maio 05, 2007
NOTÍCIA FICTÍCIA DE UM MUNDO MELHOR

NOTÍCIA DE ABERTURA
Existem coisas no (do) mundo que não podemos evitar. Chamamos-lhe azar ou estupidez ou outra etiqueta qualquer para aqueles imprevistos que nos atrapalham a felicidade, as surpresas desagradáveis que Deus ou o acaso preparam ninguém sabe onde, como, ou porquê apenas para nos infernizar algumas etapas ou mesmo a totalidade da existência.
Por outro lado também há os aspectos que sabemos errados mas sentimo-nos impotentes para conseguir alterar, ou porque não temos a força necessária, ou porque somos fatalistas ou porque somos apenas demasiado burros ou preguiçosos para os contrariar.
Dizemos que a vida é mesmo assim, não há nada a fazer e os outros é que têm a culpa.
Os outros ou Deus, os eternos bodes expiatórios quando o Diabo não fornece uma explicação cabal.
Coisas que herdamos dos antepassados e vamos deixando ficar, mesmo quando colidem com aquilo que sentimos ou mesmo acreditamos ser o melhor para os outros e sobretudo para nós…
Cada um possui a sua visão de um mundo perfeito no qual conseguiríamos viver uma vida ideal. Ou talvez nem tanto, mas seguramente muito melhor.
É impossível coordenar tanto livre pensamento mais o arbítrio das emoções, a salada de influências que sofremos pelo sítio ou pelo tempo onde nascemos ou apenas pela transmissão genética das cenas foleiras que antes já tinham influenciado de forma negativa a vida dos nossos pais ou dos seus tetravós.
Existem, contudo, alguns aspectos relevantes que assumimos consensuais. Em teoria, claro, pois a prática do dia a dia desmente mesmo essa aparente universalidade de conceitos como o amor, a amizade, a honra, a dignidade ou a simples noção de que não é correcto roubar algo de alguém.
E a mesma incongruência acaba por afectar os eleitos a quem confiamos os grandes capítulos da História e a gestão de boa parte daquilo que o nosso destino se faz.
Às vezes bastaria optar pela omissão, o oficial alemão que decidiu afastar do malvado a pasta com a bomba que o iria matar e salvaria milhões do seu ódio irracional, qualquer um de nós que decidia pousar o pé no travão em vez de acelerar feito estúpido até à curva que se revela fatal. Gestos insignificantes como os momentos mais relevantes, tudo tão simples de mudar para pior.
E para melhor também, se for esse o entendimento da maioria (quando impera a Democracia) ou o das pessoas capazes de identificar essas agulhas na linha que podem fazer toda a diferença, por exemplo, no momento em que a viagem atinge a última estação.
Ou podemos acreditar, afinal, que é possível no mínimo facilitar a passagem dos que partilham connosco um dado segmento da vida que nos é concedida para usufruir. Que podemos no mínimo eliminar tudo aquilo que sabemos fazer-nos mal. Ou às outras pessoas. Ou à totalidade dos que suportam as consequências de erros idiotas passíveis de evitar. Ou de não repetir, pela confrangedora estupidez que isso representa.
E é disso que trata um lote de textos acerca de momentos fictícios da vida de um mundo alternativo que eu consideraria melhor na minha concepção das coisas, capaz de nos permitir uma existência mais sábia, mais livre e acima de tudo muito mas mesmo muito mais feliz.
É esse o propósito de cada um dos trabalhos que publicarei sempre que o título da posta repetir o que dá nome à prosa que acabam de ler.
Publicado por sharkinho às 03:45 PM
maio 04, 2007
A POSTA SONHADA

Naquele sonho as caras não se viam e as palavras que se liam falavam apenas de coisas que ninguém queria saber.
Imagens difusas de situações confusas e a pessoa que sonhava não conseguia interpretar a mensagem escondida na garrafa à deriva pela orla de um naufrágio qualquer.
Imagens imensas com cores intensas no lado de fora de uma barreira transparente que separava na mente as duas verdades por conhecer.
