março 21, 2008
NO REGAÇO DE UM SONHO, FANTASMA

Apenas o silêncio cortado a espaços pelo rastejar de uma cobra no meio das ervas, ou seria o som da sua própria atitude que a mente descodificava como uma vergonha que rastejava mesmo ao lado, de raspão pelo passado, do seu corpo entregue ao flagelo do frio.
Era o que ouvia para lá do seu vazio por preencher.
Olhava o céu sem o ver, cego de nascença num ponto da consciência que lhe obliterava a perspectiva e o forçava a enfrentar o nevoeiro sem a mais pequena noção de um rumo, da direcção adequada para o local que procurava sem saber como nem porquê.
Tudo aquilo que alguém vê na escuridão de um espaço interior.
Oco como a mente de um louco condenado a prisão perpétua numa cela forrada a papel de lucidez.
Via apenas um momento parado de vez, num ponto fixo do tempo, uma imagem repetida até à exaustão que sentia como um chicote, uma punição, nas costas do arrependimento e no rosto enrugado que servia de leito às lágrimas que vertia quando ainda sabia chorar.
Apenas o cheiro dos cabelos, fragrância de saudade arrastada desde um local remoto na sua memória bloqueada como se estivesse blindada contra a tarefa inglória de a apagar.
O vento que a soprava contra si, lá dentro, contra as paredes de um cérebro empedernido como um rochedo, enfrentando a força colossal da rebentação.
Ondas eléctricas, lembranças, apenas vagas semelhanças entre o caminho antes percorrido e o trilho sem norte que o conduzira, sem sorte, até um ponto de saturação.
O grito lançado como um pombo-correio desorientado contra as copas das árvores onde a mensagem se perdia por entre a folhagem que jamais reagia à fúria que sentia, como ele, quando a voz lhe tocava a pele em suaves acordes da brisa que fingia nem o ouvir.
Depois apenas o silêncio cortado a espaços pelo longínquo rumor de palavras cheias de amor que a mente descodificava como um último beijo antes de adormecer.
Foi esse o último som que escutou.
Na alvorada do dia em que a sua alma beijada finalmente despertou.
Publicado por sharkinho às 12:14 AM | Comentários (0)
março 14, 2008
ALEGORIAS E INCERTEZAS
A vida que não pára de acontecer no ecrã do olhar com que a projectamos nos bastidores da consciência, ao livre arbítrio da percepção.
A atitude da mulher muito produzida, declaradamente vestida para a arte da sedução, clandestina no telefone público enquanto atende o telemóvel com a outra mão. Fugida de uma realidade que lhe estagna a vontade, proibida de assumir o apelo interior para exigir o amor fatal que a arrasta por uma existência com algo de intenso, de indispensável e contudo marginal.
O desespero no homem apanhado de surpresa pelas palavras escritas numa folha de papel. A expressão no rosto de quem não esconde o desgosto, a folha amarrotada para dentro de um bolso enquanto se prepara para abandonar a mesa do café.
O olhar de relance para os dois extremos da rua, dois caminhos possíveis para passear a desorientação.
A caminhada para outro lugar, uma distância percorrida que de alguma forma consiga afastar o corpo e o pensamento do choque tão violento que parece fazê-lo alucinar.
A jovem na janela, sorridente. Abraçado por detrás o amante à barriga crescente de esperança na vida que um grande amor concebeu.
Observam a dois o céu tão azul que o sopro do vento limpou entretanto das nuvens e dos medos e de tudo quanto os possa impedir do direito a usufruir da felicidade em estado puro.
A silhueta por detrás da cortina da janela que fechou, à espreita, alguém que me imagina personagem do filme feito à medida de cada realizador. A história imaginada a partir de um pormenor da versão observada por olhares alheios à minha interpretação.
Avatares do que somos na imagem parcial do que damos a ver.
Na vida que, afinal, nunca pára de acontecer.
Publicado por sharkinho às 05:19 PM | Comentários (2)
março 06, 2008
PEQUENO DRAMA DO QUOTIDIANO (2)
Não me apetece falar de bola.
Publicado por sharkinho às 11:12 PM | Comentários (2)
fevereiro 29, 2008
MULHER MORTA A TIRO EM SACAVÉM
Ainda há pouca informação disponível, mas tudo indica que passava de carro junto à clínica de Santo António, na urbanização Real Forte, quando foi baleada acabando por morrer.
Trata-se da quinta pessoa morta no concelho de Loures nos últimos dias.