A sensação desconfortável de um enigma indecifrável nos gatafunhos gravados a fogo na pele de um animal. O alerta naquele sinal que não despertava a pessoa que sonhava mergulhada num desconcertante torpor.
Falava-lhe de amor aquele fantasma pintado, os olhos em movimento num quadro pendurado na barreira transparente por um dos pregos manchados pelo horror da crucificação.
Uma pessoa condenada naquele cruzamento de dois paus, o lamento dos seus irmãos e de repente uma vontade premente de se deixar embalar pelo desabafo de um chorar em seco no corpo adormecido da pessoa que sonhava e tanto queria acordar.
A figura aparvalhada de um observador, um transeunte inesperado naquele retrato sonhado de um turbilhão de emoções. Parado diante da máquina de filmar que substituía o olhar da pessoa que sonhava e entretanto registava para mais tarde somar dois e dois.
Acordaria depois, como intuía naquele sonho disparatado que se via desmascarado pela incongruência do guião. A estranha sensação de ausência no interior de uma experiência que o observador (participante) levava a cabo para escrever um tratado acerca da vida para lá da morte de que se afirmava conhecedor.
Um cientista do amor que provava tratar-se de um sentimento imortal. A prova final no acerto da equação, a hipótese testada e o conhecimento a fluir no rolo de papel da máquina que imprimia os resultados enviados do céu.
A fantasia exagerada naquela banda desenhada que prendia a atenção inconsciente da pessoa que sonhava num instante todos os medos sentidos num período de tempo que enquanto acordada, essa pessoa só queria esquecer.
O sonho tão belo transformado num pesadelo e o cientista maluco calcando as fórmulas pelo gargalo da mesma garrafa que a memória conservara de uma imagem anterior.
A matemática do amor, ciência exacta, explicada em números dourados no anexo ao relatório enviado pelo escritório de uma empresa de certificação.
A venda de uma ilusão, depois de cobertos os olhos por detrás daquela lente que registava na mente os pequenos retalhos de informação dissimulados por entre o espalhafato de um estranho ritual.
Naquele sonho, os profetas não acertavam e as tretas abundavam até ao momento libertador.
A pessoa que sonhava, estremunhada, recebeu como uma bênção o som estridente do seu despertador.
Publicado por sharkinho às 11:36 AM
abril 30, 2007
SENTIDO OBRIGATÓRIO

Tão simples. Deixarmo-nos embalar pelas ondas num imenso azul e chamar-lhe vida preciosa que é urgente saborear.
E enfrentar tempestades, que sempre existirão, as tormentas que experimenta qualquer navegador, mesmo que fique em terra e ignore o amor.
A aventura da existência, a sorte e o azar, o poder navegar sobre os espaços que incluímos no mapa de viagem pessoal.
O privilégio de escolher como o fazer, o rumo nas nossas mãos, pelas cartas que indicam os portos de abrigo ou ao acaso pelo desconhecido que urge desvendar.
Mistérios que guardamos naquilo que somos e a mente é tudo aquilo que nos faz. Ou a alma, como preferem os adoradores de deuses que acreditam ser esta apenas uma etapa num percurso que só depois do final poderá ser absolutamente feliz.
A nossa fé num amanhã para avançar num rumo qualquer nesta viagem sem sentido algum quando a abraçamos sem vontade de a usufruir.
Sem sabermos sequer de que lado das nuvens olharemos o céu daqui a nada.
E a vida na nossa mão, as rédeas que o torpor idiota do efeito da ressaca de dias desperdiçados a correr nos leva a ignorar e quando nos apercebemos que precisamos agarrar o leme e virar é quase sempre tão tarde demais. As decisões que deixamos por tomar, optimistas, até ao dia em que alguém terá que as decidir por nós. Ou ficarão para sempre adiadas nas memórias enterradas em conjunto com um invólucro que afinal deveria ter servido sempre e só para sentirmos o prazer da existência.
A vida a doer, pela evidência que nos obriga a reconhecer aquilo que vivemos às cegas. Aquilo que tapamos com as talas laterais que roubam à vista a felicidade que às vezes só surge de relance no ângulo alargado de uma visão periférica. Passam-nos ao lado as oportunidades melhores, o encanto de amores ou mesmo a inigualável experiência de ver um filho a crescer. Depressa demais, quando nos deixamos atordoar pelos narcóticos de um sucesso feito de plástico, inventado de propósito para nos impedir de olhar a sério para aquilo que interessa afinal.
Drogados pelo ópio do povo que é a ilusão da riqueza, o desvio de uma certeza que todos os dias é iluminada por um novo nascer do sol.
A esperança que aniquilamos com o tempo que desperdiçamos a fugir das coisas que nos fazem sorrir, cegos pelo cumprimento de um desígnio que não passa de uma obrigação que alguém nos vendeu.
Uma história mal contada que precisamos com urgência alterar, cada um o seu desvio para a linha alternativa nos carris da locomotiva ou esculpida pelo destino nas palmas das mãos.
Uma guinada no leme, repentina, viramos naquela esquina para o lado oposto onde a ilha deserta ou outra terra incerta nos podem aguardar. O destino a mudar quando não serve os propósitos sagrados de qualquer ser dotado de vida e capaz de decidir por si só.
O exemplo de uma avó ou de qualquer pessoa infeliz que não teve aquilo que quis enquanto podia lutar pela sua obtenção.
A verdade na nossa mão, a cada instante mais clara.
Porque o tempo não pára.
Mas o mesmo não acontece com o nosso coração.
Publicado por sharkinho às 10:06 AM | Comentários (2)
abril 27, 2007
NÃO OLHES AGORA

Coisas que não podem ser ditas, angústias proscritas na boca e reclusas no coração. Segredos cativos, talvez ignorados nas masmorras do esquecimento em que se transforma o pensamento quando a verdade nos dói.
À espera de uma ocasião imprevista para se esgueirarem, na ânsia de escaparem para os cenários fantasiados de um crime por cometer.
Só precisam de obter uma fracção de segundo, um instante em que não se conseguem esconder essas coisas que não podem ser ditas mas espreitam pelas janelas abertas no momento de desatenção fatal de um olhar guardião prisional das emoções que alguém tentou ocultar.
Uma alma escondida com sonhos de foragida que sem querer deixou espelhar.
Publicado por sharkinho às 07:38 AM | Comentários (0)
abril 23, 2007
NOTAS VALSAS

O som do piano que ecoa na sala por entre as vénias que o silêncio lhe oferece nas bocas caladas de quem se presta a ouvir.
A música das palavras ditas dessa maneira, tocadas pelos dedos cuja mestria se mede na reprodução fiel de emoções escritas numa pauta para alguém as interpretar depois. O teatro musical, dramático o impacto daquela virtuosa combinação dos sons nos ouvidos sensíveis e conhecedores.
A expressão de inspirados autores na impressão traduzida nos rostos de olhares perdidos pelo palco imaginário para onde a música os transportou. Ou fechados à realidade do auditório improvisado onde as teclas produzem cores que voam pelo ar como pássaros a planar ao sabor do vento que soprou do coração de um compositor. No céu da imaginação.
Talvez uma ode ao amor ou apenas a evocação de uma sangrenta batalha, a glória de um monarca ou a euforia alheia de uma paixão que se absorveu.
Nas notas alinhadas em silêncio, o ritmo e o tempo de cada momento contado nas teclas por dedos esguios. Para experimentar num mutismo reverente e no fim aplaudir.
Bailar com os olhos a melodia na pauta que pode ser feita de vários papéis, num palácio de sonho como rainhas e reis ou como simples peões num enredo qualquer do tabuleiro universal.
O silêncio final rasgado na sala pelas palmas das mãos quando vibram ainda os últimos acordes, o derradeiro capítulo, o acto terceiro de mais uma peça solta na vida que se escuta, tal e qual como se vê.
Ou talvez nas entrelinhas de um livro que se lê.
(Hoje, dia de S. Jorge, é também o Dia Mundial do Livro)
Publicado por sharkinho às 08:36 AM | Comentários (16) | TrackBack
abril 19, 2007
SWING THE BLUES

A mulher comprometida lançou-lhe um olhar que lhe pareceu combinar com o sorriso malandro que a sua boca tentadora compunha naquele rosto quarentão.