E um gajo não consegue deixar de se sentir ainda mais desconfortável com um assassínio quando ele acontece a escassas centenas de metros da sua porta.
Publicado por sharkinho às 10:29 PM | Comentários (3)
fevereiro 18, 2008
JÁ DESPONTA ALÉM

Foto: Shark
Pontos de passagem. Alguns pontos de paragem pontual e nada mais.
Marcas aleatórias no horizonte em constante mutação porque tudo muda de posição enquanto o tempo se move, porque tudo pelo tempo se deixa inexoravelmente arrastar.
Pontos de miragem, convertidos no pó deixado para trás pelas ilusões.
Por vezes afiguram-se irreais, pela surpresa das suas deambulações erráticas que alteram pressupostos e desenham uma nova construção. Um caminho, afinal, que o tempo trilhará arrastando pontos pela paisagem transformada, o futuro a preparar-se sobre o presente instalado em cima do passado que o tempo enterra sob o chão que se pisa depois.
Pontos de cruz no emaranhado das fés, perdidos em esperanças e cogitações, atentos a todos os sinais que choram em rostos de pedra. E escorrem as lágrimas de sangue que lhes deitam a conta-gotas para o milagre se converter em realidade adulada, os pontos de partida para um lugar que todos desejariam melhor.
Pontos passados, os pontos enterrados pela vida que precisa continuar, um caminho por trilhar pelos pontos de interrogação que são restos de colecção que passam de moda quando o tempo passa demais.
Pontos cardeais, os que traçam a rota. Pontos fatais os que fecham a porta na cara dos que planeavam o troço para amanhã, no futuro que sonhadores pontuavam com uma exclamação.
Pontos finais nos parágrafos que relatam aquilo que entretanto aconteceu. A vida que cada ponto viveu, livre das reticências de imensos pudores. Dos feitos aos amores, ponto assente, o mais bravo ou inteligente pontuado acima da escala considerada normal.
Por vezes são pontos de vista, pela certeza nas suas convicções, luminosos como faróis que desvendam o mapa assinalado, o caminho já percorrido pelos pontos mais marcantes de uma história a galope numa memória colectiva sem intervalos de pontuação.
Pontos à deriva na escuridão de uma dúvida existencial, oscilando entre o bem e o mal separados à nascença por uma irrequieta terra de ninguém.
Pontos de passagem de uma para a outra margem de um rio tão instável nos humores, tão variável o seu caudal.
E qualquer ponto da travessia pode, num instante, revelar-se um ponto final.
Publicado por sharkinho às 12:15 AM | Comentários (0)
janeiro 18, 2008
MARI LUZ
Cada vez é mais raro ouvir os gritos e as gargalhadas de crianças a brincarem na rua.
Publicado por sharkinho às 12:07 PM | Comentários (8)
dezembro 24, 2007
A MULTIPLICAÇÃO DOS SILÊNCIOS
No Gmail existe uma espécie de msn de bolso no qual se inclui um dispositivo que permite saber se um dos nossos contactos está acessível em cada instante. Há meses que não encontro nem um símbolo verde nesse grupo, mesmo quando poucos segundos depois de enviar um email a algum/a essa pessoa se revela, coincidência, online nessa altura.
No Hi5 o fenómeno é ainda mais bizarro. Já fui "convidado" para ser amigo de várias pessoas e aceitei uns quantos convites. Até à data nem uma palavra rendeu esse conjunto de amizades virtuais, mudas talvez por inerência.
E ainda existe o próprio MSN, onde sou em quem oculta aos outros o sinal da minha presença.
Ainda restam as caixas de comentários, nas quais parece instalar-se a moda de não responder de todo ou de responder apenas a quem apeteça.
E o email, esse antigo meio de comunicação cada vez mais reduzido a um veículo de retransmissão de paródias ou de apelos claramente fictícios?
Nunca na história da humanidade deve ter existido uma panóplia tão vasta de persianas corridas.
Publicado por sharkinho às 12:15 AM | Comentários (9)
dezembro 23, 2007
NÃO CONSIGO EVITAR O DESCONFORTO
Sempre que penso na cena foleira que me contaste ontem.
Publicado por sharkinho às 11:58 PM
dezembro 17, 2007
ESPÍRITO DO NATAL (monday version)
O fulano entrou no meu escritório e pediu-me um favor. É cliente de um colega meu e precisava de o contactar. Liguei para o telemóvel do colega, para obter o número fixo do seu escritório.
Enquanto falava com o meu colega, seco e antipático do lado de lá da linha como se estivesse a fazer-me o favor de atender a chamada, o seu cliente oportunista quase gritava o assunto que o movia, tentando forçar-me a passar-lhe o telefone.
Que desliguei, recordando-o que estava a utilizar o meu telemóvel pessoal para o desenrascar (a ver se o bacano enxergava o abuso inerente).
Não percebeu. E eu tive o primeiro contacto do dia com a costumeira alegria que qualquer segunda-feira me proporciona.
Publicado por sharkinho às 11:25 AM | Comentários (9)
novembro 29, 2007
PELA PORTA DAS TRASEIRAS

O som da porta a fechar, pelas costas.
A surpresa dentro de uma caixa, embrulhada com fantasia estampada em sorrisos de papel. O vento a soprar nas cortinas da janela como se algo tivesse acabado de fugir por ali, um fantasma. Talvez. Ou a memória de uma aposta falhada na roleta que a vida, endiabrada, vai colocando ao dispor.
A luz apagada no corredor, adiante. Passos firmes que a circunstância não é de vacilar. A paciência tão escassa, de repente a esgotar, no meio da charada provocada pelos erros de interpretação.
Uma vela acesa na mão, promessa adiada, iluminação improvisada, coragem medida na resistência aos pingos liquefeitos de cera tombados na pele. Ou indiferença, talvez.
Outra porta, fechada, dedos suaves na maçaneta, no final do caminho deixado para trás. A lembrança de uma terrível ofensa, reafirmada no silêncio consentâneo com uma cobarde deserção. O medo de falar (demais) e revelar (sempre depois) outras surpresas dentro de caixas, fechadura mudada para esconder do espião traiçoeiro as jóias da família no cofre da reputação.
O fantasma da ingratidão mais o espírito hipócrita, assombrada a sala para lá do umbral. O vento a soprar nas cortinas da janela, outra vez, ao fundo da sala com uma porta entreaberta. A vela apagada e a vontade abandonada de recuar para a escuridão.
O passo adiante em busca de uma luz natural. O brilho da lua logo ali.
O som da porta a fechar, por detrás. A surpresa toda nua, deitada no mais confortável dos sofás, fantasia iluminada pelo reflexo de um olhar. O vento a arrepiar as costas lambidas pelo frio epidérmico que as cortinas da janela não impediram de entrar. O sexo intenso, choque térmico, calor imenso, suor escorrido em gotas sobre a vela apagada tombada no chão.
O olhar pousado noutra porta qualquer, talvez no corpo de uma mulher.
A porta de acesso a uma varanda com vista desafogada para outro vazio interior.
Publicado por sharkinho às 11:06 PM | Comentários (0)
novembro 26, 2007
AGORA É MUITO MAIS BARATO...
...Fazer depilação definitiva.
Fiquei a sabê-lo a partir de um folheto que encontrei na minha caixa de correio (não são só os meus grandes amigos dos hipermercados e das caixilharias de alumínio que me escrevem, julgam o quê?).
Mas a cena posta assim nem teria chamado a minha atenção, cada um depila onde gosta. O busilis está no facto de o folheto ser concebido para as meninas e para os meninos também. Com tabela de preços e tudo.
E na tabela de preços fico a saber quanto custa ser metrossexual. Por exemplo, depilar meio tórax custa €140 e por isso mais vale fazer uma carecada completa que fica por €230. O mesmo não acontece com os glúteos. Meios glúteos custa precisamente metade da geraldina na região.
Virilhas totais, e eu não sei se quero saber exactamente o que se entende por "totais", custa apenas €180 e não percebo como é que ainda há neandertais como eu, cheios de pelos numa zona que se quer lisa e pueril nos dias que correm.
Mas aquilo que mais me desanimou e inibiu de enveredar algum dia na onda depila foi o preço das pernas completas: €600!
Cento e vinte contos??? Só se for para um gajo poder participar num bacanal (toda a gente usa orgia e eu gosto de variar) onde nunca se distinga quem é quem (ou o quê) no meio da salganhada e sermos todos/as como irmões com as peles de bebé que a alguém devem interessar ou a malta não se vinculava a uma dose mensal de tosquia recomendada (rosto) ou bimensal (corpo) que feitas as contas custam os olhos (e não apenas os pelos) da cara.
Agora é muito mais barato e definitivo (para quê então as "sessões" posteriores?), diz o folheto.
Mas na penugem deste tubarão conservador não tocavam nem que fosse de borla...