Lembrou-lhe o anúncio que colara no vidro traseiro de um carro que queria vender mas a lei proibia de anunciar à descarada. E o marido dela, pensou, quem podia autuar naquela circunstância, ficou sem argumentos para exercer o direito de preferência pois não descobriu à despedida, na falsa saudade prometida, a intenção prevaricadora.
A esposa sedutora, tão discreta, escrevia com os olhos uma proposta secreta para o alvo da sua cobiça. Um homem diferente para cada noite ausente em negócios, o marido atarefado demais para evitar a cama vazia. Um homem que a despia em sua substituição, não queria saber de paixão mas apenas do desejo e da companhia em cada noite fria naquela cama que era o palco das suas mais incríveis actuações.
Aquelas que o (des)interessado não via, tão ocupado a magicar a melhor forma de a enganar com uma outra que o deslumbrava como ela não conseguia.
E o homem desse dia, seleccionado pela matadora, avançava destemido para o contacto inicial. A confiança fundamental que o seu rosto transmitia era como a garantia de uns meses para a viatura que queria vender, a fulana que ia comer precisava de o sentir inofensivo sob qualquer ponto de vista. Era apenas um malabarista na gestão das maçãs que lhe calhavam na rifa, as dentadas doseadas em função da sua perspectiva subjectiva (que cada um, nestas coisas, cuida de si).
E ela ali, controlando as testemunhas em seu redor, tentando afastar a hipótese de alguém descobrir naquela forma de sorrir uma oferta pública de aquisição temporária. O fim daquela história traçado, adeus e obrigado que fica o segredo na lembrança e aquela aliança no anelar do fulano acautela a sua preservação.
Os dedos daquela mão, proibidos, percorrendo-lhe a pele e o corpo anónimo a fornecer-lhe o calor tão humano e natural.
O homem escultural, um amante ocasional, descontraído, que hesitava no preço pedido pelo carro que queria vender e nisso pensava em segundo plano sem imaginar a dimensão do seu engano, a bronca garantida por uma coincidência assim, quando se apresentou à esposa do homem de negócios que a sua aguardava numa esplanada próxima dali.
Publicado por sharkinho às 10:41 AM | Comentários (2) | TrackBack
abril 15, 2007
MÁSCARA DE FERRO
Tentou perscrutar a verdade naquele olhar por detrás da máscara que escondia a realidade que queria nua. Mas a hipocrisia cobria-o com um véu e apenas conseguia ver o céu, encoberto pelas nuvens da mentira por contar.
Faz de conta o amor, um dois três, e agora é a tua vez de brincar. Um sorriso a despontar por debaixo da cara coberta, o final da madrugada naquela boca rasgada em vão sem reflectir o coração apagado como o pavio de uma vela soprada pela brisa fresca da manhã.
O Outono naquele olhar cinzento, a magia de um momento pintado pelo tom carregado da ameaça de um temporal. A aurora boreal num reflexo de luz enganador, a promessa de um amor esquecido, nas folhas perdido de um calendário do ano que já passou.
Mascarada a consciência de foliona sem prudência, sentimentos de fantasia naquela boca que sorria à espera de um beijo com sabor a troféu.
E a loucura naquele céu por detrás do disfarce, o voo de um milhafre em busca da sua presa distraída a fazer pela vida, à cata das migalhas que a existência lhe oferecia de vez em quando e dos milagres que sonhando quase pareciam acontecer.
A boca irresistível, o apelo carnal de uma aventura de Carnaval, temível pelas consequências, tamanhas as exigências que deixava de valer a pena arriscar pelo prazer de beijar aquela boca em forma de anzol.
Os olhos traiçoeiros que ocultavam arpões certeiros mais as palavras que seduziam como redes que envolviam num abraço a vítima da tentação.
E ele tentava acordar antes de a armadilha o encarcerar num beco sem saída naquela fêmea escondida por detrás de uma cobertura apetitosa, uma máscara gulosa que aliciava pelo mistério e prometia um caso sério na sequência de um beijo naquela serpente em forma de anel.