Publicado por sharkinho às 08:18 PM | Comentários (4)
novembro 19, 2007
CIÚME À DENTADA
De acordo com uma notícia publicada no jornal chileno "Las Últimas Noticias", uma boliviana cortou a língua ao namorado chileno na sequência de um flagra no qual o apanhou a beijar outra mulher.
Depois de uma discussão entre ambos, a mulher, Celia Mita, de 31 anos, propôs-lhe que se acalmasse e a beijasse para fazerem as pazes. E foi durante esse "cachimbo da paz" que a senhora lhe cortou a língua ao meio com tal gana que nada houve a fazer para reconstituir cirurgicamente o escalope do infeliz que, dessa forma, não voltará a falar.
Depois do célebre caso de Lorenzo Bobbit, a quem a respectiva amputou o dito cujo, esta é das mais cruéis manifestações do pior que o ciúme provoca nas pessoas que me constaram nos últimos anos.
E cada uma delas recorda-me a estupidez que transborda da essência desta emoção negativa a que só os românticos mais desvairados podem chamar uma "prova de amor"...
Publicado por sharkinho às 11:21 AM | Comentários (6)
novembro 05, 2007
UM HOMEM QUE MORREU A TENTAR FUGIR DA VIDA
Protagonizou quase todos os episódios mais loucos que a vila conheceu.
Irrascível, mente perturbada por anos de dependência de substâncias malucas, entrava e saía de hospitais psiquiátricos ou de penitenciárias. Falava sozinho, berrava. E ninguém lhe dava a volta à porrada, nem mesmo os mais duros e temidos das redondezas.
Filho de gente com posses, quase arrasou o património familiar com as consequências do seu comportamento imprevisível. Sobretudo quando quase deixaram de existir os raros "dias bons" em que nenhuma história rocambolesca o envolvia.
Fugia do destino que todos lhe auguravam, desesperado, alucinado, infeliz.
Acabou por morrer em mais uma tentativa de fuga, que as tinha muitas bem conseguidas, da polícia ou de outra ameaça qualquer.
Da morte, antes dos quarenta anos de idade, este meu vizinho e cliente não logrou escapar.
Publicado por sharkinho às 06:26 PM | Comentários (2)
outubro 08, 2007
PERCEBEU QUE NADA HAVIA A FAZER...
...E porquê, quando viu o alvo das suas atenções estimular perante uma gaja (e com todo o entusiasmo) um programa similar ao que a ele havia recusado durante meses a fio.
Publicado por sharkinho às 02:31 PM | Comentários (0)
setembro 15, 2007
DESCOMPLICAÇÃO GENIAL
- Ò meu docinho, já hoje te disse o quanto me sinto feliz a teu lado?
- Ainda não, meu amor. Pelo menos nos últimos quinze minutos…
- E acho que tiveste uma ideia sensacional em aproveitarmos o fim-de-semana para arrumarmos o sótão cheio de velharias e de pó, como essa lanterna antiga que tens na mão para limpar.
- Pois é, meu querido, eu também adoro estes momentos de partilha e tudo aquilo que representam na proximidade que temos enquanto casal.
- É isso mesmo, doçura, quase como irmãos que tudo sabem um do outro, uma simbiose perfeita, uma… uma… Olha lá, é impressão minha ou a lanterna está a fumegar?
- Credo, pois está. Pensava que era uma nuvem de pó, meu amor. E agora?
- Pousa isso depressa, meu amor, tenho medo que te magoes. Mas, mas, quem é esse gajo barbudo ao teu lado?
- Ai, meu querido, que susto! Tás sempre a brincar, maroto…
- Mas está mesmo um gajo barbudo ao teu lado, com umas vestes esquisitas. Acho que me deves uma explicação.
- Hã? Desculpa? Uma explicação para o quê?
- Para o quê? Está um homem no sótão, eu não o conheço de lado algum e estive quase dois meses fora.
- Tu estás a sugerir alguma coisa? Tens a lata de me vires com insinuações depois de eu por várias vezes ter ouvido vozes de mulher no teu quarto quando te telefonava para o hotel?
- O quê? Vozes de mulher? Isso deviam ser as camareiras, tás parva?
- Às onze da noite, como na última chamada que fiz? Deves ficar em hotéis muito especiais, tu…
- Eu posso explicar, meu amor…
- Permitam-me que me apresente, eu sou…
- O senhor importa-se? Estamos a meio de uma conversa privada.
E tu podes explicar o quê? A conversa toda fresca com a gaja da florista, aquela boazona atiradiça, onde me compraste a prenda do dia dos namorados e que a minha melhor amiga ouviu?
- A conversa? Qual florista? A tua amiga enlouqueceu! E este barbudo com o coiso esquisito na cabeça, de onde é que ele veio?
- Permitam-me que esclareça, eu vim de…
- Olha pá, é melhor para ti que feches a matraca antes que eu perca a cabeça e faça das minhas. És o último a falar e quando a tua vez chegar calas-te, topas?
Mas vá, explica lá como é que eu chego a casa e dou com um caramelo no sótão?
- Preferias no roupeiro, era? Parvalhão…
- Ainda tens a lata de me insultares? Eu ando a trabalhar longe de casa para atender a todos os teus desejos e tu…
- Por falar em desejos, se me permitem eu sou um génio e…
- Ah sim? És um génio? Então descobre lá uma solução para evitares que eu te parta já essa tromba toda. Tás a gozar, ainda por cima? Palhaço! Caluda!
- Andas a trabalhar longe de casa para quê??? Então e o descapotável caríssimo que compraste antes de partires e que logo no dia da estreia já estava cheio de cabelos louros nos estofos que tu disseste ser da “vendedora”. O cartão do stand que encontrei por acaso no porta-luvas diz que a vendedora se chama António e tem um bigode que conheci de perto quando fui lá devolver-lhe a penugem. Era moreno, como sabes, e a penugem não lhe pertencia.
Mas eu percebi logo, quando vi a recepcionista, quem é que te acompanhou no test drive que me descreveste com tanta intensidade e sorrisos. Idiota arrogante…
- Já tás a ir longe demais nos insultos. E foste fazer o quê ao stand? Que história é essa do bigode?
- Olha para ele, tão incomodado… Fui ao stand experimentar a sensação de comprar um carro novo que tanto desejava. E adivinha lá quem o vai vender?
- Tu andas metida com o Tó?
- Não mais do que tu com a recepcionista, mas o Tó já me provou que também tem jeito para o trabalho da recepção à clientela. E ao contrário dela não larga pelo ao longo do caminho…
- Desgraçada, traidora, fizeste de mim um cornudo!
- E tu, aldrabão, porco sujo, fizeste de mim o quê?
- Desavergonhada, gaja fácil…
- Ordinário, só tens areia para a camioneta das outras…
- Permitam-me que interrompa, mas eu só posso conceder um desejo por pessoa e tem que ser depressa, pois tenho que regressar ao mundo da magia…
- Ah é, barbudo dum cabrão? Então só quero o divórcio, rápido e sem complicações, e uma ambulância para te levar ao hospital depois de eu te enfiar a lanterna pelo focinho, filho de uma…
Puf!!!
- Para onde é que ele foi, o cobardolas?
- Para onde ele foi não sei, mas o António vai adorar ver-me chegar ao stand com o descapotável que passou a ser meu (tal como tudo o resto, aliás), de acordo com esta papelada que a teu pedido se preencheu por magia e sem complicação alguma para atrapalhar o processo.
O meu desejo, que formulei enquanto te armavas em duro, foi ter lá a tua assinatura…

Publicado por sharkinho às 07:33 PM | Comentários (0)
EFEITOS BOOMERANG
Para muitos, o desconforto de ver afirmada uma verdade que se esforçam por contornar transforma-se em rancor instintivo e direccionado para com quem arrisca proferi-la.
Nesse efeito contraproducente encontro a explicação mais evidente para a progressiva extinção das relações e das posturas a que podemos, com propriedade e sem floreados tão convenientes quanto hipócritas, apelidar de sinceras.
Publicado por sharkinho às 01:26 PM | Comentários (0)
agosto 31, 2007
SUPPER'S READY

O copo sobre a mesa, vazio.
Ao lado o guardanapo inútil, sem qualquer canto de boca para servir.
Os talheres, reluzentes, ladeavam imóveis como sentinelas o prato cujo conteúdo arrefecia à mercê da brisa gelada de uma noite invernosa.
A janela aberta para entrar o som mais esperado, sempre adiado pelo logro da expectativa que adicionava mais um pedaço de certeza a uma provável desilusão.
As velas compridas acabadas de acender.
O copo sobre a mesa, cheio de ar.
Mesmo ao lado o pano trabalhado nas bordas pelo escopro talentoso em que se transformava a agulha de uma avó, desnecessário, ostensivo, patético perante a cadeira vazia onde alguém tardava a sentar.