Lucrécia Bórgia, Medusa, lábios de mel e a mão estendida como uma serpente escondida por detrás da pele embebida em cianeto, o encantador aspecto de uma ratoeira para o primeiro a abandonar o navio e a enfrentar as águas revoltas da traição arquitectada.
O beijo da perdição, evitado no último instante pela recusa do amante potencial que desperta para o mal que o seduz e vira as costas à luz do farol que o atraía com a sua luz para as rochas afiadas, um naufrágio a menos nas contas da matreira com a sua pose traiçoeira que a máscara tombada frustrou num olhar demasiado sincero.
A verdade assim exposta, a perfídia à mostra na identidade revelada pela expressão contrariada de uma predadora convicta, conquistadora invicta até ao dia de um não primeiro no rosto trocista do pioneiro que a derrotou quando elegante a cumprimentou e saiu porta fora e a cavalo foi embora, muito bem acompanhado, para longe do palácio onde a festa aconteceu.
E até hoje ninguém descobriu o nome daquele homem mascarado que permaneceu disfarçado nessa noite de Carnaval e fugiu com a rival da poderosa anfitriã, a mais bela cortesã que o reino conheceu.
Publicado por sharkinho às 06:16 PM | Comentários (9)
abril 12, 2007
NO FEAR (2)
Desliga os botões da máquina sem pressa, como se desapertasses a blusa de uma amante ocasional. Acaba com a respiração artificial que te agarra a uma realidade que morreu e aceita a passagem para o céu.
A liberdade da alma, como a do peito dessa dama, está condicionada pelo teu jeito para lidar com essas prisões.
Solta o teu corpo da vida prolongada sem sentido num sono tão profundo como o olhar dessa mulher que despes agora. Deita essa casca fora com a mesma determinação que empregas na cama quando a expressão dela já chama pelos lábios que precisas fechar.
Parte, quando a máquina parar de cumprir a sua função e experimentares a sensação de liberdade total, o orgasmo no final desse momento da vida, uma fêmea despida que acaricias agora antes de partires para fora da imaginação que a reproduz.
Ignora o teu receio e caminha para a luz.
Publicado por sharkinho às 11:03 AM | Comentários (2)
abril 05, 2007
A POSTA NO DESPERTAR DA FÉ

Deixou-se transportar, a alma, nos braços quentes de uma entidade superior (talvez o Amor) enquanto sentia como um corpo a magia e o conforto de um momento de paz absoluta.
Respirava fundo emoções, impoluta, que ar não existia, a alma que sentia como um corpo as sensações proporcionadas pela viagem em classe primeira. O doce percurso pelo halo de luz, a imagem difundida pelo imaginário colectivo da última corrida pelo mundo a que chamamos real.
E a alma vagueava com a calma que lhe dava aquela ilusão de felicidade imaterial. A serenidade total, uma surpresa. O fim de toda a tristeza e a eternidade confirmada.
Não era uma alma penada como temia quando ainda vivia no corpo pecador, quando vinha do interior da casca perecível o apelo irresistível para embarcar na aventura da tentação. Parecida, a sensação. No céu em cada minuto passado a contrariar o estipulado no catálogo das proibições.
E esta ideia despoletou-lhe recordações, sonhos húmidos até de quando caminhava pelo seu pé ao encontro dos anjos que a existirem só podiam ser aquelas criações divinas, as manifestações femininas do sexo que afinal possuem. As asas, mitologia, são apenas simbologia do sexo que os anjos fazem, cada mulher uma viagem na realidade ao regaço de Deus. Uma Deusa nua, na verdade, que a alma viajante já vislumbrava adiante, atordoada pela heresia da repentina erecção que do nada brotou.
E foi por essa incongruência que o agnóstico acordou.
Publicado por sharkinho às 10:53 AM | Comentários (0)
abril 03, 2007
NUNCA ASSIM
Às vezes não sai. Por escrito ou de outra forma qualquer.
Porque prefere ficar, talvez. Alojada no esquecimento que só um segredo bem guardado consegue proporcionar. Silenciado no pensamento de alguém.