Os talheres, indecentes, prata de lei cuidada tão desperdiçada assim. A falta de uso repetida em cada uma das ocasiões previstas, especiais, perfilados, alinhados, na perfeição simétrica à altura de um prato integrante do serviço impressionante que em tempos fizera parte de um ambicioso enxoval.
A janela aberta para entrar a esperança cada vez menos arejada no peito anfitrião. A dificuldade na respiração, entrecortada pelo crescendo de um soluçar reprimido perante o avanço implacável dos ponteiros sobre o momento da desistência que se repetia e depois desistia de si própria a cada som que a noite gelada inventava para enganar.
As velas que brincavam às sombras chinesas nos extremos da mesa quando balbuciavam, desequilibradas pela brisa, os seus últimos suspiros de luz.
Tempo demais.
O copo sobre a mesa, vazio outra vez. Tombado sobre um guardanapo inútil, bordado pelas mãos infatigáveis de uma anciã muito chorada no dia em que o mundo a perdeu. Amparado pelo garfo na queda, inevitável o desalinhamento com a borda do prato partido em dois.
A janela fechada na cara do frio, a sensação de vazio preenchida aos poucos pela raiva alimentada em tantas noites iguais.
As velas, o seu coto, apagadas pelo sopro quente e irado de uma alma em ebulição, transtornada, a garrafa despejada vezes sem conta naquele copo absurdo até explodir na parede quando a sua utilidade se extinguiu.
E a faca de trinchar, feita de prata, tão afiada?
Entretanto desapareceu...
Publicado por sharkinho às 12:29 AM | Comentários (3)
agosto 04, 2007
URBAN VOIDS
Foto: Shark
A Trienal de Arquitectura que encerrou no passado dia 31 debruçou-se sobre os vazios urbanos. Sugere-se que o futuro das cidades depende em muito do empenho na busca de soluções para preencher de novo esses espaços mortos que qualquer cidade produz.
Para quando uma Trienal de Psicologia?
Publicado por sharkinho às 11:52 AM | Comentários (4)
julho 25, 2007
SECOND WIFE
Enquanto ele andava entretido a brincar com o seu avatar no monitor do computador de casa ela fez as malas e foi brincar com o monitor do seu ginásio...
Publicado por sharkinho às 12:05 PM | Comentários (6)
julho 03, 2007
LAST PICTURE

O olhar recusou-se a fugir da expressão daquele homem cuja boca fechada contrariava a sua óbvia intenção de berrar.
E se calhar até berrava, lá dentro, no interior daquele corpo vergado ao peso da pressão que não conseguia libertar.
E a testemunha a observar em silêncio o percurso do olhar daquele homem que seguia os pássaros no seu voo sem ver mais do que a versão de negro por si estampada naquele céu azul.
A revolta abafada como um princípio de incêndio sufocado por cobertores, panaceias sem sucesso para a vontade irreprimível de abrir a boca e soltar os demónios cujas garras retalhavam, sem piedade, o centro nevrálgico da dor.
Mas a boca permanecia fechada e a loucura progredia aos poucos na sua lenta caminhada até à demência total.
Nenhuma ajuda possível por parte da pessoa estranha que percebia, do outro lado da linha, a iminência medonha de uma coincidência horária no ponto de saturação.
E o homem sentado num banco da estação, a sós com o seu desespero mudo, incapaz de encontrar uma saída naquele labirinto isento de luz.
O outro, preocupado com a sua impotência, massacrava a consciência pelo dilema entre a indiferença prudente e a intervenção que lhe parecia urgente se de alguma forma quisesse protagonizar uma salvação.
Ou um simples adiamento de uma cena macabra, marcada no calendário sem folhas daquele homem que não berrava pelas forças esgotadas demais.
O bando de aves já desaparecia no horizonte, acaso foleiro, quando o olhar que recusava fugir seguiu o impulso inconsciente de procurar uns metros adiante, por uma fracção de segundos, a silhueta crescente do comboio que avançava sobre a linha rumo à hora de ponta de outra estação qualquer.
Publicado por sharkinho às 04:03 PM | Comentários (0)
julho 02, 2007
THE PAIN IN THE ASS
Há pessoas que possuem o condão de nos carregarem as costas com todos os pesos que o quotidiano lhes impõe.
Se o permitimos, acabamos sem apelo transformados no alvo preferencial para os desabafos azedos.
E por inerência excluídos, digamos o que dissermos, de qualquer assomo de boa disposição.
Publicado por sharkinho às 10:53 PM | Comentários (2)