Uma frase, às vezes nem mais. Que não sai por não querer.
Uma ideia resguardada pela ignorância sagrada das frases por dizer.
Talvez uma sugestão.
Talvez não.
Publicado por sharkinho às 12:20 PM
março 29, 2007
ZONA DESMILITARIZADA
Vestir uma couraça que a dor não trespassa, impermeável à água e ao sal que a podem corromper. Lágrimas a verter da nascente que secou, imaginárias. Lágrimas das memórias de dias em que faria todo o sentido chorar.
Colete à prova de balas que podem ser palavras apontadas ao coração. Palavras como fechas, na ponta um espigão. Invulnerável à carta armadilhada em cada resposta desleixada, em cada repetição do atentado que deixa estropiado o pressuposto da confiança que oferece a segurança na qual deixamos de acreditar.
A resistência de uma armadura, o desconforto que perdura para lá da inevitável reconciliação. A benesse de um perdão que funciona como lenitivo, adiamento do sofrimento que cedo ou tarde acabará por sobrevir.
E tentamos reagir, fortificados na razão que nos assista, um bastião que resista ao colapso em câmara lenta da ponte levadiça que antes estendíamos sobre o fosso que pessoa alguma consegue transpor.
A força do amor (próprio), aliada ao instinto de sobrevivência emocional. A protecção total da sensibilidade atacada em cada resposta desleixada ou na evidência da nossa irrelevância nos contextos alheios.
A trincheira da salvação, escavada por cada batalha travada quantas vezes em vão. A última linha de defesa contra o assalto da incerteza, a linha que mantém a ligação pendurada por um fio, do outro lado o silêncio ou a reacção hostil.
A derrota necessária da utopia que se reergue mais tarde, reforçada pela lição estudada dos pontos mais frágeis da sua construção.
E adicionamos um canhão no veículo blindado, avançamos para qualquer lado com espírito ganhador.
As palavras de amor, munições devastadoras, palavras demolidoras que penetram as defesas mais sólidas e as melhores intenções.
Avançamos para a conquista da praça forte, desafiamos a sorte quando insistimos: “és tu!”
E depois confiamos a vitória à fragilidade de um corpo nu…
Publicado por sharkinho às 10:15 AM
março 22, 2007
AVE MIGRATÓRIA
Olhar fixo no céu, asas inquietas. Todas as janelas abertas e nenhuma tentativa de impedir a partida iminente, a subida emergente para o espaço de liberdade que o sol iluminou.
Na gaiola dourada toda a gente percebeu que a Primavera chegou.
Publicado por sharkinho às 09:23 AM | Comentários (6)
março 14, 2007
TARDE DEMAIS
Foto: Shark
Esperou sentada pelo fim da madrugada que nunca chegaria a acontecer. Esperou pelo dia a nascer, em vão. Só chegou a solidão transportada ao colo pela brisa gelada que anunciou a teimosia invernosa que cobria o horizonte e impedia o sol de despontar.
A noite sem acabar e ela sentada no vão de uma escada à espera de um novo dia que nunca mais nascia, teimosa a escuridão.
As rugas nas costas da mão pousada na pedra fria, o tempo que lhe dizia estar prestes a acabar.
O vento frio a soprar, sozinha naquele lugar, aquecida por dentro pelo calor do pensamento e arrepiada pelo arrependimento que lhe fustigava a pele de anciã.
O olhar perdido na esperança vã de uma luz mais adiante, a espera tão frustrante pelo dia que nunca mais surgia como a doce companhia renegada na Primavera que desdenhou.
O tempo que passou foi tempo demais e agora dizia jamais voltarei ao instante em que passei, sou um caminhante incapaz de parar a olhar para trás e avanço sem apelo para o tempo que virá, em busca de cada momento que o futuro me trará.
E ela estendia o braço para agarrar um pedaço daquela velha recordação, dedos vazios na ilusão de uma imagem sem vida da oportunidade perdida que o tempo esborratava na sua mente a envelhecer.
Os desgostos para esquecer e o tempo desperdiçado em cada dia sonhado à revelia d